O atual jogo top 1 do BGG.
Eu tenho amigos que adoram o ranking do
BoardGameGeek e fazem dele sua religião nesse nosso hobby dos
board games. Provavelmente vocês também conhecem alguém que prefere ter os jogos do famoso — e discutido — top 100 do maior portal de jogos de tabuleiro do mundo a ter que se aventurar por outros jogos. Muito disso é porque, baseado nas opiniões dos milhares de usuários do site, uma curadoria prévia já foi feita e você sabe que jogos realmente ruins/fracos não vão estar ali.
Tudo bem, cada um tem o seu gosto e suas preferências. Mas, deixa eu te dizer por que eu acho que nós deveríamos dar mais atenção aos jogos abaixo do top 100, ou mais, abaixo até mesmo do top 500.
Ticket to Ride: Europe é hoje o 101º no ranking do site.
CULTO AO NOVO
O primeiro motivo, o mais óbvio, é que cada vez mais o top 100 é formado de jogos novos, recentes, que tem mais poder de mercado por serem recém lançados e, muitas vezes, terem quantidades maiores de unidades à disposição. Raramente um jogo no top 100 é um jogo de tiragem baixa, que teve pouco alcance.
Dos dez primeiros colocados no ranking, apenas 1 não foi lançado de 2015 pra cá.
Também há um reflexo disso no que acaba indo para os produtores de conteúdo —
reviewers e
youtubers — que tem o material em mãos para gerar burburinho dos jogos. Poucos canais ainda fazem material para jogos mais antigos, que já estejam no mercado há mais de 2 ou 3 anos. Assim, os jogos mais recentes são os mais conhecidos (tirando, claro, aqueles clássicos jogos de massa).
Logo, jogos mais novos, empurram para baixo no ranking os jogos mais antigos, mesmo aqueles que são premiados pela crítica e notavelmente reconhecidos como grandes jogos. Um típico exemplo disso é o, hoje, top 10 do site, formado por jogos lançados em 2016, 2017 — a única exceção é
Twilight Struggle, de 2005. No top 100, apenas 20 foram lançados antes de 2010. Só quatro deles são anteriores à 2000.
JOGOS OUT OF PRINT
Uma coisa que ocorre com frequência no nosso hobby é que muitos jogos são lançados em uma única edição, muitas vezes com pouquíssimas cópias. Para um hobby que tem feiras como a
GEN CON e a
SPIEL em que mais de 150 mil pessoas passam pelo evento, que tem um site com mais de um milhão de usuários, um jogo com mil cópias é muito, muito pouco. E o que ocorre ao longo de poucos anos é que esse jogo se torna
out of print, ou fora de circulação, por não haver uma nova tiragem dele.
Jogos out of print como Macao chegam a valer o dobro de seu preço de lançamento.
Jogos fora de catálogo se tornam raridades, muitas vezes vendidos a preços mais altos — quando são jogos realmente bons, claro — e de difícil acesso à novos jogadores. Esse jogos acabam não tendo tantas avaliações para se posicionarem melhor no ranking, ou mesmo se conseguem, ao longo de um curto período de tempo, acabam caindo no problema número um acima, são ultrapassados por jogos mais novos com maiores tiragens.
PAÍSES SEM OU COM POUCO DESTAQUE NO HOBBY
Indiscutivelmente os Estados Unidos estão na frente como o país mais consumidor de
board games. Maior consumidor de várias coisas, na verdade. Tanto que a imensa maioria dos canais voltados para o hobby no YouTube hoje estão em inglês. A Europa, como um todo, também se assemelha em importância no mercado, com grandes feiras, muitas editoras no continente e milhares de jogos sendo lançados por lá todos os anos. O problema é que o alcance dos jogos em inglês é muito maior, por exemplo, do que os jogos em alemão. E é inegável que muitos jogos saem em outras línguas, em outros países e não tem a mesma projeção que os jogos em inglês.
