ARTE
Hoje vamos debater um assunto que foi levantado há algumas semanas, no texto CULTURA, por um de nossos seguidores mais assíduos, o taisomotta, cujo único grande defeito talvez seja torcer para o Flamengo.
Brincadeiras à parte, naquele momento concordamos, por diferentes vertentes, que sim, jogos de tabuleiro são cultura e objetos culturais. Mas a questão que ficou foi: seriam os jogos de tabuleiro também arte? Essa será a pergunta norteadora de hoje que, se não pudermos elucidar completamente, poderemos ao menos nos aproximar um pouco mais da problemática e chegar a novas ideias.
Para tanto, penso que exista algo anterior a ser respondido: afinal, o que é arte? De fato, ao longo da história tivemos diferentes visões sobre o assunto. Se a cultura pode ser considerada toda a produção social feita pelo homem, a colocação que fazemos é que a arte é uma dessas possíveis produções conscientes, de forma a representar, em suas diversas linguagens, uma visão de mundo.
Tentando exemplificar: se sentarmos em grupo e contarmos histórias, fictícias ou não, uns aos outros, isso é, indiscutivelmente, um produto de nossa cultura. Porém, ao elevarmos o objeto em narrativas pontuadas, com pessoas diversas interpretando gestos e emoções, de forma a proporcionar ao ator e ao ouvinte maneiras de refletir e interpretar as ações postas, provavelmente concordaremos que esta narrativa, que passou a ser teatral, encontra-se em um produto artístico.
Entretanto, é interessante ainda enxergar como as concepções sobre a arte mudam durante a história da humanidade, passando da análise pura do objeto pelo sujeito para a relação do sujeito com o objeto.
Se os gregos iniciam o estudo da estética construindo sua relação como um reflexo da moral e daquilo que é bom, prendendo-se diversas vezes a padrões construtivos e geométricos, com rigor teórico, ao passar do tempo diversos pensadores colocam a relação da arte no sujeito, no observador, naquele que interpretará e sentirá a obra feita.
Nesse sentido, um autor que trarei à superfície do debate, que buscou estudar e aprofundar alguns conceitos sobre o assunto, é Liev Tolstói, importante escritor russo do século XIX. Em seu texto “O que é arte?”, de 1898, ele procurou elucidar alguns conceitos do que, para ele, seria arte. Trago aqui uma citação que pode colaborar para o nosso debate: "O principal é que a arte não é o prazer, mas um meio de comunicação que, unindo pessoas pelos mesmos sentimentos, é indispensável para a vida e o progresso de cada indivíduo e de toda a humanidade." (Tolstói, 1898)
Nesse trecho, o autor esclarece dois pontos que julgo importantes para o assunto. Primeiramente, que a arte é uma forma de comunicação, ou seja, um jeito legítimo de expressar pensamentos, ideias e, o mais importante, sentimentos. Segundo, sua necessidade básica e indispensável ao indivíduo e, assim, para toda a humanidade, logo, algo do humano para o humano.
Com essa ideia, e poderíamos ir em busca de muitas semelhantes, não é difícil enxergar como os jogos de tabuleiro se encaixam como arte. Gosto muito de ouvir autores de jogos contando sobre seus processos criativos, sobre as histórias que eles querem narrar naquele momento, sobre os sentimentos que querem trazer à mesa durante uma partida; por mais abstrato que possa ser, não deixa de ser arte.
O Belíssimo The Gallerist, mas será que só jgos bonitos são arte? Fonte: Ludopedia
Quantos jogos, por mais simples que possam ser, ao fim de sua experiência não proporcionam horas de discursos acalorados, atitudes memoráveis e momentos em que não pararíamos para pensar em outras situações, justamente porque um ser humano propositalmente quis nos proporcionar esse instante?
Muitas vezes pensamos na arte como algo passivo, de um observador calado diante de uma pintura em um museu, mas a arte é, antes de mais nada, uma ação de um autor para a ação de um observador atento. Se ao olharmos uma caixa fechada não há entendimento artístico algum, é devido ao mesmo fato de termos um livro à nossa frente e não sentirmos nada ao vermos sua capa: é preciso folheá-lo, lê-lo, conhecer suas minúcias, interpretar seus significados.
É claro que, ao chegarmos aqui, podemos facilmente colocar os jogos de tabuleiro na mesma prateleira (desculpem o trocadilho) de tantos outros objetos artísticos que conhecemos. Entretanto, para o bom e atento leitor que sei que está aí do outro lado, este texto pode trazer mais perguntas que respostas.
A famosa árvore de Everdell: Bonita na mesa, útil para a jogatina? Fonte: Ludopedia
Por exemplo, após todo esse debate monológico, ainda assim levanto alguns outros pontos não respondidos: todos os jogos de tabuleiro podem ser considerados arte? Um boardgame pode ser considerado arte por alguns e não por outros? Como o atual sistema de produção em massa colabora para os jogos de tabuleiro enquanto objeto artístico para além do comercial? Enfim, inúmeros questionamentos que, para não fugirmos dos propósitos que levantamos para o nosso canal, poderemos deixar para outros momentos oportunos.
Faço, então, a finalização resumindo que, muito mais do que prazer estético aos olhos, nossos jogos de tabuleiro são, sim, obras artísticas autênticas, ao passo que proporcionam aos espectadores ativos e atentos momentos de reflexão, de compreensão, de confronto com seus sentimentos e suas experiências diante da mesa. Tratá-los como simples passatempo talvez seja rebaixá-los a um objeto alienante no qual, de fato, eles não se encaixam.
Se você chegou até aqui, espero que tenha feito sentido. Agradeço a leitura e peço, por favor, que se inscrevam no nosso canal da Ludopedia, assim como em nosso perfil no Instagram: @pontocapitalbg. Não deixem de curtir, comentar e compartilhar; vamos enriquecer o debate. E lembre-se: o mundo começa a fazer sentido quando entendemos que a vida é um jogo cooperativo!
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