HEGEMONIA 2
Recentemente, tive o prazer de ouvir a outro excelente episódio, o "Turno de Comentários #106 - Trabalhando temas brasileiros em jogos", do podcast Gambiarra Board Games. Acompanho o programa desde o início e admiro como ele busca trazer debates relevantes ao hobby. No episódio, Gustavo Lopes, apresentador do canal, e seu convidado Gabriel Toschi, da editora Piquinim Jogos e designer de jogos de tabuleiro, debateram por pouco mais de uma hora sobre as belezas e mazelas de se inserir a temática brasileira dentro dos jogos, em uma conversa bastante dinâmica e enriquecedora.
De tudo o que foi dito, confesso que me chamaram muito a atenção as críticas levantadas ao próprio mercado nacional e aos jogadores brasileiros, que por muitas vezes ignoram ou pouco se interessam por temas nativos. Esses jogadores acabam colocando tais temas em prateleiras menos importantes e deixam de dar o devido destaque à rica diversidade que os cerca.

Bad Bunny com a bandeira de Porto Rico no show de intervalo do Super Bowl • Kevin Sabitus/Getty Images
Soma-se a isso dois momentos recentes que se relacionam intimamente ao que foi citado. Nas últimas semanas, creio que muitos de vocês acompanharam a grandiosa e impactante apresentação feita por Bad Bunny no intervalo do Super Bowl. Honestamente, não sou um grande fã do cantor ou desse estilo musical, mas ver um latino expondo toda a cultura da verdadeira América, aquela que foi apagada e diminuída durante toda a sua história, no momento de maior audiência de uma nação tão enraizada em preconceitos, realmente fez com que todos os conscientes desse ato se levantassem para cantar e dançar juntos.
Ainda tivemos a histórica proeza do atleta brasileiro Lucas Pinheiro Braathen, que conquistou a primeira medalha do Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno. Ele demonstrou garra e emoção dignas de qualquer ícone nacional, com direito a salto no pódio e a escolha, por votação popular, como o melhor momento da competição.
Mas, infelizmente, ao acessar as redes sociais ou ouvir conversas vazias em lugares públicos, notamos um efeito bastante contraditório. Houve brasileiros atacando a apresentação de Bad Bunny e afirmando que ela era indecente, imoral, estúpida ou fraca, talvez a pior da história, embora tenha alcançado a maior audiência já registrada. Outros alegaram que Lucas não era brasileiro, que a medalha não tinha legitimidade e que não tínhamos motivos para comemorar com ele. São tentativas nítidas de apequenar conquistas, diminuir os fatos e distorcer a realidade. Sem dúvidas, assim como eu, muitos de vocês devem ter se perguntado qual é o motivo disso. O que leva uma pessoa a trair os ideais de sua própria nação, do espaço em que vive e das pessoas com quem convive, passando a enxergar sua própria cultura como inferior?
Lucas Pinheiro comemora ouro nas Olimpíadas de Inverno — Foto: Dustin Satloff/Getty Images
O termo mais conhecido e difundido talvez seja o famoso "viralatismo" do brasileiro. Honestamente, tenho problemas com essa definição, pois ela se tornou, devido à falta de aprofundamento das pessoas, uma fala pejorativa que acaba por também diminuir aquele que enxerga o comportamento estrangeiro como melhor. Na verdade, essa pessoa é tão vítima do sistema quanto todos nós.
Poderíamos, então, aprofundar a problemática através da definição de Hegemonia Cultural. Esse conceito foi cunhado por pensadores importantes, como Gramsci, Lênin e Adorno, que observaram a sociedade capitalista se desenvolver para além da produção industrial. Eles perceberam que os tentáculos da burguesia desenvolveram verdadeiros mercados culturais, passando a controlar a produção de música, cinema, literatura e, hoje, obviamente, os jogos de tabuleiro.
A ideia central aqui é bastante simples: quem controla o capital é também quem controla a produção cultural e, consequentemente, o pensamento, o comportamento e a moral daqueles que estão inseridos no sistema e não possuem o controle dos meios de produção. Muito cedo, os detentores do capital perceberam que a massa é mais facilmente controlada quanto mais homogênea for. Para isso, é preciso inundar os meios de comunicação com ideais que sigam a prática ética e política desejada pelos opressores, sufocando qualquer mínima possibilidade de reflexão ou de contradição ao todo.
Exemplificando: um jogador acostumado a sempre consumir filmes, brinquedos e jogos com personagens da Disney raramente vai se interessar por um jogo sobre brigadeiros, guerra de mamonas, a loira do banheiro ou eventos históricos nacionais. Isso ocorre pelo simples fato de ele ser bombardeado diariamente com produtos e temas que o fizeram acreditar serem superiores. É uma guerra de marketing desleal, como a maioria das batalhas que vemos nesse tipo de sociedade, travada entre os grandes impérios financeiros e os países por eles explorados, em um colonialismo que vai muito além da conquista de terras, pois visa dominar o comportamento humano.
Jogos da Piquinim Jogos com Temática Brasileira
E qual seria a solução? Penso que, se o indivíduo vive sua alienação por simples desconhecimento do todo, talvez seja o papel dos mais despertos conquistar espaços aos poucos. Devemos ser vistos e valorizar a arte e as culturas brasileira e latina. Colocar jogos com temática nacional em prateleiras ao redor do mundo faz com que possamos mudar a mentalidade daqueles que conhecem quase nada do lugar que os cerca. Obviamente, um pensamento tão enraizado não cederá espaço sem antes esbravejar muito, mas precisamos entender que existem aqueles dispostos ao despertar. Basta que tenhamos a paciência de mostrar a eles que há muito mais além do que lhes foi imposto. A riqueza está na diversidade de nossa cultura, não na homogeneidade do ser. É um processo árduo e necessário de descolonização da mente.
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