Olá!
Eu sou o Davi e você está no Análise Escrita.
Dando continuidade a nossa série de entrevistas, o canal tem o prazer de receber nosso entrevistado de hoje.
José Carlos Santos (o Rôla) é um designer português de jogos de tabuleiro que em dupla com Luís Costa nos brinda com varios sucessos.

"Fonte da foto: BGG"
Entre os jogos da dupla que desembarcaram no Brasil, posso citar Café, Lata e mais recentemente Oliva.

"Coleção 5 quinas"
Como nosso amigo é português, manterei as respostas exatamente da forma como nosso entrevistado enviou, então as perguntas estarão em Português Brasileiro e as respostas em Português de Portugal.
"O tempo que temos pela frente é muito pouco para ser consumido em frente de écrans ou em discussões estéreis na internet."- José Carlos Santos
Sem mais delongas, segue nosso bate papo.
José, primeiramente gostaria muito de agradecer pela entrevista.
Para começar, gostaria que falasse um pouco de você, qual sua formação original? como surgiu seu interesse por Boardgames?
JC- Sou engº civil de formação.
Desde a infância ficou o gosto pelos jogos. Era um objeto mágico, mais do que um carrinho ou um boneco.
Numa visita a um amigo alemão, em 2003, ele mostrou-me o Carcassone e o Catan. O interesse pelos jogos voltou aí.
Em 2006 descobri o grupo Spiel Portugal e com eles, todo um novo mundo…
Hoje o design de Boardgames é seu trabalho em tempo integral?
JC- Não.
Trabalho numa Câmara Municipal, depois de muitos anos como diretor de obra.
Você se considera um jogador? Mantém uma coleção de Boardgames?
Joga os próprios jogos?
Fale para nós sobre seus jogos favoritos e sobre sua rotina de partidas!
JC- Jogo com frequência. Jogos simples quando tenho visitas ou vou a escolas ou associações, jogos mais demorados aquando dos encontros semanais e jogos pesados com os amigos do Spiel Portugal.
Tenho um conjunto de jogos variados, cerca de 200.
Gosto de jogar os meus jogos, sim. Sobretudo os menos afamados, como o Dom Pierre, por exemplo.

"Dom Pierre"
Pensando um pouco sobre a coleção 5 quinas: está sendo um verdadeiro sucesso no Brasil, e hoje está presente na coleção de muitos jogadores por aqui.
Café em especial vendeu muito bem, Lata também teve um bom desempenho, e as espectativas estão altas para Oliva.
Gostaria de saber como surgiu originalmente a ideia para essa coleção? Ela veio como uma homenagem a setores que foram economicamente importantes para Portugal?
JC- O editor pediu-nos um jogo de cartas. Algo simples e de produção pouco onerosa. Saiu o Café. Tem cartas, mas não cumpriu nada do restante pedido.
A Pythagoras, até essa altura, sempre optava por temas relacionados com Portugal. Por isso o tema surgiu naturalmente. A partir do sucesso do jogo, os restantes alinham-se naturalmente como uma homenagem às pessoas que, em condições difíceis, sem pouco retorno, fizeram de algumas atividades, marcas de sucesso do pais além fronteiras.

"Foto da minha coleção, diferente da maioria eu prefiro o Lata ao café!"

"Protótipo do Lata - Foto enviada pelo entrevistado"
Quais as principais inspirações para seu trabalho?
E suas influências quando se fala em design de Boardgames?
JC- O tema é sempre a inspiração inicial e maior.
Qualquer um pode achar que o tema de um determinado jogo tanto poderia ser o que é como qualquer outro, mas custa-me que as pessoas não parem um pouco, antes de carregar no gatilho das redes sociais ou do BGG, para se questionar se, na génese do jogo, não esteve um tema. E um tema acarinhado, depois, no desenvolvimento do jogo.
Quando se escolhem 4 ações base como colheita (ou plantar), secar, torrar e entregar o café, está lá o ciclo de produção do produto. No caso do jogo Café até as cores foram escolhidas de acordo com as quatro cores pelas quais a planta ou o fruto passam! E, por exemplo, o barco, e com ele a ideia de um icon extra que depois a expansão explorou, surgiu porque as ações A e B se passavam além-mar e a torra e a distribuição já em Portugal, depois da viagem nos barcos…
No design, eu e o Costa somos influenciados seguramente pelo que jogámos naqueles anos de descoberta, depois de 2006. Os clássicos!
A matemática certinha e mágica de um Knizia, a revolução mental de Wallace, a elegância de M. Schacht…
Hoje estamos atentos aos mecanismos e a ideias que podem encaixar bem nos problemas que encontramos durante o design.
Por vezes, surge uma solução que nos faz avançar e só mais tarde reparamos que a teremos bebido em algo que jogáramos uns tempos antes.
Como surgiu a Parceria com Costa?
Como é criar um jogo em dupla?

