
Tenho escutado de muita gente (entre eles produtores de conteúdo e donos de editoras) que não é legal o uso de imagens geradas por inteligência artificial em jogos de board game. Tenho uma pergunta a quem está lendo: o que você pensa sobre o assunto? Melhor dizendo: o que você pensa sobre o uso desse tipo de imagem em protótipos de board game?
Em primeiro lugar, quero deixar claro: sou contra um jogo LANÇADO por editora que use imagens geradas por inteligência artificial. Os artistas estão aqui para isso, interpretar a ideia do game designer e colocar isso sobre a “tela” (cartas, tiles e tabuleiro). E ninguém faz isso melhor do que uma pessoa.
Mas e os protótipos?
Nem acho que deveria ser uma discussão (afinal, o protótipo é um rascunho, um PROJETO, não o produto final), mas já está dando o que falar. Já teve concurso por aí onde o game designer tinha de apresentar seu PROTÓTIPO, ou seja, o projeto de sua ideia, mas era expressamente proibido o uso de imagens I.A. Imediatamente vem a pergunta: se um protótipo passa no teste (as pessoas gostam, a editora gosta) e tudo é levado ao passo seguinte (pré-produção, produção e etc), não é só aí que os responsáveis vão contratar o artista para desenhar toda aquela ideia?
Game designer x Designer gráfico
Acho que o maior problema é a confusão entre os dois termos (embora a maioria dos jogadores e donos de editora saibam a diferença). No mundo dos jogos de tabuleiro, o game designer (projetista) cria as regras, mecânicas e a experiência lógica, focando em como o jogo funciona, enquanto o designer gráfico define a estética, identidade visual e diagramação (manual, cartas), focando em como o jogo aparece e é lido. O game designer estrutura a diversão, o gráfico a torna atraente e funcional.
Mais uma pergunta: se o game designer não sabe “desenhar”, qual o problema dele usar temporariamente imagens geradas por I.A. para deixar o seu projeto em teste mais atrativo?
A impressão que me dá quando as pessoas testam meus jogos é: “Eita, tá bonitão... Ah, mas é com I.A.? Ih, ele está desvalorizando o trabalho do artista”. Elas não param para pensar que cada imagem de um jogo, mesmo as mais simples, custa entre R$ 10 e R$ 30 no mínimo (envolvendo royalties). Isso significa que um simples jogo de baralho de 100 cartas custaria, por baixo, uns R$ 2 mil a R$ 3 mil para ilustrar. Isso sem falar em tabuleiro, tiles ou imagens mais complexas. Você realmente acha que um game designer que está testando 10 jogos para ver se dois ou três deles vão dar certo vai investir R$ 20 mil do bolso para embelezar seus projetos? Sem saber que vai dar certo (e a maioria esmagadora não vai)?
Um pedido: quem ainda entorta o nariz para arte de I.A. em protótipo, repense. O protótipo não está ali roubando o emprego de ninguém. É só um projeto que foi embelezado temporariamente para melhorar a experiência de quem está playtestando. Mesmo porque aquilo ali que foi colocado com I.A. está fora de lugar, organizado de forma errada, truncada e etc (justamente porque o game designer não é designer gráfico!). Quando e se aquele jogo for lançado, aí sim o artista será contratado e o que era um projeto tornar-se-á um produto completo algo que está sendo feito agora com um dos meus projetos).
Como game designer já criei mais de 30 jogos. Alguns deles têm arte própria (com ajuda de amigos), como é o caso do Camélia - Heróis Abolicionistas (e sei que se um dia ele for lançado, um artista terá de ser contratado para transformá-lo em um produto). Mas a grande maioria tem imagens geradas por Inteligência Artificial. Isso porque notei que uma playtest era mais produtiva e imersiva quando “mais apresentável”. Eles tiveram a sua vez do papel em branco e apenas formas geométricas, mas avançaram. E os que avançaram foram justamente os que publiquei na Ludopedia (porque muitos me perguntavam onde eu poderia ver mais sobre, ler manual, etc).
Aliás, para quem tiver interesse, basta procurar qualquer um dos meus jogos na Ludopedia e depois clicar no meu nome (no campo “designer” - Luciano Marques) para ver todos os outros.
Boca, Camélia - Heróis Abolicionistas e Tem que Ter - TQT foram, de longe, os que mais deram certo nas playtestes (além de um jogo de bandas de rock que desenvolvo há 5 anos e que está indo em breve para a lista da Ludopedia).
Como sempre, escrevi esse texto para ouvir as pessoas. Estou viajando? É isso mesmo que acontece? Um pouco dos dois? Por favor, deixe seu comentário que lerei com carinho. E como donos de editoras/designers já comentaram em meus textos, por favor, gostaria de ouvi-los aqui também (quiçá o renato_cec que é um craque como pessoa e designer).
Um grande abraço a todos.
Luciano Marques