É 30 de dezembro do melhor ano que chega ao fim.
É o ano onde aquele que foi gestado por tanto tempo veio ao mundo, e com seu sorriso coroou 11 anos que passaram como se fossem 1 ou dois.
E em cima da mesa, a luz do último farol.
O dia passa preguiçoso, estão fechadas as portas.
Lá fora, o mesmo calor que trás a vida também sufoca e empapa as mangas de camisa e o próprio ânimo.
Em cima da mesa, o Último Farol.
A calmaria do dia traz reflexão, foi um ano de poucas apostas e muitas partidas do jogo da vida, onde qualquer que seja o resultado da rolagem dos dados, a vitória já foi conquistada.
Nunca joguei tão pouco, e nunca fiquei tão satisfeito com isso, poderia inclusive ter jogado menos.

No caderno, as ideias fluem pelas mãos.
O giz pastel deposita seu conteúdo lentamente no papel que não foi feito para esse fim, aos poucos o giz se sobrepõe a outro, o caos da mistureba exige a ordem de uma folha de papel toalha para se mesclar de forma concreta.
Cansado que está o giz, dá lugar a caneta Sakura que com sua ponta bem fina dá vida a uma montanha de imaginação que um dia pode vir a ser escalada.

Na mesa, o último Farol.
E o pensamento vai longe.
Há planos para os mais diversos destinos, apenas à espera do resultado de alguns números anotados num pedaço de papel amassado.
Do Uruguai a Nova Zelândia, de Luxemburgo ao Chipre.
Uma xícara chá no Ceilão, um banho de luz neon te cegando em um cruzamento de Tóquio, seu filho brincando em um montinho de neve em Oslo.
A certeza é sair daqui, a incerteza é ter as condições para isso, o temor é pelo desejo de voltar.
E em cima da mesa, escancara-se a luz do último farol.

À direita do Farol estão os pesadelos e com eles as armadilhas.
A esquerda está apenas o vazio.
Na partida solitária de mais um jogo da vida, vence quem chega incólume ao fim da noite.