MERITOCRACIA
Hoje faço um convite ao leitor para termos um exercício de imaginação. Pense que estamos numa mesa com um novo jogo de tabuleiro para cinco jogadores que precisa ser testado. Basicamente, nos encontramos à frente de um jogo bastante diferente. O tema não é bem definido ainda, mas envolve administração de dinheiro e recursos, além de ter um fator sorte bastante presente e que dificilmente pode ser mitigado, ao menos pela maioria dos jogadores.
Isso porque esse nosso jogo imaginário é assimétrico, particularmente uma característica de que eu gosto; porém, sinto que nessa nossa mesa fictícia não é bem o que se deseja quando falamos em habilidades diferentes, pela simples razão de nosso boardgame fazer com que nossos jogadores já iniciem a partida com muita discrepância entre valores.
Considere nossa situação hipotética com o primeiro jogador, aquele que iniciará a partida e tomará as primeiras e melhores decisões, já começando com quantias diversas vezes maiores que o segundo, e assim sucessivamente, de uma forma tão desigual que é até difícil compreender as diferenças somente com cálculos mentais. Além disso, nesse jogo de que participamos, dinheiro e recursos permitem fazer ações extras e tomar decisões cruciais que podem favorecer um ou outro jogador no decorrer da partida.
Aqui, o jogador inicial pode simplesmente fazer seus rendimentos aumentarem sem muito esforço enquanto ganha pontos de vitória das formas mais prazerosas. Já os últimos jogadores podem fazer ações repetitivas e com baixo retorno, que quase não os beneficiam; ao contrário, ainda precisam fornecer parte dos seus pontos duramente conquistados ao primeiro jogador, uma vez que ele controla o que se passa nas rodadas.
Entretanto, não se engane, a ficha de jogador inicial, tão bonita e cobiçada, não é transmitida a outros jogadores. Vez ou outra, numa tentativa de tornar o jogo mais interessante para si e não deixar os outros membros da mesa perceberem suas falhas, o nosso primeiro jogador permite ao segundo ou ao terceiro terem algum tipo de vantagem ou ascensão, mas, na menor ameaça à sua posição de glória, o primeiro jogador já toma seu lugar de controle e põe tudo de volta aos trilhos de sua já declarada vitória.
Talvez não precisasse nem citar, pela obviedade, porém sabemos que o óbvio também precisa ser dito, ainda mais numa sociedade em que se obscurece tanto aquilo que está bem diante dos nossos olhos. Mas, com certeza, para não ser perseguido e não deixar claras suas vantagens, o primeiro jogador tem o poder de criar mecanismos que fazem o segundo jogador atacar o terceiro, o terceiro o quarto, e todos o quinto, culpando sempre o posterior por seus fracassos, sem entender os motivos das mecânicas desse jogo belo, bem elaborado e, lembrando, fictício, simplesmente não funcionarem.
A partida se desenrola por horas a fio. O primeiro jogador faz de tudo para que os demais acreditem que, com o devido esforço, inteligência e estratégia, eles poderão alcançá-lo até a última rodada. Bom, chegamos então ao final e, sem nenhuma surpresa, o jogador inicial vence a partida. Existe raiva, frustração e ressentimento na mesa, dedos apontados e muito cansaço. É um jogo ruim, mas parece que ninguém está entendendo o porquê. O jogador inicial é o grande vencedor e ainda ganha os parabéns dos demais; teve mérito pela sua vitória. Aparentemente, passou-se tanto tempo que esquecemos como a partida foi iniciada. Terminado nosso exercício, criamos o terreno necessário para entrarmos no assunto.

Você com certeza já ouviu falar em meritocracia, provavelmente um dos termos mais propagados pelo liberalismo econômico recente, que acalenta os corações inclusive de muitos colegas progressistas. Mas, em um caráter quase religioso, a reflexão de hoje nos levará a outra pergunta: você realmente acredita em meritocracia?
Acredito que, antes de tudo, precisamos entender o termo que, como muitos outros, foi usurpado pela lógica de mercado e acabou ganhando significados diferentes de sua origem, mais amigáveis e palatáveis do que possuía inicialmente.
O termo nasce em 1958, cunhado pelo autor inglês Michael Dunlop Young no seu romance The Rise of Meritocracy. Nesta obra, o escritor busca satirizar o que os ideais da época começavam a tentar introduzir dentro do pensamento popular. Young cria uma sociedade distópica onde os mais inteligentes e capacitados receberiam, a partir de testes de proficiência, melhores condições de educação, enquanto os que não passassem nos testes deveriam seguir com uma educação focada na produção de mão de obra para os trabalhos necessários à manutenção do sistema, que aqui é justamente batizado de Meritocracia, uma junção da palavra mérito com o sufixo cracia, que significa poder, autoridade, governo. Ou seja, uma sociedade governada pelo mérito individual.
Até aqui, talvez o leitor que não costuma acompanhar nossas postagens possa ainda não ter entendido os problemas dessa sociedade distópica meritocrática, uma vez que ela em muito se parece com o que temos nas pregações ideológicas da maioria dos nossos rasos especialistas digitais. Entretanto, peço um voto de confiança para continuarmos de maneira bastante simplista na explicação, e é possível que você compreenda os problemas.
Bom, não é difícil perceber que tal sociedade terá de ser medida por padrões predefinidos de habilidades a serem conquistadas. A primeira questão seria então: quem criaria essa métrica? A quem ela beneficiaria? Nota-se assim que, só de ter um grupo que faria essas definições, o sistema começa a criar injustiças.
Agora, se nessa sociedade idealizada satiricamente por Young já aponta as injustiças que surgirão, como poderíamos falar em meritocracia num sistema econômico que necessita das desigualdades para se sustentar e mais se assemelha ao jogo hipotético que fizemos no começo de nosso texto?
Não venho aqui ser fatalista, nem desmerecer o esforço e dedicação que sei que muitos de vocês tiveram e ainda têm para conquistar o pouco que possuem. Mas creio ser importante combatermos esse ideal ilusório de que somente a força individual é capaz de alavancar o bem-estar, que deve ser um direito coletivo.
Enquanto apontamos dedos e culpamos programas de redistribuição de renda que buscam, se não acabar, ao menos minimizar os efeitos sistêmicos, perdemos nossos direitos mais básicos, duramente conquistados, e deixamos de entender a totalidade do problema.
Que não nos deixemos enganar por discursos individualistas que servem para criar uma competitividade irracional que nos divide ainda mais. Penso que o mérito é muito maior quando a conquista é coletiva. O jogo é bem mais prazeroso quando todos estão se divertindo, têm as mesmas chances e podem usar suas habilidades sem restrições programadas.
Por fim, nesta sexta-feira, dia oito de maio, se encerram as votações ao prêmio Ludopedia. De antemão, gostaria de agradecer a todos que depositaram seu voto e confiança no trabalho realizado por mim. Aproveitando o nosso tema, independente do resultado final, o mérito de chegarmos até aqui é de cada um de nós! Muito obrigado!
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