ELITISMO
"A consciência de classe é a reação racional adequada que deve, dessa maneira, ser adjudicada a uma determinada situação típica no processo de produção." (Georg Lukács, 1923). Com esse belíssimo pensamento de Lukács, importante filósofo húngaro do século XX, damos início a reflexão desta semana. Mas antes de começarmos, é relevante tomarmos certo espaço deste texto para pontuações.
Primeiramente, gostaríamos de agradecer a todos os que curtiram e comentaram em nossa publicação IMPERIALISMO (
https://ludopedia.com.br/topico/93461/imperialismo), tivemos excelentes falas e aprofundamentos sobre o tema, um dos propósitos deste
blog. Entretanto, aos que acharam o texto enviesado, aos defensores da liberdade que disseram não haver espaço para esse tipo de texto num
site de jogos de tabuleiro, esclarecemos, caso o nome desta página e o meeple segurando uma foice e um martelo não sejam suficientes, que a neutralidade não é e nunca será um de nossos alicerces. Citando o grandioso Freire:
“É impossível ser neutro. Quem decide pela neutralidade já optou por uma posição.” (Paulo Freire, 1996).

Com esse breve adendo, podemos então chegar ao cerne do nosso debate semanal, partindo de um problema que atinge a grande maioria dos jogadores de boardgames, o elitismo. E nos atinge, pois é a partir deste ponto que muitas outras questões são desenvolvidas. Desde os preços exorbitantes , até a falta de pessoas para compor uma mesa cheia ou aquele que se distancia tendo a certeza de que jogos de tabuleiro não são ele.
Vejam bem, quando cito este termo, elitismo, muitos podem ficar ofendidos e negarem seus próprios favorecimentos. Mas é aqui que precisamos abrir nossas mentes e entender nosso papel dentro de uma sociedade muito desigual e injusta. Como está exposto na abertura deste texto, para além de entendermos nossa classe social, é necessário entender toda a cadeia produtiva e como somos favorecidos, ou não, a partir dela.
Como já dito em textos anteriores, mais que um simples produto comercial, jogos são uma expressão cultural importante. E é preciso refletir sobre vivermos em uma sociedade onde acesso a cultura é um bem para poucos. Se o capitalismo tem a capacidade de transformar tudo em mercadoria, não seria diferente com a cultura no geral, e sendo a cultura uma ferramenta preciosa de emancipação socioeconômica, é de certa lógica concluir que seu acesso deve ser disponibilizado a poucos. Precisamos entender que nossa sociedade é racionalizada para ser plenamente funcional a quase ninguém, parcialmente a alguns e falhar totalmente a muitos.

Não há como dizer que num país onde o salário mínimo beira os mil e quinhentos reais, um jogo custar um terço desse valor é natural e acessível. Compreendemos o debate em cima da produção e materiais, que tem custo e fazem parte do problema. Porém, que não se negue o certo costume que absorvemos em comprar um jogo por quinhentos reais hoje e no outro dia encontrarmos o mesmo em promoções e queimas de estoque por menos da metade disso. Qual seu verdadeiro valor? Fomos ensinados e manipulados a entender e querer o exclusivo, o mais caro, a versão deluxe que vem apenas para alimentar um fetichismo comercial para o hobby.
Muitos pensarão: “Bom, mas não tenho nada a ver com isso, não controlo preços e nem produção.”, mas será que realmente não controla? Faça uma breve reflexão e entenda que o mercado funciona num adestramento dos consumidores e, nos jogos de tabuleiro, uma seleção daqueles que podem consumir. Se nos acostumamos a pagar caro num jogo, mesmo que num futuro próximo, possamos descobrir novos materiais ou métodos produtivos mais baratos, seu valor final não será deduzido, por um princípio simples, o objetivo do acúmulo de capital é o lucro e não a democratização do acesso a todos. Barateiam-se os custos, mas os preços não têm histórico de queda. Podemos não ter total controle, mas somos parte da influência.
É preciso romper paradigmas e trazer a discussão à luz. Há alguns anos se escutava muito que essa falta de acesso aos jogos e esse passatempo de nicho eram problemas para trazermos novos e bons títulos para o Brasil. Todavia, lançamentos chegam toda a semana, as prateleiras dos lojistas estão abarrotadas e temos a sensação de que os jogadores não conseguem mais absorver o consumo.
E antes que se protejam no discurso óbvio sobre o assunto. Para além de ser apenas uma questão de impostos e preços, sendo nosso país ainda muito atrasado nesse quesito ao taxar consumo ao invés de patrimônio e rendimentos, como tantos outros; tornar a cultura uma condição elitista está na base do problema, haja vista a existência do mesmo debate em outras frentes, como literatura, música e cinema.
Por fim, não poderíamos deixar de expressar toda nossa solidariedade para com aqueles que perdem seu tempo e dinheiro nas tentativas de democratizar o acesso aos jogos de tabuleiro. Temos sim, pessoas muito comprometidas em mesas, escolas, bibliotecas, eventos e, inclusive, editoras, que prezam e tem por objetivo levar essa parte importante da nossa sociedade para o máximo de pessoas possível, mostrando que existem maneiras de fazer acontecer.
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Meeples do mundo, uni-vos!