Aviso! A história que você vai ler a seguir é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
"Amor, estava pensando numa coisa diferente..."
"Ah, é, vida? O que você tem em mente?"
"Tava pensando em convidar aquela minha amiga para se juntar a nós..."
"Aquela do seu trabalho?"
"Isso. Ela mesma."
"Ela não é casada? Chama o marido dela também! Quanto mais, melhor!"
"Ai, amor. Não sabia que você era tão mente aberta..."
"Eles são experientes?"
"Eles são bem safadinhos..."
"Ah, então eles já começam a partida colocando o mercador na rota que dá uma ação extra, né?!"
"O quê?!"
O vício em Hansa Teutonica não tem cura, mas tem tratamento. Procure nosso grupo de apoio especializado e surpreenda seus parceiros (de jogo).
A história que você acabou de ler aconteceu com um amigo de um amigo meu.
Brincadeiras à parte, o relato a seguir é verídico:
Eu sou o cara chato do grupo que sugere jogar Hansa Teutonica na primeira oportunidade. Até o ponto que eu meio que tive que parar, porque estava ficando realmente chato. Mais do que isso, estava ficando caricato. Eu era uma persona, um meme, o "cara do Hansa Teutonica".
Se você já me viu no BGA, esse meu avatar é uma caricatura que fizeram de mim:

Sim, esse sou eu segurando um Hansa Teutonica. Aqui está meu "face reveal" para a comunidade.
Eu trabalho em home office, e, um dia, o pessoal do trabalho, depois de muita insistência persuasão, topou jogar Hansa Teutonica online comigo.
Sim, jovem. Existe um site em que você joga Hansa Teutonica online. Essa é provavelmente a segunda informação mais chocante neste texto depois do face reveal.
O site é esse aqui: https://hansa.vercel.app/
Olhe que interface chique:

Sim, jovem, se você não gostava de euros, olhando esse site, você certamente vai passar a odiá-los. Eu não sei como a gente conseguiu jogar uma partida inteira. Essas pessoas me amam muito, na moral.
Fica pior.
A partida é jogada em turnos e durou uma semana. E adivinha quem era o chato no grupo do trabalho que ficava lembrando todo mundo de quem era a vez?
Se você nunca jogou Hansa Teutonica, ele um euro com bastante interação, surpreendentemente. Pense num Ticket to Ride com mais liberdade e menos sorte. Você não precisa comprar cartas para colocar suas peças, nem precisa completar uma rota de uma só vez, você pode colocar uma peça aqui, outra peça acolá. Na realidade, o jogo meio que te incentiva a bloquear a rota dos adversários, porque ele pode tirar suas peças de lá, e quando isso acontece, como punição a aquele jogador, você coloca mais de suas peças nas rotas adjacentes.
E para que você quer preencher essas rotas? Pontos de vitória, obviamente, meu caro jovem... mas espere, tem mais! Hansa Teutonica meio que ensinou ao Terra Mystica aquela manha marota de remover uma pecinha do seu tabuleiro individual, e o que aquela peça deixou de cobrir se torna um aprimoramento pra você.
Sim, jovem Terra Mystiqueiro ou Gaia Projecteiro e similares, Hansa Teutonica já fazia isso quando tudo era mato.
Beleza que ele não é tão bonito quanto um Terra Mystica e nem tão modular quanto um Gaia Project, mas ele é basicamente um xadrez: a novidade vem da interação entre os jogadores.
E é aí que voltamos à história do pessoal do trabalho.
Eu ensinei as regras e dei umas dicas estratégicas. Existe um espaço de aprimoramento que desbloqueia uma ação extra, e poder fazer mais coisas por turno é sempre bom. Recomendei que focassem naquele espaço, ensinei as manhas e tal. Todos seguiram, todos menos um jovem.
Hansa Teutonica tem um controle de área interessante. Quando você controla a extremidade de uma rota, sempre que alguém reivindica aquela rota, o controlador da extremidade ganha 1 ponto. E de ponto em ponto, o jovem vence a partida.
Estávamos todos focados em cantos estratégicos do tabuleiro, e o jovem timidamente presente nos espaços menos visados... presente até demais, um silêncio ensurdecedor... se aqueles cubos falassem.
O gatilho de fim da partida foi acionado, e o jovem em questão venceu, surpreendendo seus parceiros (de jogo).
Hansa Teutonica talvez não chame sua atenção com suas peças de madeira e um tabuleiro abarrotado de bege e carente de tema. Talvez seja só mais um euro na multidão, assim como o jovem que controlou as rotas sorrateiramente sem ninguém ver. Mas certamente Hansa Teutonica venceu meu coração.
Tudo nesse jogo funciona como um relógio suíço. Não tem nada fora do lugar. Nenhuma ponta solta.
Apesar de praticamente não ter elementos de aleatoriedade nele (só a ficha de bônus seguinte que aparece, mas isso não define a partida), cada partida que eu joguei foi diferente. Não é scriptado e não tem um caminho único para a vitória, como sugere a história do jovem colega de trabalho acima.
Infelizmente ele não é um jogo para 2, tanto que na versão Big Box eles simplesmente removeram essa contagem de jogadores. O jogo original até tinha uma versão para 2, mas parece que não era popular. Eu confesso que nunca tentei. Tem variantes no BGG em que cada jogador usa 2 cores, mas eu gostaria mesmo era de ver um Hansa Teutonica Duel, como fizeram com o 7 Wonders.
O fato é que Hansa Teutonica foi pensado para 3 a 5 pessoas. Em qualquer uma dessas contagens ele fica bom. O tabuleiro mais cheio só deixa as interações mais interessantes. Eu nem chamaria isso de um "take that", mas de uma guerra fria. Nunca vi cubinhos tão passivamente agressivos. Ninguém vai te impedir de tirar a peça do oponente da sua rota, você não precisa nem perguntar, é só chegar lá e tirar, mas isso tem um preço, e todos sabem o preço na partida. Bloquear o oponente nunca foi tão divertido. (É sério, dessa vez não é deboche, é muito gostoso de jogar esse jogo, confia!)
Se você não gosta de Hansa Teutonica, você tem todo o direito de estar errado, e eu respeito isso, tudo bem.
Nenhum jogo é unanimidade, ainda mais um jogo com essa cara. Infelizmente, hoje em dia julgamos cada vez mais um jogo pela capa.
Mas se você não conhece, pode ir sem preconceito, talvez esse jogo vá te surpreender.
Luis, e as expansões?
Eu já tive a versão Big Box, que, quebrando todos os paradigmas atuais do mercado, não é Big, apenas Box. Ela vem com praticamente tudo e foi lançada no Brasil. Ainda dá para encontrá-la por aí no mercado de usados. Eu fiquei com o base mesmo e apenas uma expansão que eu quase não jogo. O base para mim é infinitamente rejogável, e eu gosto mais da caixa azul (é um motivo idiota, mas não deixa de ser verdade). Eu nunca joguei a segunda expansão, e não sinto falta. O base é bom nesse nível pra mim.
Até o próximo jogo.
Forte abraço,
Luis Perdomo