COMPORTAMENTO
ATENÇÃO LEITOR: O TEXTO ABAIXO CONTÉM TEMAS SENSÍVEIS.
Se você esteve minimamente inserido na mídia brasileira na última semana, com certeza se deparou com uma cena bastante grotesca na “casa mais vigiada do Brasil”, dentre tantas outras que poderiam ser citadas. Acontece que o participante Pedro Espíndola, diante das câmeras e sem qualquer hesitação, sentiu-se livre para importunar sexualmente a também participante Jordana. Tal atitude o fez desistir do jogo e reacendeu debates importantes sobre pautas diversas, uma vez que existem inúmeros desdobramentos enquanto aguardamos que se faça justiça. Sei que você pode estar pensando: "Certo, mas o que isso tem a ver com jogos de tabuleiro?”. Peço apenas um voto de confiança, pois tudo se encaixará no decorrer do texto.

Desses debates que vêm tomando as redes sociais país afora, a pergunta que mais tem sido feita é: “Como?”. E não como é possível um ser humano já adulto e dono de todas as suas faculdades mentais ser capaz de simplesmente ignorar o espaço e a liberdade do outro, mas sim, em uma ideologia claramente de lógica produtiva, como é possível o maior Reality Show do Brasil, que passa meses fazendo processos de seleção com milhares de candidatos, ter sido capaz de escolher uma pessoa assim para participar do programa?
A questão é bastante válida, mas, como já dito, um pouco rasa e sem amplitude. Veja bem, se você puxar pela memória as últimas edições do BBB, vai se deparar facilmente com outros tantos participantes com comportamentos, infelizmente, bem similares ao apresentado por Pedro. Na edição deste ano, já estamos vendo falas e atitudes de outros participantes carregadas de preconceito, para dizer o mínimo, com tantas minorias. Então, não é um caso isolado.
Ao relembrar disso, o senso comum nos coloca na posição de questionar a emissora e seus valores, acreditando que o motivo de estes participantes serem selecionados reside apenas na razão de saberem que as polêmicas criadas serão boas geradoras de engajamento e, consequentemente, audiência para o show. Longe de mim defender a emissora ou a equipe que seleciona o elenco, possivelmente tal ideia passe pela cabeça delas, porém, tendo a acreditar que nossa questão pode ser ainda mais aprofundada.
Diante das informações levantadas e da repetição dos comportamentos por pessoas diferentes, penso que o problema não seja simplesmente audiência e engajamento. Talvez o programa escolha pessoas machistas e preconceituosas porque vivemos em uma sociedade machista e preconceituosa. Meu ponto é: Pedro não é uma exceção à regra, alguém que enganou várias pessoas e conseguiu se infiltrar como participante. Ele é o reflexo da sociedade como um todo, uma sociedade que vende competitividade, individualismo e liberdade a qualquer custo, mas que, no fim, produz violência, segregação e autoritarismo.
E onde esse caso se encaixa no nosso hobby? Bom, se você ainda não se deu conta, vamos lá. A comunidade dos jogos de tabuleiro costuma ser muito reconhecida por sua receptividade e aceitação. E, de fato, temos inúmeras boas histórias de encontros em mesas e eventos com pessoas que mal se conheciam e de repente tornaram-se melhores amigas. Porém, é interessante verificar que é quase unânime termos uma história negativa para contar sobre alguma jogatina de que participamos, com casos de agressões verbais e comportamentos tóxicos, dentre tantos outros. E isso é só o que notamos, nem estou citando todas as vezes que ouvimos falas pejorativas com a desculpa de serem apenas uma brincadeira ou piada. Muitas vezes, somos o reflexo dessa sociedade da qual julgamos não fazer parte.
Sem querer deixar de responsabilizar os envolvidos, penso que o texto de hoje propõe um julgamento individual e coletivo sobre a origem de tantos comportamentos negativos. Para além de casos isolados, de pessoas doentes ou psicologicamente prejudicadas, é preciso entender que certas condutas são fabricadas pelo sistema, pois favorecem o sistema.
Marx já denunciava em sua obra que a estratégia para a manutenção do poder da classe dominante é justamente separar o trabalhador em dois grupos hostis. No caso, ele falava sobre a divisão das nações, mas não é difícil vermos isso em relação a áreas diversas como gênero, raça e sexualidade. Juntando os pensamentos de Eugene V. Debs e Paulo Freire, enquanto houver um grupo para subjugar outro, ninguém estará livre. Sem uma educação libertadora, o oprimido deseja ser o opressor. Ou seja, somos inseridos em um sistema doentio que se retroalimenta e causa tantos transtornos.
Que possamos, então, pensar sobre nossas atitudes enquanto pessoas e jogadores. Podemos fazer das nossas mesas e jogos o primeiro ponto de mudança. Como temos agido em situações que exigem nosso posicionamento? Temos sido neutros ou coniventes? Somos parte do problema ou da solução? Como diz a frase atribuída a Gramsci: “Tudo é político, inclusive seu silêncio conivente e fantasiado de neutralidade.”
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