ESCOLHA
Hoje, de um jeito inédito nesta página, iniciaremos nosso debate ensinando um antigo e despretensioso truque de mágica, desses que você pode aplicar mesmo sem muita habilidade manual.
Você precisará de 5 cartas diferentes, de preferência numeradas e em sequência, o que facilita o processo. Você pode usar as cinco primeiras cartas do seu Pega em 6!, do seu Trio, daquele Ito famoso da galera ou mesmo usar os personagens do Coup. Para a mágica acontecer, não há relevância no tipo da carta, inclusive é uma excelente desculpa para, logo após o truque, colocar o jogo na mesa. Talvez fique aí a questão do que usar.
Das cartas possíveis, você escolherá uma e, previamente, escreverá em um pedaço de papel qual a carta selecionada, deixando esse bilhete escondido do observador, de preferência embaixo de algum utensílio ou dentro da caixa do jogo.
Agora é a hora da ação. Num momento oportuno, pegue as cinco cartas e convide um amigo, ou inimigo, sem julgamentos, para um “jogo”. As regras são simples: disponha as 5 cartas na mesa e seu amigo começará, afinal, você é um gentil boardgamer e deixará que ele inicie. Ele escolherá duas cartas dentre as possíveis, e você vai escolher uma delas para ser eliminada do jogo. Depois é a sua vez: das quatro cartas restantes, pegue duas e peça para seu amigo escolher uma para sair da partida. Obviamente, se a carta que você selecionou antes de tudo começar for escolhida entre as duas do seu amigo, você pegará a outra para deixar na mesa. Quando for sua vez, nenhuma das suas cartas deve ser a que está anotada no papel, assim não existe risco de o adversário tirá-la do páreo. Seu colega jogará mais uma vez, você irá tirar outra carta, que não seja a sua, e então serão apenas duas cartas na mesa e será a sua vez de pedir para ele escolher uma.
Aqui é onde você pode usar todas as suas falsas habilidades sobrenaturais e teatrais e, pedindo para ele pensar fixamente em uma das duas cartas por alguns instantes, deixe que ele faça o último movimento. Então a mágica acontece: independentemente da escolha final dele, peça para que ele pegue o papel escondido e revele seu conteúdo. Se a carta escolhida for igual à revelada, diga que desde o princípio você já sabia que ele ficaria com ela, por isso o papel com a previsão. Se ele deixar a sua carta na mesa, diga que sempre soube que aquela seria a carta final. Perceba que, independentemente das escolhas feitas, o resultado é a impressão de que você previu o futuro e sabia o que aconteceria. A mágica está feita.

Iniciei nosso texto hoje assim pois creio que isso dá um ponto de partida interessante para um dos argumentos mais utilizados pelos ferrenhos defensores do nosso sistema econômico vigente. Diante de todos os defeitos que uma democracia capitalista poderia ter, dizem seus discípulos que, definitivamente, a falta de liberdade não seria um deles, afinal, a beleza da sociedade atual está justamente nas inúmeras possibilidades de escolha que você teria.
Assim como um meme famoso que ronda diversos espaços da internet, a pergunta que fica aqui é: será? Será que realmente nosso sistema político e econômico é tão rico em nos proporcionar escolhas diversas, sem nenhum tipo de viés e intenção secundária, dando ao indivíduo total liberdade de ação ou, e aqui fica a provocação, estamos diante de outra grande ilusão propositalmente fabricada para nos dar uma falsa sensação de escolha?
O truque ensinado ilustra perfeitamente como essa falsa sensação é facilmente imputada ao indivíduo. Mesmo sabendo o resultado final, durante toda a mágica, permite-se que o outro faça escolhas, em teoria, aleatórias, dando o sentimento genuíno de que tudo ali está acontecendo de forma casual e imprevisível, de que o sujeito tem total liberdade para guiar os rumos do que se passa, mesmo sendo uma grande mentira.
E isso acontece constantemente. Vá até o supermercado mais próximo da sua residência e procure comprar nas prateleiras produtos que não sejam de grandes marcas, como Coca-Cola ou Pepsico. Você verá que não é uma tarefa tão simples quanto pode parecer. Apesar de dar o sentimento de que existem diversas possibilidades, no fim você está adquirindo o produto de uma mesma empresa ou marca.
Também não é difícil enxergar como isso afeta nossa comunidade de jogos de tabuleiro. Para além de acabarmos por consumir produtos de uma mesma editora, vale ressaltar um assunto já debatido no texto ESTÉTICA. Perceba quantos de nós acabamos por comprar jogos extremamente parecidos em temáticas e mecânicas, mas, no fim, acabamos justamente por adquirir praticamente o mesmo item.
Ao nos depararmos com os lançamentos, vemos aquele mesmo jogo de exploração espacial, com algumas alterações mecânicas, sendo colocado no mercado novamente, e imediatamente saímos em defesa dele e de nossa liberdade de escolhê-lo.
Entretanto, a reflexão que proponho seria: podemos considerar liberdade de escolha quando nossa escolha é limitada e apontada para opções fabricadas? É escolher quando temos uma indústria cultural que normaliza um comprar pouco pensante e cria no consumidor necessidades ilusórias?
E aqui fazemos então o caminho inverso. Se na maioria das vezes partimos de um problema geral para chegarmos até nossas questões tabuleirísticas, hoje faço o oposto. Entendendo a problemática da sensação de escolha, poderemos então deixar de colocar no indivíduo a total responsabilidade pelas consequências de suas escolhas.
Tenho visto com frequência vídeos de neoliberais em malabarismos argumentativos defendendo as pautas mais absurdas sob o argumento de que o trabalhador está nas condições mais deploráveis possíveis porque opta por isso. Quer dizer, se uma pessoa acorda às 4 horas da manhã, pega duas ou três lotações antes das seis, trabalha em condições mínimas de respeito ao ser humano, chega em casa quase às oito da noite e mal consegue se alimentar antes de dormir, numa jornada que vai de segunda a sábado pelo valor de, com sorte, um pouco mais de um salário mínimo, com certeza é responsabilidade dele, e não de um sistema que sempre lhe deu duas opções: submeter-se ou morrer de fome. Quando as opções são limitadas a esse ponto, não estamos diante de uma sociedade libertária, mas opressora e adestradora. Tenhamos então a humildade e a coragem de reconhecer os fatos e lutar por suas mudanças.
Se você chegou até aqui, espero que tenha feito sentido. Agradeço a leitura e peço, por favor, que se inscrevam no nosso canal da Ludopedia, assim como em nosso perfil no Instagram: @pontocapitalbg. Não deixem de curtir, comentar e compartilhar; vamos enriquecer o debate. E lembre-se: o mundo começa a fazer sentido quando entendemos que a vida é um jogo cooperativo!
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