A tela acima mostra algo bastante comum: em campanhas de financiamento coletivo, os americanos dominam amplamente entre os consumidores.
No BGG esse fator é ainda mais interessante visto que a imensa maioria dos usuários do site fala inglês, mas não necessariamente fala outra língua — mais de 50% dos usuários registrados no site são dos Estados Unidos e Reino Unido.
Sendo assim, muitos jogos lançados em países menores ou em línguas que não são de tão fácil acesso, acabam ficando à margem das avaliações. Alguns exemplos muito bons são os próprios jogos em alemão da
Kosmos, ou os em polonês da
Portal Games. Essas editoras, sem a parceria de editoras internacionais, acabam ficando limitados aos falantes dessas línguas. Um jogo que pra mim é o maior exemplo disso é o
Nauticus, da dupla
Michael Kiesling e
Wolfgang Kramer, que só teve uma edição em alemão e nunca saiu em nenhuma outra língua, mas é um jogo tão bom quanto a famosa trilogia das máscaras dos autores, completamente diferente de qualquer outra coisa que eu tenha jogado.
Jogos de países como o Brasil, Argentina, Chile, ou de países asiáticos, então, nem se fala. Tem um alcance ainda menor e são bem menos conhecidos — e também com tiragens menores, o que cai no item de cima — e acabam passando à margem do top 100, top 500, top 1000. Um dos meus jogos favoritos de 2018, por exemplo, é um jogo coreano, do qual eu jamais teria ouvido falar se não fosse a feira de Essen.
Athens é hoje o 14.619º colocado.
JOGOS PREMIADOS NO PASSADO
Você já ouviu falar do jogo
Paths of Glory? Ele foi o primeiro jogo a ter o posto de número 1 do ranking do BGG em 2001, quando o ranking foi criado. Hoje ele ocupa a 117ª posição. E os jogos vencedores do
Spiel des Jahres como
Elfenland,
Mississippi Queen,
Carcassonne,
Torres,
Niagara e
Thurn and Taxis? Todos fora do top 100 hoje. Aliás, alguns deles já não figuram mais nem entre os 1000 primeiros.
Entre os
Kennerspiele nós temos o vencedor do ano passado,
The Quacks of Quedlinburg, além de
Village,
Isle of Skye,
As Lendas de Andor e
Broom Service, todos fora do top 100.
Lista de prêmios recebidos pelo jogo Village, de 2011. O jogo é o 124º no ranking.
Jogos como
Splendor,
Love Letter,
King of Tokyo,
Tobago,
Shogun e
Hansa Teutonica, todos premiados com o
Golden Geek Awards, premiação do próprio BGG.
Marrakech,
Dixit,
Takenoko,
Concept e
Colt Express venceram o
As d’Or, maior premiação da comunidade francesa para os jogos.
La Granja,
Nations,
Ora et Labora e
Maria venceram o
Jogo do Ano, prêmio português. Nenhum deles se encontra hoje entre os 100 primeiros colocados do BGG, muitos sequer entre os 200.
O
Deutscher Spiele Preis, prêmio da imprensa alemã que é entregue anualmente durante a
SPIEL, em Essen, já premiou jogos como
The Princess of Florence,
Saint Petersburg,
Antike,
Cuba,
Vasco da Gama e
World Without End. Todos eles fora do radar de quem acompanha somente o top 100 do ranking.
E aí, são motivos suficientes pra você? Qual jogo que não está no top 100 você considera uma joia pouco conhecida? Qual você acha que deveria mais atenção? E quais vocês se interessam em conhecer, mas não tiveram oportunidades por algum dos motivos acima?
*** Este texto foi publicado em 13 de maio de 2019 no nosso canal no Medium.
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Veja também, aqui no Ludopedia:
-
Review: Museum
-
Review: Crystal Palace
-
Review: Crown of Emara
-
Review: The Taverns of Tiefenthal
E ainda a lista com o
TOP 25 do Butilheiro (jan 2020).