ESPECIAL HALLOWEEN
Post temático: Quais jogos de Terror mais gostei!
Hey, galera!
Resolvi fazer uma postagem um pouco diferente em celebração à festa de Halloween. O texto abaixo será dividido em duas partes: a primeira se trata de reflexões sobre o gênero de terror em mídias gerais e para contar um pouco sobre o que me atrai no estilo, algo que acredito auxiliar vocês a entender meus gostos, o que considero útil que saibam para que, ao ler minhas análises, ajude a perceber se aquilo faz sentido para vocês. A segunda parte é o coração das cartas, é onde falo dos jogos de terror que mais gosto (não todos que já joguei).
Como sempre, sei que meus textos são bem longos, então não tem problema se você abriu o link deste texto no modo "sem tempo, mas curioso”, pode pular direto para segunda parte e ainda estamos de bem! S2
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PARTE I: A Contextualização
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O que é "terror"? A definição é complexa e ainda não tão pacificada. Podemos entender como sendo um gênero que apresenta desde a exposição de elementos de violência mais viscerais, como uma morte sangrenta, cruel e animalesca até a silenciosa contemplação fúnebre de um cenário letárgico. O terror é capaz de perambular sutilmente entre os sentimentos de repulsa e fascínio. O terror artístico transgride ao mesmo tempo que transcende.
A civilização humana se relaciona de alguma forma com o tema desde sua origem, não à toa a filosofia e teologia sempre se preocuparam com escatologia em algum nível: para onde vamos? Quais os caminhos no além-vida? O fim está próximo? O terror também sempre esteve presente, seja em lendas folclóricas que apresentam criaturas tenebrosas cuja existência serve para proteger as pessoas de si mesmas, como relatando sobre um monstro que espreita a noite, o que auxilia em evitar que desavisados e desobedientes passeiem a noite pela mata cheia de animais perigosos ou como diz Bruce F. Kawin em seu livro ‘Horror and the Horror Film” (2012): “O pesadelo, brincando com nossos mais profundos medos enquanto dormimos, é uma experiência universal” (tradução livre), ou seja, não há ser humano que não tenha sentido medo alguma vez em sua vida, mesmo que seja enquanto dormia.
Este medo do desconhecido é um forte motor para o terror, seja o sobrenatural, a violência ou mesmo o simples fato de não sabermos lidar com determinada situação surpresa (o susto [‘jump scare’, no inglês] acaba sendo um recurso valioso se bem utilizado no cinema, por exemplo). É importante, porém, separar a mera violência do terror: a violência sozinha, sem um clima de mistério e ansiedade envolvidos, faz com que a experiência que é passada para o espectador possa se enquadrar em outros gêneros, como ação, por exemplo. Um caso televisivo que evidencia esta diferença pode ser observado na série Sobrenatural (2005), onde nas primeiras temporadas existia um clima mais sombrio de terror e nas últimas temporadas temos um gênero de ação, até mesmo com pitadas de humor. Vemos neste exemplo que o temerário, que era sentido através da música, fotografia, ângulos de câmera e um enredo que privilegiava o desconhecido dá espaço para ambientes mais claros, cenas mais complexas de confronto e o que era misterioso, como as criaturas malignas, acabam se mostrando não tão perigosas, uma vez que os protagonistas conseguem enfrentá-las com muito mais facilidade. Não que isso seja um demérito da obra (eu sempre fui e ainda sou fã dos Winchesters e companhia), porém vemos como é possível migrar de um gênero para outro com certa maleabilidade.
Além do desconforto, asco, pânico, tensão e demais sensações do tipo, o medo estimula partes da psiquê que ativam nossa curiosidade e aceleram nosso batimento cardíaco, nos fazendo encarar a finitude de nossa existência. Em última instância, o medo do desconhecido existe ao nos colocar em situações em que percebemos que não temos controle sobre o ambiente (e isso é apavorante para a maioria das pessoas). Apesar disso tudo, para alguns que conseguem encarar o lado criativo, literário e fantasioso da coisa, sentir este friozinho na espinha é muito divertido e recompensador.
