EXPECTATIVAS
Em nosso primeiro texto de 2026, conversamos um pouco sobre retrospectivas e seus desdobramentos em nosso comportamento. Mas se a retrospectiva trata dos eventos que se passaram no ano anterior, algo que sempre chega com um novo ano são as expectativas do que virá, com todas as promessas que fazemos e desejos que queremos satisfazer.
Em grande parte, o princípio de tais expectativas acaba por ser o mesmo que nos gera a negatividade das retrospectivas: a comparação. Como dito no texto anterior, seja conosco mesmos, seja com o outro, a partir de um passado temos a ânsia de projetar no futuro os desejos que não foram alcançados.
Talvez seja inerente ao ser humano tratar as coisas assim. Mesmo sendo de fato interessante não haver, existencialmente, diferença alguma entre os dias 31 de dezembro de 2025 e 1º de janeiro de 2026, psicologicamente entendemos ser um tempo novo, com novas possibilidades. A questão é: sendo apenas considerações cronológicas, um tratamento humano que damos ao tempo, sem entendermos as devidas causas para não termos alcançado os planos anteriores, acabamos por passar mais um ano inertes numa série de angústias e frustrações. Citando Sêneca: “Cada um faz precipitar sua vida e padece da ânsia de futuro e tédio de presente.” (Sêneca, 49 D.C.)
No mundo dos boardgames, as expectativas de um novo ano são realmente avassaladoras. Talvez o primeiro sentimento seja o de impormos a nós mesmos o ideal de que, nesses dias que virão, conseguiremos jogar mais do que no passado recente. Entretanto, convido o leitor a refletir bem sobre o estilo de vida agitado e impositivo que vivemos. Pense: nos últimos anos, você tem conseguido mais ou menos tempo livre, com todas as implicações que isso signifique, a cada ano que passa?
Em nossa sociedade de desempenho, acabamos por colocar em nós tais possibilidades sem entendermos a realidade cruel do sistema. Citando mais uma vez A Sociedade do Cansaço, estamos numa situação em que colocamos um autogerenciamento como um benefício humano e social, sem nos darmos conta de que, no fim, o que acontece é o surgimento de uma “autocoação, que se apresenta como liberdade” (Byung-Chul Han, 2019).
Acontece que essa autocobrança vinda com todas essas expectativas traz consigo muitas das emoções negativas de nossos tempos, principalmente essa angústia de um futuro por vir, um presente que se prolonga, uma vez que ainda é um reflexo desse sentimento de liberdade, como diria Kierkegaard.
Porém, não podemos deixar de lado as expectativas comerciais que também nos são impostas. Recebemos avalanches de anúncios comerciais que, sempre em teoria, chegarão às prateleiras de lojistas nos próximos meses, despertando aquela ansiedade, FOMO e uma grande sensação de impotência ao ver os preços elevados, se ele chegar, ou mesmo caso ele atrase por meses sem qualquer atualização.
De fato, é preciso estar atento. Como dito inicialmente, é muito fácil gerar frustrações com expectativas que muitas vezes nos são mais impostas do que selecionadas, colocando-nos num conflito interno de falsa responsabilização. Alguns dirão que daí parte muita negatividade, mas é justamente no excesso de positividade que estamos mergulhados onde encontramos os verdadeiros problemas.
Honestamente, não tenho alimentado muitos desejos para o ano que se inicia. Em relação a este canal, pretendo apenas mantê-lo como está, com textos periódicos, sem promessas de datas ou horários, para fazermos juntos um debate mais profundo. Quanto aos jogos de tabuleiro, na boa coleção que já tenho, pretendo apenas poder usufruir o tempo com boas pessoas e partidas, sem números, sem resoluções, sem ter que cumprir qualquer imposição interna ou externa.
Sem mais, espero que o texto traga boas reflexões aos leitores. Independentemente do ano, o objetivo não foi alterado. Agradeço a leitura e peço, por favor, que se inscrevam no nosso canal da Ludopedia, assim como em nosso perfil no Instagram: @pontocapitalbg. Não deixem de curtir, comentar e compartilhar, vamos enriquecer o debate. E lembre-se: o mundo começa a fazer sentido quando entendemos que a vida é um jogo cooperativo!
Meeples do mundo, uni-vos!