PROMOÇÃO
Desde o início da década de 2010, copiando mais uma prática da autodeclarada mãe da cultura e boas práticas do ocidente, os EUA, o Brasil tem a prática de promover a já famosa Black Friday, promoções de fim de ano que tem o intuito de promover o consumo e liquidar estoques antigos, quase seguindo o pensamento de, ao final do ano, ter um “ano novo, estoque novo”, e lembre-se, já falamos sobre isso, a novidade na nossa sociedade de consumo é de extrema importância. "Nesta sociedade, a satisfação é sinônimo de obsolescência e a novidade é a ferramenta para manter o motor do consumo em marcha." (Bauman, 2007).
Obviamente, fizemos nossas adaptações. O mercado brasileiro funciona numa espécie de sazonalidade entre datas, e prepara suas vendas sempre baseadas na próxima festividade. Há tempos já vemos vitrines e outdoors com chamadas de mês das mães, dos pais, das crianças… tudo depende da época do ano, e o comércio brasileiro não iria atuar diferente com esta data importada.
Passado o dia 12 de outubro, popularmente e comercialmente, dia das crianças, começamos a notar imediatamente surgir em corredores de lojas e supermercados, cartazes indicando promoções exclusivas do momento, apesar de já termos visto preços similares em outros dias. No caso dos jogos de tabuleiro, já no dia 13 de outubro, notificações e e-mails eram enviadas a consumidores indicando os preços que baixariam e alertando: nessas datas atrasos de entrega podem ocorrer!
Para alguém que adentrou ao Hobby há poucos anos, é bastante interessante notar a diferença de comportamento de editoras e lojistas no decorrer desse tempo. No início desta década, bons descontos apareciam com frequência, de jogos novos ou antigos, e apesar do preço muitas vezes não indicar o limite que poderia ser oferecido ao consumidor, era possível adquirir algo por um valor menor.

Entretanto, nos últimos anos temos visto apenas jogos esquecidos e rejeitados entrando em ofertas que chegam a valores menores a cada ano, mas que ainda assim, não fazem o produto escoar e sair do mercado. Se você abrir agora mesmo sites de busca ou entrar em lojas especializadas, provavelmente vai encontrar aquele mesmo Witchstone, de 2022, ou ainda o Nidavellir, também de 2022. Talvez você prefira um Alubari ou X-men: Insurreição Mutante, ambos de 2021. Daria para citar também Tortuga 2199, Os Pilares da Terra: O Jogo de Cartas, Virtú, Red Rising e tantos outros que, percebam, não são jogos ruins, são de editoras diferentes, com temáticas e propostas distintas, mas persistem, ano a ano, independente do preço colocado, empacados em lojas pelo Brasil.
Nesse caminho, compramos o que queríamos e não queríamos. Apenas trocamos o boardgame de espaço. Ele deixa de estar parado na prateleira de uma loja para permanecer nesse mesmo estado nas prateleiras das nossas casas, uma vez que apenas aproveitamos da oportunidade de adquirir, sem a devida reflexão se aquele produto teria finalidade nas mesas que compomos.
Porém, se a Black Friday tem esse chamado ao consumo excessivo e sem sentido, o motivo principal se dá por outro excesso, o da produção. Talvez esse texto gere mais perguntas do que respostas, natural aos assuntos aqui tratados, mas teremos que começar a questionar, se é que já não deveríamos ter avançado dessa etapa, se a indústria está crescendo e se sustentando de maneira sustentável. Será natural um mesmo jogo de tabuleiro atravessar quatro ou cinco anos de ofertas sem conseguir ser vendido? Falta consumidores ao mercado? Essa falta precisa ser preenchida? A quem isso beneficiaria? Estamos aumentando a produção rápido demais? Enfim, dúvidas genuínas que demandariam um debate bastante amplo e honesto sobre o assunto.
É bom esclarecer, num mercado criativo e multifacetado como esse, nem tudo será um acerto de vendas e para acertarmos, muitas vezes, percalços existirão durante a jornada. Entretanto, a proporcionalidade entre erro e acerto aparenta estar em algum limite que observamos também em outras áreas do capital.
Por último, sabemos que o debate sobre esta data pode gerar muitos outros assuntos, mas assim como os jogos que se repetem anualmente, poderemos estar aqui de novo e aprofundar outros pontos. Deixamos então algumas dicas costumeiras que podem ajudar: reflita antes da compra, você provavelmente não conseguirá revender este jogo tão cedo; veja o tamanho da sua coleção e se o que você está comprando um jogo com temáticas e mecânicas parecidas com as que você já tem, e não se afobe, a promoção durará muito tempo ainda e é possível que se estenda até o Natal, se você ainda não tinha comprado aquele jogo, talvez não fosse um desejo tão grande assim, você vai ficar bem sem ele.
Por favor, não deixem de seguir nossa página no Instagram: @pontocapitalbg, curtam, comentem e compartilhem esse texto com quem desejarem e lembrem-se: o mundo começa a fazer sentido quando entendemos que a vida é um jogo cooperativo!
Meeples do mundo, uni-vos!