Como visto na breve discussão acima, a forma de encarar o tema vai depender da ótica pessoal sobre sentimentos de medo. Uma pessoa pode encarar, por exemplo, o Pandemic (Leacock. 2008) clássico (de doenças) como um exemplar de terror, afinal estamos lidando sobre doenças mortais e se os jogadores perdem a partida a civilização acaba! Se formos pensar, Pandemic consegue apresentar um cenário de apocalipse muito mais palpável do que um em que criaturas do além túmulo voltam para dominar a Terra, então como não temer tal coisa, ainda mais depois de vivermos a pandemia de Covid que assolou o planeta? Por outro lado, tem a galera que consegue encarar Pandemic mais como uma lição a ser aprendida, como um material didático interativo sobre os riscos da negligência, sobre logística e afins, encarando o tema como não-terror e nem tão fictício assim, mas o colocando dentro de um tema quase histórico, como daqueles jogos com nome de cidade europeia e que simulam algo que ocorreu séculos atrás.
Eu, sinceramente, entendo ambos os lados, apesar de não ser fã do enaltecimento de violência ou figuras reais. Sim, sou daqueles chatos que acham que Dahmer não é fantasia de festinha e que temos que olhar tais produções com um viés de aprendizado, contudo tenho esclarecimento suficiente (eu acho) para admirar um bom conto de Stephen King (amo, alias) e ser fã de criaturas grotescas como Freddy Krueger, entendendo que estes personagens não são modelos a serem seguidos, mas construções a serem temidas e combatidas. Dentre os grandes nomes do terror na literatura, para mim, estão Stephen King, H.P. Lovecraft, Edgar Allan Poe... uma galera popular mesmo, nada underground ou cult. No cinema sempre gostei de filmes no estilo de O Exorcista (1973), O Grito (2004), Atividade Paranormal (2007), Invocação do Mal (2013) e Corrente do Mal (2015). Dentre as obras mais recentes curti bastante Hereditário (2018). Na televisão sou muito fã dos clássicos Além da Imaginação (1985), Twin Peaks (1990) e Arquivo X (1993) e citando obras mais recentes, gostei de American Horror Story (2011) e A Maldição da Residência Hill (2018). Dentro de jogos digitais, minhas maiores referências são as sagas Alone in the Dark (1992), Silent Hill (1999) e Fatal Frame (2001). Não sou muito fã, contudo, de excesso de gore, aquele exagero de sangue e matança, principalmente quando o vilão é um humano perturbado. Nunca gostei daqueles filmes que mostram uma cidadezinha no fundão dos Estados Unidos com família violenta.
Terror bom para mim é assombração. Dou muito mais valor para uma boa criação de atmosfera do que para o conteúdo de carnificina. Encaro uma boa obra de terror como aquela que conta uma história criativa, cria um ambiente de suspeita e tensão e que me deixa intrigado com o quanto aquilo é palpável em nossa realidade (mesmo eu não acreditando em nada disso na vida real). Quando o filme/série/jogo consegue criar um clima tenso em plena luz do dia acho o máximo!
Trazendo o tema para a mídia de jogos analógicos, o tema é percebido, em grande parte, somente quando os jogadores leem alguma coisa (cartas, por exemplo), logo, percebemos que o terror é um elemento passivo na jogatina (diferente, por exemplo, da mecânica que é um elemento ativo: a pessoa faz aquilo ou as engrenagens simplesmente não rodam e o jogo não funciona). Dessa forma, o gênero de terror em jogos de tabuleiro é algo que depende muito dos jogadores na mesa e como eles interagem com o jogo. Eu mesmo já tive partidas de Mysterium (Nevskiy e Sidorenko. 2015) que encarnei o Bela Lugosi e a partida, consideravelmente familiar, ficou mais tensa do que outra que tive de Betrayal at House in the Hill (Daviau et al. 2004) onde rolaram muitas risadas. Em um jogo de tabuleiro (salvo raras exceções de jogos que utilizam aplicativos), além do texto e ilustração, todo clima fica a cargo dos jogadores. Acredito que para melhorar as experiências na jogatina, colocar uma trilha sonora adequada ao tema do jogo faça bastante diferença. Por causa destes elementos levantados, irei levar em consideração nas (micro)análises dos jogos abaixo não a minha experiência pessoal na mesa, mas (tentar) ser o mais imparcial possível em fazer jus ao que acredito que o jogo tente entregar através de como aborda, narra e entrega o tema para os jogadores, além da forma que integra este tema em suas mecânicas e possibilidades estratégicas.
