Olá, jovens.
Uma vez por semana, eu faço uma faxina mais pesada na casa, e, no meio das atividades de limpeza, eu faço a manutenção da minha estante de jogos. Tiro todos os jogos, passo pano, abro as caixas, dou uma olhada nos componentes, limpo as prateleiras e coloco os jogos de volta no lugar. Dá um trabalhinho, mas vale a pena, e hoje é quase que terapêutico pra mim. À medida que eu abro as caixas, passa um filme de cada jogo na minha cabeça, e a vontade de jogá-los aumenta.
No meio da faxina, fiquei com o excelente texto do jovem fsomalia na minha cabeça. Jovem, você escreveu a verdadeira enciclopédia do mofo da Ludopedia. Seu texto deveria estar fixado permanentemente na página inicial. Belo trabalho. Então decidi escrever um pouco sobre a minha trajetória no hobby, desta vez sob a perspectiva do temido mofo.
Capítulo 1 - A inocência
Jovens, eu nasci e cresci na região oceânica de Niterói - RJ, uma cidade litorânea. Aí você que não conhece, se depara com esse nome, "região oceânica", e pensa "úmido bagarai". Bingo! Acertou em cheio, jovem. Você já sabe o final dessa história. Eu não sabia da missa um terço.
Alguns anos namorando a Sra. Perdomo, naquela fase em que já temos uma certa intimidade para falar de assuntos sensíveis, ela, cheia de dedos e com muito cuidado, decidiu falar do elefante branco na sala:
"Então, sua casa tem cheiro de museu velho..."
Jovens, passei as três primeiras décadas da minha vida completamente alienado. Eu não via, digo, eu não sentia o mofo. Vivia totalmente blindado pela ignorância a ponto de aquilo ofuscar meus sentidos. A partir de então, uma nova dimensão acabara de ser aberta na minha mente. Eu passei a enxergar, a sentir os cheiros.
Não tenho vergonha de falar sobre o meu passado, o ambiente da minha casa era bastante insalubre em vários sentidos (espiritualmente carregado, para quem acredita). Mas a ficha não tinha caído ainda para este nosso ilustríssimo hobby, até que...
Capítulo 2 - A descoberta
Apesar do choque inicial proporcionado pela revelação da Sra. Perdomo, ainda não tinha me deparado com o mofo nos jogos de tabuleiro, então na minha feliz ignorância, eu não sabia que jogos de tabuleiro mofavam. Hoje é bastante óbvio para todos nós, mas lá no começo, quando esse assunto não era nem discutido em fóruns, era uma triste novidade.
"O que são essas manchinhas na caixa do jogo?"
"E essa textura arenosa no manual e no tabuleiro?"
Oh, no. O raio caiu duas vezes no mesmo lugar. Sim, jovens, eu era inocente ignorante nesse nível. Todo mundo já teve aquela fase roots em que você joga Magic sem sleeves no chão da escola. Eu jogava até bafo com as cartas de Magic. De certa forma, colocando em uma perspectiva meio Poliana, eu era feliz e não sabia, porque a partir dali instaurou-se...
Capítulo 3 - A paranoia
Eu comecei a ver mofo em todo lugar.
"Eu vejo mofo em boardgames..."
"Com que frequência?"
"A todo tempo..."
Eu só pensava em mofo. Minto, também pensava em consumir mais, veja a contradição. Mas principalmente, pensava em mofo. Conheci o salvador da pátria, nosso querido Sanol, mas imaginem a minha decepção de moleque juvenil ao perceber que o Sanol só mata o mofo, ele não tira o estrago que já foi causado. Ele pode até não crescer mais se você cuidar a partir dali, mas o estrago está feito, isso não volta atrás.
Eu perdi muitos jogos, jovens. Ou vendi muitos jogos por uma fração muito menor do que eles valeriam se não estivessem mofados.
Em um segundo momento, mais consciente, passei a cuidar melhor dos jogos, mas essa era uma tarefa hercúlea, eu tinha jogos demais. De certa forma, o mofo me ensinou a desapegar.
Era uma matemática simples:
Se eu não jogo, mofa.
Não dá para jogar tudo.
Logo, algo vai mofar.
E eu só olhava para o lado meio vazio do copo. Todos se divertindo com o jogo na mesa, ninguém se importando com aquela pequena manchinha no canto do tabuleiro... eu só conseguia olhar para a manchinha (que na minha cabeça media o equivalente a 5 campos de futebol, em medida nacional).
