IMPERIALISMO
Pela primeira vez nesta página recém-inaugurada, falaremos sobre um jogo. Trata-se de um jogo lançado via financiamento coletivo agora em outubro, cuja campanha se encerrará no início de novembro. Ele traz uma proposta e um tema extremamente relevantes para o nosso momento histórico, promovendo um debate rico para que os fatos do passado não caiam no esquecimento nem sejam distorcidos.
O jogo é "
Imperialismo:
América", desenvolvido por uma equipe comprometida, formada por Vítor Soares, Giovanni Arceno, Alex Olteanu, Max Duarte e Renato Sasdelli. Com artes fantásticas e uma atenção crucial aos detalhes de cada evento ocorrido na América Latina durante a Guerra Fria, o jogo coloca o jogador diante da escolha entre defender os interesses estadunidenses ou a soberania das nações latino-americanas.
Para aqueles que vieram até aqui em busca de análises sobre regras ou uma visão geral do jogo, sinto decepcioná-los. Essa não é a proposta deste canal, e há pessoas muito mais competentes para esse fim. Deixamos, portanto, a página oficial do financiamento (
https://apoia.se/imperialismoamerica) e o site da editora (
https://tijoloestudio.com.br/imperialismo-america) para aqueles que desejarem entender as mecânicas e a jogabilidade. Nosso objetivo, então, será desenvolver melhor o tema e debater, mais do que sua importância, a sua necessidade.
Já na primeira imagem da campanha de financiamento coletivo, vemos dois lados bastante distintos, representados graficamente por Kennedy e Che Guevara, com as frases “Salve a América Latina do Comunismo” e “Proteja a Soberania Latino-Americana”. Isso destaca os interesses conflitantes da época, como se houvesse algo de nobre a se defender contra uma “ameaça” perigosa no horizonte. Mas onde estava o real perigo? Pelo que eles realmente lutavam?

No discurso capitalista em geral, é necessário criar espantalhos a serem atacados, uma vez que há poucos ou nenhum ponto que leve o trabalhador a defender os interesses do grande capital. Cria-se, então, um monstro chamado “Comunismo”, distorcem-se suas ideias, mostra-se a fome e a pobreza em países que adotam esse regime (ignorando as sanções impostas e os próprios problemas internos), produzem-se filmes com soviéticos maus que desejam espalhar sua ideologia nefasta e egoísta pelo mundo. Escondem-se revoltas internas, classificando-as como ameaças, enquanto se espalha a "democracia" no mundo por meio de guerras e bombas. Cria-se a imagem de um herói salvador que é, na verdade, o causador da miséria.
Perceba: o capitalismo precisa da pobreza para sobreviver; alimenta-se da desigualdade entre seus participantes. Não há como acumular capital se todos tiverem capital acumulado. É preciso desequilibrar a balança e, para isso, mudar a direção do olhar daqueles que poderiam se incomodar.
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O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento em que a dominação dos monopólios e do capital financeiro se estabeleceu; em que a exportação de capitais adquiriu importância de primeira ordem; em que a partilha do mundo pelos trusts internacionais começou; em que a partilha de todo o território terrestre pelos maiores países capitalistas está terminada." (Lênin, 1916). Os EUA souberam executar bem essa estratégia. Aproveitaram a devastação de uma guerra do outro lado do Atlântico para estabelecer seus monopólios na Europa, influenciaram as divisões das colônias que ainda existiam e dos países derrotados e trataram de fincar suas garras em todos os mercados ainda em desenvolvimento. Entenderam que a dominação do momento não é mais física ou militar, mas puramente econômica – e assim continuam até hoje. Chegam a uma terra arrasada, talvez por eles próprios, oferecem dinheiro e benefícios a um pequeno grupo e prometem melhorias e desenvolvimento à população. Mas tudo tem um preço: as empresas estadunidenses devem poder explorar as riquezas à vontade, com poucas taxas e muitos incentivos fiscais (isso gera emprego, e o importante é ter trabalho, mesmo que seja ruim e remunere muito pouco); os líderes devem estar alinhados aos interesses imperialistas, ou crises políticas magicamente se instalam no país; filmes, música e comida locais são substituídos por qualquer item que faça parte da esteira de produção e possa dar as glórias a quem tem o poder.
A Revolução Cubana foi um erro de percurso nessa lógica; não deveria ter acontecido. A consequência? Apertem o cerco, não é possível outro equívoco desses no "quintal" da América. Reforça-se a imagem do monstro comunista. Afinal, como viver em um país sem ser parte do sonho americano, mesmo que seja a parte que sustenta essa pirâmide?
O mais curioso é entender o quanto a história se repete – e continuará se repetindo enquanto as estruturas mais profundas da sociedade não compreenderem seus papéis. Quarenta anos após o fim da ditadura militar no Brasil, amplamente financiada pelos Estados Unidos – um atraso no desenvolvimento desta nação, com 20 anos de retrocesso em favor de interesses privados de grupos elitistas –, ainda estamos defendendo desejos que não são nossos.
Não é um acidente intelectual que, em pleno Dia da Independência, no coração econômico brasileiro, manifestantes se unam para erguer uma bandeira dos EUA ao lado de uma pequena bandeira brasileira. É a clara expressão do imperialismo que existiu no século XX e nunca se encerrou. No entanto, ele está em clara crise e, por isso, vem sendo escancarado sem escrúpulos e sem disfarces para aqueles que se derem ao trabalho de tirar as lentes que nos foram impostadas e enxergar a realidade exposta.
Fonte: Reprodução Instagram
Voltando ao jogo, ele se apresenta para dois ou quatro jogadores, que estarão do lado estadunidense ou latino-americano. Ou seja, alguém terá a possibilidade de impor o imperialismo americano. Mas esteja atento: para além da vitória, verifique os fatos verídicos de cada carta e sinta como é levar um país ao declínio para que os seus desejos prevaleçam. Conclua que a soberania de uma nação não pode estar à mercê de interesses privados.
Se adquirir o jogo após ler este texto, experimente jogar pelos dois lados do tabuleiro e explore as várias possibilidades. Mas talvez você queira vencer apenas com um!
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Meeples do mundo, uni-vos!