ESTÉTICA
Se você, boardgamer médio brasileiro e consumidor assíduo de jogos de tabuleiro, ainda não passou por essa situação, aguarde e fique atento: o momento que descreverei, salvo um ou outro detalhe, ainda chegará. Você pega seu celular, abre seu aplicativo de mídias favorito e se depara com um relato, foto ou vídeo do lançamento imperdível da semana. É um jogo lindo, de fato belíssimo, com componentes que enchem os olhos e a mesa, cores extremamente saturadas e aquele incrível verniz localizado na caixa que reflete a luz, cegando todo o senso crítico que você pensava ter.
Com as guardas baixadas, você não tem dúvida: abre um espaço no cartão de crédito ou resolve mexer naquela reserva específica para jogos que estava guardando justamente para uma situação como essa. Compra o jogo, recebe-o em sua residência após uma ansiosa espera e o coloca na mesa da jogatina semanal depois de convencer os demais membros do grupo com os componentes premium e aquele cheiro único de boardgame novo. Você abre a caixa e faz todo o longo setup cheio de pormenores; há corações emocionados e cheios de expectativa com tanta beleza exposta. Então vocês jogam e... bom, o jogo é bem fraco, no máximo “ok”.
A decepção é grande, mas tudo bem, certo? Talvez o jogo não seja para você, e se enganar com o próprio gosto provavelmente faz parte de participar deste maravilhoso mundo dos jogos de tabuleiro. Acontece que, meses depois (quem sabe até antes), você se depara com outro jogo bem parecido, com semelhanças em proposta, dificuldade e arte. Com o tempo, você começa a perceber que isso se repete muitas outras vezes, e passa a ter a sensação de estar vendo e revendo o lançamento do mesmo jogo todo mês.
Sinto que este deve ser um sentimento coletivo que, se não é compartilhado pela maioria, é revelado por uma parcela que está mais atenta e se aprofunda no hobby. Estaríamos em um surto coletivo, delirando sobre estes acontecimentos, ou há alguma convergência que podemos encontrar nesse caso? Dos muitos caminhos possíveis, penso que o melhor seria partir de uma frase que se popularizou como meme a partir de 2016 no Brasil: ”A crise também é estética” (André Dahmer, 2016).
FONTE: MUSEU DOS MEMES
Para além do problema do nosso sistema de produção em massa, que deixa de lado a qualidade em nome da quantidade, a chamada “instagramização” da sociedade toma conta de tudo hoje, com o advento das redes sociais e seu uso irrefreado. Isso vai desde os bares e restaurantes que servem refeições sem sentido que dificultam a experiência do consumidor até nossos amados jogos de tabuleiro, onde se preza mais pelo valor de exibição do que pelo valor de uso.
Não é necessário ir muito longe para enxergar isso. Vemos cada vez mais reclamações da comunidade sobre tabuleiros e cartas com muita poluição visual, que atrapalham o entendimento da iconografia e do jogo, ou ainda sobre boardgames com componentes que possuem pouca ou nenhuma utilidade na partida, servindo exclusivamente para embelezar o produto e deixá-lo mais apresentável às redes. Além disso, temos excelentes jogos antigos, de uma época em que a arte não tinha a relevância de hoje, que estão sendo esquecidos e ignorados nas lojas por não terem a estética adequada, apesar da mecânica impecável.
FONTE: ASMODEE
E a quem isso interessa? Compramos os jogos mais bonitos, muitas vezes com problemas de desenvolvimento claros e testados às pressas, e ainda fazemos propaganda gratuita deles em redes sociais. São atitudes virais que farão nossos amigos virtuais desejarem o mesmo sentimento de ter um jogo tão bonito exposto em seus feeds. Obviamente, com o alto valor que pagamos, muitas vezes não teremos a lucidez de admitir que o jogo não é tão bom, uma vez que a imagem formada precisa valer o preço gasto.
Além do marketing orgânico, o mercado ganha na padronização estética, estratégia muito reproduzida na música, no cinema e na literatura. Ao padronizar formas de arte, a indústria engana nosso pensamento ao generalizar objetos que deveriam ser distintos, proporcionando mais vendas e menos senso crítico, mais passividade e uma aceitação calada de um sistema que faz você consumir com base no belo.
Para finalizarmos, deixo um trecho de Dialética do Esclarecimento para reflexão:
“A barbárie estética consuma hoje a ameaça que sempre pairou sobre as criações do espírito desde que foram reunidas e neutralizadas a título de cultura. Falar em cultura foi sempre contrário à cultura. O denominador comum “cultura” já contém virtualmente o levantamento estatístico, a catalogação, a classificação que introduz a cultura no domínio da administração. Só a subsunção industrializada e consequente é inteiramente adequada a esse conceito de cultura. Ao subordinar da mesma maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio do ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária que os filósofos da personalidade opunham à massificação. Assim a indústria cultural, o mais inflexível de todos os estilos, revela-se justamente como a meta do liberalismo, ao qual se censura a falta de estilo.”
(Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, 1944)
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