IMPERIALISMO 2

Você já jogou Imperial 2030? Lançado em 2017 em terras brasileiras pela extinta editora Pensamento Coletivo, o jogo tem o design de Mac Gerdts e é uma reimplementação de outra obra do mesmo autor, intitulada apenas Imperial. A diferença entre as duas se dá basicamente pelo mapa: enquanto o original se passa na Europa, seu sucessor coloca a disputa em caráter global.
Queridinho dos fãs de jogos econômicos como Brass, Power Grid e os famosos 18xx, Imperial 2030 se passa justamente no futuro, que já nem é mais tão distante assim. A trama se inicia na terceira década deste século XXI, onde o mundo está dividido em seis potências: Brasil, China, EUA, Índia, Rússia e União Europeia. Elas disputam territórios, desenvolvem indústrias bélicas e acumulam capital. O jogo é reconhecido por muitos quase como um "War econômico", uma vez que apresenta o mapa-mundi, conflitos entre jogadores e conquista de áreas. Entretanto, em Imperial 2030, vence aquele que tiver mais dinheiro ao fim da partida.

E é isso o que torna este jogo tão especial. Já no início, você se torna um dos líderes das potências mencionadas, mas não se engane: seu objetivo não é fazer sua nação prosperar ou conquistar o mundo. Como eu disse, o foco é acumular riquezas. Ou seja, se você controla a União Europeia, por exemplo, mas percebe que a China possui bons territórios e pode valorizar suas Obrigações de Crédito, ações financeiras que o país paga aos investidores, você pode simplesmente comprar ações chinesas e sacrificar propositalmente tropas e regiões europeias para favorecer o lucro chinês e, consequentemente, seu ganho pessoal.
Aqui reside o grande erro dos iniciantes: achar que devem fortalecer sua potência a qualquer custo. Neste ponto, encontra-se uma grande lição das sociedades de acúmulo de capital. Em um contexto globalizado, fazer sacrifícios do próprio país em detrimento de ganhos individuais é algo válido e incentivado pela mecânica. Você quer terminar como o mais rico, não como o melhor gestor público. Não há interesses públicos que superem os interesses privados de uma elite econômica.
O jogo leva esse argumento ao extremo. Por diversas vezes no decorrer da partida, que pode chegar facilmente a quatro horas de duração, você se vê sacrificando tropas em conflitos sem sentido pela simples justificativa de não querer pagar os salários da defesa. Essa economia garante uma verba extra que pode ser a diferença entre comprar ou não uma nova Obrigação de Crédito.
Confesso que este foi um dos primeiros jogos econômicos da minha coleção. Nas partidas iniciais, achei interessante a dinâmica do "rondel" para executar as ações. Eu pensava no quanto o tema poderia ser absurdo; investir em guerras por pura ganância capitalista parecia algo distante da minha visão de mundo juvenil. Naquela época, minha mente, limitada pelas notícias da grande mídia, acreditava que intervenções ocorriam apenas em nome da democracia ou para eliminar grupos terroristas.
Porém, com um olhar mais lúcido, é fácil enxergar como o imperialismo rege as relações entre países, usando subterfúgios para satisfazer os privilégios das elites. Citando a obra Imperialismo, fase superior do capitalismo: "Perante isto, é de perguntar: no terreno do capitalismo, que outro meio poderia haver, a não ser a guerra, para eliminar a desproporção existente entre o desenvolvimento das forças produtivas e a acumulação de capital, por um lado, e, por outro lado, a partilha das colônias e das esferas de influência do capital financeiro?" (Lênin, 1917).
Sendo necessário ao sistema capitalista a existência da desigualdade e da exploração, o uso da força não é uma exceção, mas parte crucial da manutenção das esferas de poder. Para não transmitir apenas uma sensação de paranoia, apresento fatos: existem, no mercado financeiro, fundos de investimento de defesa negociados na Bolsa de Valores. Eles são formados por grandes conglomerados de empresas privadas que fabricam materiais bélicos e lucram diretamente com combates ao redor do mundo.
Outro exemplo do uso da guerra em benefício privado é a recente escalada de intervenções estrangeiras. Seria apenas coincidência que, no momento em que o país do Tio Sam domina grandes reservas de petróleo, ocorram bombardeios que impactam diretamente o valor do barril? Talvez a intenção fosse testar o controle imperialista sobre mercados de interesse, usando até eventos como o caso Epstein como cortina de fumaça.
Para além de um jogo de tabuleiro, Imperial 2030 mostra-se um reflexo de como o sistema funciona, sem temer colocar vidas reais em perigo para sustentar privilégios de uma minoria. Com o passar dos anos, temo que ele adquira um caráter quase profético. Fiquemos atentos para que isso não aconteça.
Finalizo agradecendo aos que estão votando nesta página para a segunda fase do Prêmio Ludopedia. Estamos concorrendo nas categorias Mídia Escrita e Mídia Revelação. Se você gosta dos textos, por favor, considere seu voto. As votações da primeira fase se encerram na sexta.
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