Olá, jovens.
Quando eu era um pequeno moleque juvenil, eu não entendia o símbolo do Carrefour. Aquela composição abstrata não fazia sentido pra mim. Até que um dia eu vi a luz. Ou melhor, eu vi aquela maldita letra C disfarçada no espaço negativo. Isso a Globo não mostra! (Quem estou enganando? Vocês são todos jovens, ninguém vê televisão aqui).

Ali eu percebi que a minha vida era uma mentira. Será que eu era realmente filho dos meus pais? A Terra era realmente plana? Ah, não, espera, será que era o contrário? Enfim, muito papel laminado na cabeça desde a revelação daquela maldita letra C… C de
Concordia
Aconteceu a mesma coisa quando eu descobri que Concordia era um jogo de rondel disfarçado. Mais uma vez senti que o mundo estava me enganando. A gente nunca foi até a Lua, passarinho é tudo drone disfarçado, e o Michael Jackson não estava escondido em Xique-Xique, Bahia, esse tempo todo.
“Luis, mas qual é a implicância com o rondel?”
Bom, na verdade nenhuma. Particularmente, só não sou muito fã. Acho uma mecânica com cara de coisa velha, um pouco ultrapassada. Eu sei que não é verdade, e tem muito jogo de rondel bom, mas o melhor deles pra mim é Concordia, porque ele faz como aquela mãe que esconde a cebola no feijão para o filho com paladar infantil comer sem perceber. Concordia é uma mãe.
Uma mãe punitiva e que vai te deixar de castigo, uma semana sem telas porque você estava de bagunça na sala e quebrou a mesinha de centro dela que ela tanto gostava. Ok, os exemplos já estão ficando um pouco específicos demais, e a terapia é só quarta-feira que vem.
Concordia não é um jogo punitivo, na verdade é uma delícia jogar Concordia. Tudo que você faz no jogo é satisfatório, você ganha alguma coisa, compra cartas com mais ações e formas de pontuar, constrói casinhas que te deixam ganhar mais recursos no futuro, chuchu beleza. Punitivos são os jogadores cracudos.
Sério, você já tentou jogar Concordia contra um expert nesse jogo? Um verdadeiro viciado, tarado em Concordia. Eu me considero um jogador razoável nesse jogo, mas um verdadeiro grande mestre sempre consegue me vencer, nem que seja por 1 mísero pontinho. Eu normalmente fico em segundo, às vezes até mais perto do primeiro colocado do que do terceiro, mas sempre tem aquele jovem que já calculou tudo desde a primeira jogada.
Sim, jovens, Concordia é um jogo de pouca sorte. O máximo de informação nova que aparece na partida são as novas cartas do mercado, e elas são equilibradas por um dos sistemas mais inteligentes na minha humilde opinião: o que acabou de aparecer é mais caro. Você pode pegar a novidade e obter uma certa vantagem, mas vai ter que desembolsar mais por isso (na mesma lógica do Through the Ages).
E as cartas, jovem, as cartas são tudo nesse jogo, inclusive o tal rondel invisível como o maldito C do Carrefour. Você não vai ver uma pizza no meio do tabuleiro, como no Imperial, onde você fica dando voltas. Não, jovens. Concordia é sofisticado, o rondel agora é outro.
Concordia, tecnicamente, é um jogo de construção de mão. Note que eu não falei construção de baralho.
Diferentemente de um jogo clássico de construção de baralho, como Dominion, você não vai comprar uma mão de cartas, jogar, comprar mais, o baralho acabou, então você reembaralha e começa tudo de novo. Não. Em Concordia, você não embaralha a sua mão. Está tudo ali para você escolher. É da mão diretamente para o descarte, e do descarte diretamente pra sua mão.
Tecnicamente, pode-se dizer que Concordia é basicamente: “jogue uma carta, faça o que está escrito nela, e pronto, você aprendeu a jogar”, colocando de forma bem simplista.
E o que as cartas fazem?
Aí entramos naquela parte que o americhato torce o nariz. Elas fazem eurices, jovem, coisas de Euros. Você ganha recursos, coloca construções que vão te dar mais recursos, troca esses recursos por meeples que expandem seus movimentos para construir mais longe e, adivinhe, ganhar mais recursos, que, por sua vez, você vai trocar por cartas com ações mais fortes que permitirão que você, adivinhe, adivinhe!!!!, ganhe mais recursos direta ou indiretamente, e assim sucessivamente. Sim, o jogo é um próprio rondel em si mesmo. É um ouroboros do Euro, um Euroboros. Um verdadeiro ecossistema, um exercício de otimização que sempre me deixa 1 ponto atrás do mestre cracudo nesse jogo (get good, Luis). Ah, e além dessa eurolândia toda, as cartas também valem pontos, são elas que vão determinar como você vai pontuar na partida, e de uma das formas mais legais: por meio de multiplicadores (x pontos para cada y seu, z pontos para cada w etc., está tudo interligado mesmo).
E quando a sua mão acaba, tem aquela carta que transforma esse “gerenciamento de mão” em rondel, começando tudo de novo, e cortando maçã em forma de batata frita para bugar o cérebro da criança para ela comer de forma mais saudável. Concordia é sim uma mãe, que te ensina a gostar de rondel sem perceber. Estou falando da carta que pega todo o seu descarte e devolve para a sua mão, reiniciando o ciclo.
Mas, além desse rondel diferentoso, o que Concordia tem que o difere dos outros euros médios sem alma em que você só fica manipulando recursos pra lá e pra cá?
A meu ver, a maior beleza de Concordia não está em uma mecânica específica, mas no conjunto da obra. Nada parece fora do lugar. Uma ação influencia a outra, e o que o seu oponente faz pode te beneficiar (a tal da abada) ou atrapalhar, então você tem que prestar atenção na partida o tempo todo, porque a jogada do seu oponente importa igualmente. Ainda é um euro, pacífico, ninguém vai destruir a sua casinha ou matar seus meeples, mas certamente não é um multiplayer solitário. É uma corrida acirrada pela otimização, pra quem gosta dessas coisas (se você não curte jogar para simplesmente fazer mais pontos que o colega, Concordia não vai te convencer do contrário, jovem).
No mundo dos euros, Concordia é definitivamente um prato cheio.
E aí, você Concordia ou Discordia?

(desculpe pela piada do tio do pavê, eu não sou tão jovem, jovens)
Luis, e as expansões?
Eu tenho só a Salsa, e confesso que faz tanto tempo que eu a coloquei na mesa que eu nem me lembro direito. O módulo do sal é interessante, mas aquela parte do fórum acho que nunca cheguei a jogar, pelo menos eu nem me lembro dos detalhes. O base tem material suficiente para você jogá-lo indefinidamente até enjoar.
Você pode testar Concordia gratuitamente no BGA.
Até o próximo jogo.
Forte abraço,
Luis Perdomo