HEGEMONIA
“A luta de classes existe. Qual é a sua classe? Vamos, diga!”. Este diálogo do filme Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, já deve ter chegado até você em algum momento, em vias acadêmicas, culturais ou apenas em algum reel rápido do seu Instagram. Neste filme, Paulo Autran interpreta Porfírio Diaz, que se autointitula imperador de Eldorado e tenta subjugar a sociedade local a um governo teocrático cristão. Engraçado... sinto que tenho visto esse filme tantas vezes, mas mesmo este personagem entende a existência das classes e suas relações antagônicas.
"A história de toda a sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes." (Marx e Engels, 1848). Apesar de Marx e Engels terem chegado a tal conclusão em meados do século XIX, é interessante notar que “os nossos dias” perduram até a atualidade e, mesmo diante de todas as crises que se repetem em nosso sistema político-econômico, ainda é complexo vislumbrar mudanças nessa batalha social.
Paulo Autran em Terra em Transe (1967)
E é com este pano de fundo, da existência e luta de classes, que os designers Vangelis Bagiartakis e Varnavas Timotheou criaram e desenvolveram o jogo Hegemony – Conduza sua Classe à Vitória, lançado em 2023 pela Galápagos, agora Asmodee, e esgotado das lojas, para infelicidade de muitos jogadores. Porém, não se engane: apesar de o jogo estipular a rivalidade entre classes sociais – neste caso, Capitalistas, Operários e Classe Média, além do Estado, que aqui é colocado como um dos quatro jogadores possíveis –, precisamos entender que o Estado não é uma classe. O Estado é o que favorece o controle de uma sobre a outra. Enfim, apesar disso, o caráter de sua jogabilidade está longe de propor revoluções comunistas e o domínio do proletariado, como é acusado por alguns desavisados. Aqui temos três classes lutando claramente por domínio político e econômico, e, nas raras ocasiões em que as classes oprimidas conseguem alguma melhoria, esta visa mais um teor pequeno-burguês reformista, como diria Marx, do que propriamente a tomada dos meios de produção e a conquista total do trabalhador.
Dito isto, aos que conhecem esta página, bem sabem que não falaremos sobre regras ou o andamento da partida. Entretanto, sinto que deveríamos partir, por experiências de pouco mais de uma dezena de partidas, para o desenvolvimento do debate sobre o comportamento das classes neste jogo, que é um dos favoritos deste que vos escreve.
Os tabuleiros individuais, assimétricos, dizem muito sobre o que se esperar de cada classe envolvida e as pautas políticas mostram as conquistas que podem ser desejadas em cada caso. Os operários buscam manter seu crescimento populacional sob controle, enquanto gastam com saúde, educação e supérfluos para aumentar sua trilha de prosperidade, que faria mais sentido se chamasse “bem-estar”. Tudo isso enquanto garantem que estão todos empregados.
Tabuleiro Individuais
Muitos trabalhadores em um mesmo tipo de empresa levam à criação de sindicatos, que dão influência política, o que tem muito sentido com a realidade. Nas partidas, vemos que, garantindo altos salários, assistência médica e educacional, mesmo com altos impostos, os operários conseguem assegurar seu bem-estar social e ganhar muitos pontos de vitória. Cabe aprofundarmos.
Para alguns analfabetos políticos, alimentados da semi-cultura que Adorno desenvolve tão bem em sua literatura, talvez seja contraditório ver que, com o aumento dos impostos, do salário e colocando saúde e educação gratuitas, os trabalhadores – eu e vocês, ou ao menos a esmagadora maioria de vocês – prosperamos e temos as “condições de vitória”. Já que sabemos que, quando impostos e salários aumentam, quem mais sofre com isso são justamente os mais pobres de nosso país.
Entretanto, como já disse em textos anteriores, nosso país ainda é retrógrado em questões fiscais e tributárias. Numa partida de Hegemony, é bastante claro que, quando os impostos sobem, quem paga a maior conta não é o operário, mas o capitalista, pois esse imposto, no caso, aumenta mais sobre rendimentos do que sobre consumo, o que quase não afeta nossos colegas trabalhadores. No Brasil, ainda sofremos com uma carga tributária elevada no consumo, fazendo com que quem receba menos pague a mesma tributação dos mais ricos.
Dito isso, passarei à Classe Média, a polêmica Classe Média: o famoso trabalhador pequeno-burguês que pensa ser capitalista. Durante a partida, ela se sustenta dos mesmos desejos que os operários: saúde, educação e bens supérfluos. Entretanto, tem a ligeira vantagem de produzir as próprias necessidades. Se for bem esperta, percebe que é melhor usufruir dos direitos oferecidos por um Estado social e vender suas sobras do que cometer o erro de tentar se retroalimentar. Nesse caso, a Classe Média fica engessada: não produz o suficiente para vender, nem tem o suficiente para seu bem-estar. É frustrante e sustenta um ciclo vicioso. No mundo real, culpará os mais pobres que nada fizeram para tal problema, enquanto os donos da produção a convencem de que bom mesmo é uma grande empresa estrangeira que lhe vende um smartphone em vinte e quatro parcelas enquanto você trabalha 60 horas na semana para sustentar seu pequeno negócio.
Já o Estado, como dito, que não é bem uma classe, acaba por ganhar pontos ao ter legitimidade. O Estado democrático representado quer apenas se equilibrar entre as demais camadas da sociedade e não terá receio de ajudar uma ou outra para se sustentar no comando. Como já demonstrado acima, bem distante de qualquer ideal revolucionário, neste jogo o Estado quer apenas se sustentar como poder regulador das classes, mas com características de um Estado democrático-burguês que também consegue conquistar posses e dinheiro.
Falando em Estado, as intervenções do FMI, outra invenção capitalista para que países ricos dominem os pobres, como no caso recente da Argentina, que o jogo propõe quando o mesmo não é capaz de arcar com suas contas, geram um ambiente difícil de prever para as rodadas seguintes e enfraquecem o Estado. Quando os operários e a Classe Média estão preparados, pode ser a grande chance de sofrer uma rodada e ter grandes ganhos nas seguintes.
Pautas Políticas que tendem do Neoliberalismo ao Socialismo
Deixei os Capitalistas por último por uma simples questão. Nas mesas que tive a oportunidade de colocar este jogo, quase sempre com a lotação máxima de quatro jogadores, os Capitalistas nunca venceram. Honestamente, já tive excelentes debates sobre como as mecânicas do jogo poderiam estar colaborando para esse acontecimento, mas nunca chegamos a um consenso. Refletindo algum tempo depois, já com a cabeça mais limpa das emoções de jogatinas que dizem tanto sobre a realidade, cheguei a uma boa hipótese.
Para mim, opinião pessoal e totalmente enviesada – já disse outras vezes, não há interesse na imparcialidade neste canal –, os Capitalistas não venceram nenhuma partida porque, para ganhar, eles precisam necessariamente de apoio cego e submissão das outras classes. Se Estado, Classe Média e Operários se unirem e lutarem por direitos e bem-estar social, com bons salários, educação e saúde gratuitas e de qualidade, fica praticamente impossível termos os Capitalistas se destacando e ganhando uma partida. Talvez por isso, onde jogamos, não foi vista uma vitória deles. Mas, com certeza, podem existir muitos outros motivos além deste.
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