LIBERDADE
Você é livre! Acorde num domingo bem cedo, junto com o sol. Coloque uma toalha estampada numa mesa de plástico, pegue uma xícara de café e faça todo o setup de Zombicide 1ª edição e jogue uma partida solo. Perca na terceira rodada depois de algumas rolagens ruins. Tudo bem, você é livre!
Mas você é livre, pegue seu jogo favorito, que vai apenas de 3 a 5 jogadores, altere as mecânicas corretas, experimente novas possibilidades e jogue um modo duvidoso para dois jogadores que faz um jogador disparar em pontos enquanto o outro fica travado. Você se questiona se aquilo funcionou ou não. Você é livre para isso.
E estoure uma pipoca, pegue uma boa bebida na geladeira, e aproveite sua noite assistindo vídeos de unboxing na sua televisão. Compare os componentes, veja tiles sendo destacados e reclame que essa caixa não aparenta ter a mesma qualidade das edições internacionais. Faça uma declaração oficial na página do jogo na Ludopedia. É um descaso o que foi feito!
Compre uma bolsa especialmente feita para transportar jogos e arrume espaço para uns 10 ou 15 diferentes para levar naquele churrasco do pessoal da antiga escola, que você não vê há alguns anos, regado a muita bebida, piscina e música alta. Confie no seu potencial, com certeza muitas jogatinas serão realizadas nesse dia, provavelmente um truco com o baralho engordurado que já estava no local, mas essa é uma outra questão. O que importa é: você é livre para transportar quantos jogos quiser.
E não é só isso. Compre o jogo do momento, no pré-lançamento, deixe-o chegar na sua casa quase um mês depois do esperado, abra a caixa, destaque cada componente e chame os amigos para uma grande noite. Não ponha sleeve em nenhuma carta sequer, vá até o bar na sua rua e peça dois ou três pacotes daquele amendoim colorido, com sabores artificialmente deliciosos. Divirta-se. Um jogo sem marcas é um jogo sem história?
Nos mais diversos absurdos que a vida possa nos proporcionar, a liberdade de agirmos de formas diversas, distintas e contraditórias é aquilo que, afinal, talvez nos dê o máximo da nossa humanidade. Sim, você é livre para fazer as piores escolhas que possam ser feitas.
Mas afinal, o que é “ser livre” então? Com certeza, esse é um tema muito debatido pelo homem ao longo da nossa história. Da liberdade aristotélica que entrelaça o agir a seguir sua autossuficiente razão, não nos deixando presos a vãs paixões; passando por Rosseau que assumiu diferenciar liberdades naturais e civis, até a autonomia kantiana de dar a si a própria lei seguindo seu conhecido imperativo categórico. Neste texto partiremos de dois outros grandes filósofos.
“A liberdade é ser-consigo-mesmo na outra pessoa.” (Hegel, 1820). Aqui temos a sucinta compreensão hegeliana sobre liberdade, num claro posicionamento de entender sermos livres nas instituições que nos unem, não na individualidade, mas justamente no convívio com o outro. E aí que Sartre escancara a nossa condenação em sermos livres, se a existência vem antes da essência, somos os responsáveis diretos por nossos atos e escolhas, por quem nos tornamos e todas as consequências pessoais e coletivas.
E em um passatempo tão social como os jogos de tabuleiro, isso não é tão difícil de se verificar. Somos colocados à prova em diversos momentos da jogatina, justamente nessa linha entre liberdades. Você pode facilmente “esquecer” de pagar os recursos daquela jogada final, mas se o fizer, qual seria o propósito daquela partida? Para que se sentar numa mesa onde as garantias de se seguir regras não serão cumpridas, fazendo o jogo quebrar de diversos modos? O que levaria pessoas a sentarem numa mesa de Pandemic se apenas o Alpha Player fará péssimas jogadas e colocará a culpa em outras pessoas? Perdem-se as razões e quando isso acontece, existem consequências.
Por exemplo, vamos supor que, numa situação hipotética, que nada tem a ver com qualquer tipo de caso real, duas pessoas decidam participar de uma partida competitiva, deverá existir um perdedor e um ganhador, certo? Ambas sabem disso e concordam antes de se sentar em frente ao tabuleiro. Durante a partida, apesar de tentativas fracassadas do jogador B de conseguir benefícios impróprios, o jogador A sai vitorioso, por uma margem muito baixa de pontos.
Imaginemos então que o jogador B decida pedir recontagem de pontos, já que os pontos não seriam auditáveis. Mesmo assim, ele continua como perdedor. Ainda sem aceitar a derrota, ele resolve chamar amigos de amigos para revirar a mesa e destruir o tabuleiro da partida. Mas veja bem, os pontos já tinham sido contados e já temos um vencedor. Ele até diz que não tem nada a ver com isso e põe a responsabilidade nos arruaceiros que quebraram tudo, mas tudo diz o contrário. Bom, o que você faria com o perdedor?

Para alguns, tirar este jogador derrotado das próximas partidas parece meio exagerado e ditatorial. Ele não ter se comportado na situação citada não significa necessariamente que fará o mesmo em casos futuros, entretanto, "A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles." (Karl Popper, 1945). Não pode ser permitida a liberdade individual de quem fere liberdades coletivas, não podemos nos esquecer disso. Este jogador deverá responder por seus atos.
Se em toda a sua liberdade, você conseguiu chegar até aqui, agradecemos seu esforço, infelizmente, ou nem tanto assim, nem todos poderão ler o texto desta semana. Mas peço, por favor, que não deixe de nos seguir no Instagram @pontocapitalbg, curta, comente e compartilhe esse texto se você gostou dele e achou o debate importante, e nunca se esqueça: o mundo começa a fazer sentido quando entendemos que a vida é um jogo cooperativo!
Meeples do mundo, uni-vos!