TEMPO
Como uma página progressista, não poderíamos deixar passar em branco a data de oito de março, Dia Internacional da Mulher, e aproveitar o espaço que temos para abordar esse assunto tão importante. Certamente, as mulheres conquistaram, com extrema luta, espaços dentro da nossa sociedade; mas, num país onde existem quatro mortes por feminicídio ao dia, temos pouco para comemorar e ainda muito o que refletir e progredir.
Primeiramente, penso que a data precisa ser explicada. Como tudo o que o capital toca, esse dia tem sido, ao longo das décadas, usurpado e ressignificado num momento puramente comercial e superficial, indo justamente no sentido oposto à proposta inicial, uma vez que, diversas vezes, propagandas e expressões populares acabam por reforçar o comportamento misógino e machista que a data vem justamente para combater.
O dia oito de março foi escolhido em 1975 pelas Nações Unidas para representar o Dia Internacional da Mulher em referência às mulheres russas que entraram em greve nesta data em 1917 e, a partir do movimento delas, deu-se toda a Revolução Russa. Sei que muitos ainda têm a ideia de que a data foi relacionada a incêndios em fábricas estadunidenses no começo do século XX, em dias diferentes algo que foi proposto e seguido por países diferentes por algum tempo. Entretanto, onde você acha que este dia foi devidamente reconhecido e relembrado ao longo dos anos: na terra do socialismo ou nos demínios da economia liberal?
Feita a contextualização histórica, com o devido destaque, podemos então seguir para o assunto central, que poderia ser variado dentro do nosso mundo de board games, ainda conhecido por ter uma maioria masculina; porém, como o leitor deste canal já deve saber, não iremos exatamente pelo caminho óbvio para o debate.
Nosso assunto nasce de um vídeo da excelente influenciadora e atriz Anaterra Oliveira (@anaterra.oli), que você poderá assistir neste link. Na filmagem em questão, Anaterra entrevista homens e mulheres, algo comum em suas redes sociais, e os questiona sobre os hobbies que eles possuem desde a sua infância.
Sem muitas surpresas, os homens respondem que continuam a jogar bola, colecionar carrinhos, jogar baralho e se reunir com os colegas, enquanto todas as entrevistadas responderam que não carregam nenhuma atividade da infância até a vida adulta; algo que pode ser notado no nosso cotidiano, mas cujas motivações desse abandono nem sempre questionamos.
A primeira constatação óbvia, inclusive dos entrevistados, é perceber a diferença entre o que eram; ou, infelizmente, ainda são; brincadeiras de meninos e de meninas. Enquanto o lado masculino é levado à prática esportiva, lúdica e cultural, as meninas são relegadas a “brincar de casinha”, ou seja, a interiorizar seu papel imposto de forma lúdica, como se fosse algo natural, divertido e fizesse parte de sua essência.
Como educador, não negarei que as crianças têm, sim, a tendência de transformar as realidades que veem em brincadeiras. Mas seria irresponsabilidade concluir que somente essa é a causa do problema, já que meninos são incentivados a praticar outras atividades. Seus brinquedos e passatempos possuem finalidades bem diferentes de imitar a realidade que os cerca, basta analisar que o boneco comprado pelo menino é uma figura heroica que deve desbravar o mundo, enquanto a boneca dada às meninas é ou um bebê de que ela precisa cuidar, ou uma mulher fora dos padrões reais que deverá, a todo custo, perseguir.
Mas podemos aprofundar a questão, pois, ainda na fase adulta, a mulher é conduzida sistematicamente a não ter passatempos ou, caso ouse algo diferente de sua rotina, é levada a ter pequenos afazeres domésticos que poderiam ser "permitidos", como costurar, bordar, pintar, confeccionar joias, artesanatos e utensílios que, no fim, reforçam uma lógica de produção e trabalho.
As razões para isso estão escancaradas em nosso meio. Se somos uma sociedade onde a classe dominante controla até nosso jeito de falar, pensar e agir, por que pensaríamos que seria diferente com nosso tempo livre? Entenda que nosso sistema evoluiu para ir além de roubar nossa força de trabalho: ele se estende para além da força produtiva, cercando cada possibilidade de ousar questionar. Se todos os trabalhadores estão sujeitos a esse mal, as camadas sociais mais marginalizadas são as que mais sofrem.

“Nenhuma satisfação pode ser inerente ao trabalho que, aliás, perde a sua modéstia funcional na totalidade dos fins, nenhuma faísca da reflexão pode irromper durante o tempo livre, porque poderia saltar para o mundo do trabalho e pô-lo em chamas.” (Adorno, 1951). Fazendo a conexão adequada, percebemos que, se a classe dominante procura meios de ocupar o tempo livre para conter qualquer pensamento fora do padrão, o homem tem feito o mesmo com as mulheres ao longo de vários séculos, culminando numa retroalimentação de violências contra a existência feminina, onde o machismo dá ferramentas ao sistema e o sistema fortalece o comportamento do opressor.
Entretanto, não há razões para acreditarmos que não podemos ir contra esse fluxo. Precisamos começar a sair desse transe em que fomos colocados e entender os caminhos que levam as mulheres a serem privadas do seu direito ao ócio e ao lazer individual. Precisamos encerrar estereótipos arcaicos de interesse dominante que destacam brinquedos e brincadeiras "masculinas" e "femininas", e lutar por um tempo de qualidade, unidos em propósitos melhores e maiores. Penso que talvez algumas pessoas da câmara também devessem ler sobre esse assunto.
Gostaria de levantar ainda muitos outros pontos sobre as mulheres no hobby de jogos de tabuleiro. Honestamente, sinto que a comunidade costuma ser bastante aberta e receptiva; porém, ainda vejo muitos homens discriminando quais jogos são para o público feminino ou quais temas as mulheres devem preferir, reproduzindo uma falsa sensação de acolhimento. Mas esses assuntos poderemos debater nos comentários ou em textos futuros.
Quero finalizar o texto de hoje expressando toda a minha solidariedade e força às mulheres e ao movimento feminista. Sei que ainda há muitos espaços a serem conquistados. Seguimos juntos!
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Meeples do mundo, uni-vos!