"Luis, é a sua vez!"
"Ah, sim. Foi mal (minha cabeça estava tomada pelo mofo, ainda bem que não literalmente)."
Eu sei que jogos de tabuleiro são caros, mas estava fora de proporção. Eu precisava entender a origem desse estado de paranoia.
Capítulo 4 - A revelação
Na terapia, eu falava muito sobre o tema. Era claramente um dos tópicos que mais me incomodavam na minha vida. Sim, eu era bastante privilegiado, enquanto muitos se preocupavam com problemas reais, minha maior preocupação era o mofo no meus jogos. Mas eu precisei passar por aquilo para enfim amadurecer e entender o outro lado da vida.
Até que meu terapeuta, assim como a Sra. Perdomo lá no começo, mandou a real, e começamos uma regressão:
"Por que você se preocupa tanto com o mofo?"
"Porque eu não quero perder meus jogos."
"Por quê?"
"Porque eles são caros e eu quero jogá-los para sempre! Quero mostrá-los aos meus futuros filhos hipotéticos!"
"Mas, mesmo que mofem, você ainda pode comprar outros jogos, não?"
"Sim, mas esses são raros! Provavelmente nunca mais vão reimprimir esses jogos dessa forma... Eu queria mostrar esses para eles! Eles têm uma dimensão afetiva..."
"Luis, jogos morrem. São matéria viva, é a natureza, celulose. Do pó ao pó. A natureza está tomando para si o que lhe pertence. Não é sobre os jogos, Luis..."
(Não foi bem isso que ele falou, mas é como eu me lembro mais ou menos... essa conversa já tem alguns anos.)
Ali caiu a ficha de que eu ia morrer (um dia todos vamos, é a única certeza da vida). Sim, essa conversa escalou abruptamente. Realmente, não era sobre os jogos, mas como eu estava aproveitando a minha vida (não estava). Eu estava projetando todas as minhas expectativas num futuro fictício enquanto o presente estava escorrendo diante dos meus olhos.
Memento mori.
Os jogos estavam ali para me lembrar de que eu tinha que aproveitá-los, ou minha vida ia passar, assim como os jogos têm seu "prazo de validade", ainda que indeterminado. Na realidade, eu tinha que aproveitar a minha vida, e eu definitivamente não estava fazendo isso direito.
Todo meu tempo e energia estavam canalizados nos estímulos errados. Foi-se o tempo que eu pensava "cara, morar no Deserto do Saara deve ser muito show, não mofa nada lá!". Ou então, se aparecesse um gênio da lâmpada:
"Você tem um pedido."
"Eu quero que jogos de tabuleiro nunca mofem!"
"Você sabe que pode pedir a paz mundial, riqueza infinita, super poderes etc."
"Não, é isso mesmo que você ouviu."
Seria legal, né? Mas ainda assim, os jogos não seriam jogados sozinhos. Mais do que isso, talvez eu acumulasse ainda mais jogos, na tranquilidade de saber que eles nunca mofariam, e ficaria cada vez mais difícil jogar os primeiros que comprei.
No espírito do Revelação, apenas deixa acontecer naturalmente.
Capítulo 5 - A aceitação
Hoje, minha relação com os jogos é muito mais saudável. Tenho mais tempo para cuidar dos meus jogos, como falei no começo desta narrativa, e, mais do que isso, realisticamente posso jogá-los todos. Se, mesmo com todos os cuidados, eles mofarem ao ponto de ficarem insalubres (como a casa dos meus pais), é hora de dizer adeus, espero ter aproveitado bastante até lá. E se não tiver mais
aquela edição super rara no mercado, paciência. Não é como se eu fosse parar de jogar só por causa disso.
Lembro-me do dia que caiu a ficha que eu era hipster.
Eu falei para uma colega de trabalho: "Fulana, eu acho que eu sou hipster. Estou sempre atrás daquilo que é fora do mainstream..."
Ela falou pra mim com toda a sinceridade do mundo:
"Luis, você não é hipster..."
"Ah, que alívi..."
"Você é MUITO HIPSTER!"
Mas hoje estou de boa com isso também. Não tem resposta certa, jovens. O gabarito da vida é você que faz. Ninguém é perfeito, o importante é reconhecer e saber o que fazer com suas imperfeições.
Porque o tempo, jovens, o tempo não para.
Até o próximo jogo.
Forte abraço,
Luis Perdomo