"Costa e Rôla - foto enviada pelo entrevistado "
JC- Tanto ele como eu tínhamos o sonho de publicar um jogo. O sucesso dos nossos amigos Soledade e Sentieiro fez-nos acreditar que tal seria possível, E desde logo percebemos que em dupla a coisa poderia funcionar melhor.
A dois as ideias são discutidas desde cedo, somos contrariados ou secundados de imediato.
A conversa permite acelerar e queimar etapas que um autor sozinho terá de percorrer.
E depois, é obvio, há disponibilidade imediata para testes com interação real, pois somos dois.
Que dicas daria para um designer iniciante?
JC- Ir matutando na ideia antes de passar a protótipo. Imaginar o que aconteceria se um jogador fizesse isto ou aquilo.
Tentar perceber se determinada solução tem contrariedades, poupa tempo.
E é um processo que leva a procurar a excelência, de uma forma utópica, na generalidade dos casos, mas é o processo.
A certa altura percebemos que a coisa funciona, mas queremos ir mais além, queremos que funcione sem ser preciso adicionar uma alínea à regra, ou sem ser necessário meter mais madeira na mesa, ou sem que os outros jogadores tenham de ficar passivos à espera, etc, etc
Como designer, como enxerga o uso da IA na criação de jogos?
JC- Para já, só uso na pesquisa temática e num ou noutro desenho para o protótipo.
Não penso muito nisso, acredito que pode vir aí muito produto quase integralmente produzido por IA,mas não tenho receio.
Como se diz no meu grupo de jogadores, haverá sempre um Brass para jogar.
O que podemos esperar para a coleção 5 Quinas após Oliva?

"Segundo o autor, é o playtest de um novo jogo...o que vem por aí?"
JC - Estamos a trabalhar no 4º jogo.
É natural que peguemos em algum dos nossos mecanismos já utilizados em outros jogos.
Podeis esperar sempre algo atrevido, claro, no sentido de arriscar ideias como a de “bidar” com ações, mesmo que isso nos custe críticas certeiras.
Mas se não houver jogos assim, que arrisquem não agradar a todos, vamos ter uma infinidade de jogos de combinações em que bate tudo certinho, com temas que invariavelmente metem flores ou extraterrestres…

"Oliva, novo jogo da coleção 5 quinas a desembarcar no Brasil".
Se puder deixar uma mensagem para o público Brasileiro, seria muito legal!
JC- Fico extraordinariamente contente com essa notícia de os nossos jogos serem apreciados aí. Porque sei como exigente é o jogador brasileiro e como cuida dos seus jogos, dado o custo que têm, quer em dinheiro, quer a chegar à casa de cada um.
Desejo que se divirtam muito a jogar, a conviver à mesa, com a família ou com os amigos. O tempo que temos pela frente é muito pouco para ser consumido em frente de écrans ou em discussões estéreis na internet.
Senhores, essa foi nossa entrevista da semana.
Na semana que vem, teremos uma entrevista que vai surpreender a todos, não perca!
Edit: Assim que nosso amigo português me responder o que ele nos indica para comer apreciando um de seus jogos, eu edito esse post! 
Edit 2:
Ele respondeu!
Segue a resposta de nosso entrevistado:
"Pensar numa refeição associada aos meus jogos remete-me quase obrigatoriamente para as conservas de peixe e o azeite. E transporta-me para a minha adolescência, quando o trabalho na terra pedia a minha ajuda, junto dos meus pais.
Recordo as manhãs em que, ainda criança, carregava o almoço, que nesses tempos pausava a manhã de trabalho árduo perto das 10, e que a minha mãe preparava bem cedo, cozendo a broa no forno a lenha e assando o bacalhau e as batatas nas brasas que sobravam, fechada a pequena porta de ferro do forno. Atravessava o rio na ponte junto ao moinho, que ainda hoje mói algum milho, e ao lagar, que não espremia azeitonas já há alguns anos, e caminhava até à leira onde o meu pai comandava um grupo de trabalhadores. Estendia, então, a toalha no chão de terra dura e já seca do orvalho e regava o prato enorme e comum aos garfos ávidos com o azeite doirado escorrendo sobre as batatas esmurradas, o bacalhau desfiado e o alho fatiado.
À tarde cabia-me levar a merenda, ali próximo das 5 horas. Café de cafeteira e sardinhas em lata que a broa da manhã recebia sem prato ou talher. Com sorte, naquele verão de 82, a minha mãe cedia à minha insistência e deixava-me abalar de regresso a casa mais cedo, a tempo ainda de ver a segunda parte do Brasil de Zico, Falcão e Sócrates, no mundial de Espanha!
Vem a propósito que essa equipa recorda-me, hoje e sempre, que os jogadores são maiores do que o jogo, seja num relvado da Andaluzia ou na mesa da nossa sala!
E é também por isso que, um pedaço de pão molhado em bom azeite, com o jogo e a companhia certos, pode saber a picanha ou caviar! "