PRAZER
“O que você jogou na última semana?”, a pergunta que ecoa por grupos, redes sociais, textos e podcasts dentro da comunidade de jogos de tabuleiro, fornecendo praticamente material infinito e horas de conversas sobre jogos conhecidos recentemente, com o foco principal nos novos lançamentos do momento, que geram essa ânsia no peito da maioria dos boardgamers, que precisam urgentemente conhecer e também estar atentos às novidades do mercado.
Mas gostaria de mudar a pergunta e trazer outra reflexão ao leitor: O que você jogou ultimamente por prazer? Quero dizer, você se lembra do começo do hobby, quando tínhamos aquele desejo de explorar tabuleiros e cartas por horas a fio, sem nos preocuparmos com mecânicas, complexidade, ranking ou qualquer tipo de hype criado pelo jogo?
Ou ainda, quando você percebeu que jogar já não está sendo tão prazeroso quanto um dia já foi? E se conseguirmos chegar mais fundo na discussão, quais seriam os motivos para as jogatinas deixarem de ter o mesmo peso que um dia tiveram?
Falo por mim, mas imagino quantas pessoas dentro do nosso hobby não estão passando pela mesma situação, uma vez que nenhuma experiência é individual, já diria a famosa frase dos pensadores de rede, mas vejo que muitos de nós continuam a manter o ciclo de partidas, porém, talvez com outros propósitos.
Quer dizer, quem aqui nunca colocou um jogo na mesa pelo simples motivo de ele estar parado por meses ou anos na sua estante e, sendo o jogo de tabuleiro um produto caro, um investimento dos seus recursos financeiros, deixá-lo parado seria um desperdício do seu dinheiro? Assim, ele precisa ver mesa de tempos em tempos, para fazer jus ao valor desprendido.
Ou ainda, quantos de nós não estamos compondo mesas para jogar aquele lançamento bastante semelhante ao jogo que já temos na prateleira, simplesmente para satisfazer o desejo pela novidade e pelo consumo que nos é imputado dentro da sociedade?
E não vamos esquecer daquele dia da semana em que você não está nem um pouco a fim de jogar nada, mas precisa se deslocar da sua casa para se reunir com aquele grupo de amigos que você estabeleceu semanalmente. Se você perder o compromisso, pode colocar todo o grupo a perder, e deu muito trabalho juntar essa galera.
Existe ainda o clássico momento em que você quer relaxar a mente e pôr na mesa aquele carteado simples de regras, com poucas decisões a serem elaboradas, para ter um instante de diversão sadia e tranquila com pessoas com quem você gostaria de ter um tempo de qualidade. Porém, gastar sua pouca energia e horas em um jogo bobo para crianças seria um enorme desperdício de sua capacidade intelectual.
Percebam que, no fim, em muitos momentos, estamos jogando para cumprir obrigações sociais, econômicas e produtivas, sem nos preocuparmos com o nosso próprio prazer em jogar. E nos momentos em que pensamos ou em não ir até uma partida, ou sugerir um jogo antigo que estamos com muita vontade de pôr na mesa, ou pedir para jogar o mesmo jogo outra e outra vez, sentimos um peso e uma culpa gigantescos, como se não fosse possível colocar nossas vontades e nosso bem-estar à frente do que é imposto pela sociedade.
Sei que os jogos de tabuleiro correspondem a um passatempo social que, em raras exceções, corresponde a juntar um grupo de pessoas e isso, necessariamente, acaba por envolver abrir mão de alguns desejos com a finalidade de cumprir o objetivo de ter uma partida. Minha questão talvez seja: quando automatizamos o jogar pelo simples cumprimento de uma produtividade social, intelectual e econômica?
Para tantas perguntas reflexivas feitas durante este texto, seria um erro da minha parte não dar ao menos uma possibilidade de respostas reflexivas, já que, apesar do sentimento coletivo, as razões devem ser antes tratadas individualmente. Assim, temos que pensar na maneira como estamos tratando o hobby, do jeito que tratamos nosso prazer e como isso pode ser administrado.

“A aceleração generalizada do processo de vida priva o homem da capacidade contemplativa. Daí que as coisas que só se abrem num demorar-se contemplativo permaneçam para ele fechadas.” (Byung-Chul Han, 2016). Aqui, o famoso filósofo sul-coreano deixa claro que, na busca de sensações e experiências novas e constantes, tem nos faltado a presença e a contemplação do momento. E então finalizo com uma última pergunta: qual foi a última vez que você realmente esteve presente em uma mesa de jogos de tabuleiro? Pensando nos jogadores ao seu lado, nas jogadas que irá fazer e no processo feito para aquela obra ser mais do que somente um produto comercial. Espero que a frequência seja maior a partir de agora.
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