POLARIZAÇÃO

O mundo está dividido! A sociedade, separada em dois lados, dizem, completamente heterogêneos, disputando espaços, envolvendo grandes impasses e discussões em ambientes reais e digitais, em um conflito que persiste há muitos anos e que com certeza você bem já deve ter notado, ou até, sem nem perceber, feito parte de um desses grupos.
De um lado, temos pessoas que muitas vezes se intitulam quase como uma elite esnobe que se considera intelectualizada, não vieram ao mundo para perder seu tempo com coisas inúteis, bobagens mundanas. Recusam-se a entregar o destino a própria sorte, acreditam que com os parâmetros certos, recursos necessários e uma boa dose de estratégia, podem mudar o jogo, conquistar o que tanto almejam.
Do outro, uma classe oposta, mais preocupada por um senso estético e em aproveitar o que a vida tem a oferecer, custe o que custar, gostam do conflito, do embate. É preciso ter resiliência e adaptar-se as situações que aparecem, nem tudo pode ou deve estar em controle, ainda assim, quando não se conquista o almejado, é necessário reconhecer a culpa, você não soube se encaixar.
Acredito que com as descrições estabelecidas acima, você leitor já deve ter sido capaz de entender claramente quais são esses dois grupos, isso mesmo, a famosa polarização do mundo dos jogos de tabuleiro: Eurogamers x Amerigamers, já enraizado há tempos em nossas mesas, evidenciando essa necessidade quase patológica que temos de nos colocarmos em grupos encaixados, bem estabelecidos e que não podem, nem devem se misturar com outros.
Esta seria praticamente a definição de polarização, ter dois pólos, dois opostos que não possuem nenhum contato em comum, apesar de que, nesse nosso exemplo aqui estipulado, possamos enumerar, provavelmente, dezenas de pontos, uma vez que somos todos jogadores e participamos de um mesmo universo, como em tantos outros casos.
Obviamente, para fins de exemplificação, coloquei apenas esses dois grandes grupos, mesmo sabendo, e é importante destacar, que existem muitos outros grupos ou subgrupos dentro dessa pobre divisão. Temos os wargamers, cardgamers, jogadores de TCG, colecionadores, e, pensando enquanto jogos analógicos, RPGistas inclusive, numa variedade que pode abarcar vários gostos e possibilidades.
Entretanto, fomos acostumados a transformar este ambiente de variabilidade em algo hostil, nas mais diversas áreas de nosso convívio social. Freud analisa em seu livro “Psicologia das massas e análise do Eu” de 1921, esta facilidade do ser humano em se organizar em massas, numa alma coletiva, onde, mesmo com pontos contraditórios entre si, ao nos depararmos com um objeto de desejo comum, depositamos ali nosso Eu, num inconsciente grupal, que age como um todo e, para manter-se unido, deve alimentar, nas menores diferenças, rivalidades com outros grupos, sustentando a identificação mútua, "É precisamente a proximidade desses grupos que deveria levá-los à coesão, mas ela é, em vez disso, a fonte de um ódio irrefreável" (Freud, 1921).
Capa de Psicologia das Massas e Analise do Eu - Editora L&PM
Porém, se existe algo que a Teoria Crítica tem me ensinado, citando principalmente os pensamentos de Theodor W. Adorno, é sempre fazer um questionamento simples: A quem interessa? Veja bem, quando somos influenciados a nos colocarmos em grupos distintos ao invés de nos entendermos como pertencentes a uma mesma ordem social, quem está ganhando com isso?
A divisão em todo o sistema apenas bem para colaborar com a alienação das partes, ao não se identificarem com o outro e ainda o colocarem como parte do problema. Os regimes mais autoritários, mais ditatoriais, sempre se basearam nessa ideia de criar um inimigo comum e fazer a horda ter um comportamento desejável.
Obviamente, nos boardgamers, tal hostilidade não seja tão problemática quanto outros casos, mas ainda assim, serve para desunião de um grupo. Quando vemos que um Kickstarter caríssimo e cheio de miniaturas veio com peças erradas e ainda não houve reposição, parte da comunidade “dá de ombros” e pensa não ser um problema seu. Ou quando um jogo estratégico vem custando três vezes o seu valor posto no mercado internacional, mesmo contendo apenas um tabuleiro, poucas cartas e cartonados, a outra parte também pensa não ser algo que demande sua reinvidicação.
É preciso romper barreiras tão rasas que nos dividem, nos colocarmos não só como Eurogamers ou Amerigamers, somos jogadores, consumidores de uma indústria importante e crescente, nossa união nos garante sempre possibilidades maiores e melhores, direitos e garantias necessárias.

Sem dúvidas, este texto deve servir para outras reflexões maiores e mais complexas das nossas ações enquanto indivíduo e sociedade. Se essas divisões sem sentido conseguiram chegar dentro de um passatempo tão nichado quanto o nosso, poderíamos ver o quanto o sistema colabora para nos colocar em massas hostis bem estabelecidas, manipuláveis e previsíveis. Mas deixo o desenvolvimento desse pensamento para você leitor.
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Meeples do mundo, uni-vos!