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PARTE II: Os Jogos
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Agora que dei uma breve conceitualização sobre o que entendo por terror e até compartilhei com vocês um pouquinho de meu gosto pessoal (o que acho importante para que gere uma identificação entre nós, já que gosto é algo bem pessoal), vamos aos jogos de terror que já joguei e o que achei sobre eles. Notem que não vou fazer uma análise de fato, são mais comentários rápidos (até mesmo pelo tamanho da postagem, que já está grandona até aqui).
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Agora, finalmente, vamos à listinha dos jogos de terror que mais achei que entregaram o tema e diversão (não necessariamente que são melhoras do ponto de vista mecânico):
Nome do jogo: Mansions of Madness (2ª Edição) (Designer: Nikki Valens. 2016)
Tema central: Partidas com histórias baseadas em criaturas de contos de H.P. Lovecraft.
O que achei do jogo: Primeira grande observação que faço é que não sou muito fã de jogos crawler, principalmente pela resolução de pancadaria na rolagem de dados, contudo Mansions of Madness se demonstrou tão imersivo em sua narrativa que me fez esquecer do que não gosto. Para quem não manja, o jogo é guiado por um aplicativo que narra a história, introduz inimigos e mostra resoluções de acontecimentos (por mais que os jogadores ainda rolem dados). Apesar destes elogios, senti nas poucas vezes que joguei, um pouco de sensação de ter sido guiado demais, como se o aplicativo me mostrasse o caminho mais do que deveria e além disso, somente na caixa-base não tem muuitas missões, então comprar expansões é algo necessário para manter o jogo vivo por mais tempo. Mansions of Madness é um jogo que com o clima certo, pode passar a sensação de terror mais próxima de assistir a um filme do que qualquer outro jogo, não apenas por causa do aplicativo, mas devido a sua arte incrível, histórias bacanas e o elemento de cooperação entre os jogadores ajudar a criar a atmosfera de investigação.
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Nome do jogo: Mysterium (Designer: Oleksander Nevskiy e Oleg Sidorenko. 2015)

Tema central: Médiuns tentar descobrir quem foi o assassino de um espírito se comunicando.
O que achei do jogo: Quando me falaram “Haa, Mysterium parece Dixit, mas é cooperativo”, imaginei que se tratava de um jogo familiar. Me enganei. Mecanicamente, lembra de Dixit (Roubira. 2008) mesmo, onde os jogadores tem cartas grandonas com imagens bem variadas e precisam dar dicas para os demais acertarem, só que além das imagens terem um tom bem mais sombrio do que Dixit, o fato de um jogador ser o ‘espirito se comunicando’ deixa o clima bem mais pesado, principalmente se a galera entrar no clima (certa partida, uma das pessoas disse “Credo, Rapha, não jogo mais isso com você!”. Nessa partida em questão, eu me comunicava o mínimo possível e através de batidas na mesa e coisas do gênero. Acho que foi bem divertido, ao menos para o resto da mesa muahwhaha – leia: uma risada maléfica). Por outro lado, dá para jogar de forma leve e descontraída sem problemas e o tema passar um pouco longe, somente estando presente na conclusão mesmo da partida (que é quando os jogadores descobrem quem, com o que e onde ocorreu o crime).
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Nome do jogo: Betrayal at House on the Hill (Designer: Rob Daviau +4. 2004)

Tema central: Grupo de amigos adentram em uma mansão misteriosa e coisas bizarras começam a acontecer.
O que achei do jogo: Com um tema meio clichê, mas inegavelmente clássico, Betrayal at House in the Hill é um jogo de 2004, contudo sua idade é perceptível mais nos componentes do que na jogabilidade. Jogadores controlam personagens e vão revelando cômodos de uma mansão gigantesca até que um dos jogadores ative um gatilho que o torne um vilão, então tanto heróis como vilão leem livros respectivos que contam objetivos e tudo mais e partem para pancadaria. Este é outro jogo que vai depender como a galera o encara: como um jogo de terror ou um jogo de ação. Apesar de ser possível jogar despretensiosamente (eu mesmo tive uma partida que foi engraçadíssima, como relato na primeira parte do texto, Betrayal at House in the Hill tem histórias bem boladas, que soam muito como contos de grandes nomes do terror. Nota: É bem difícil os heróis vencerem, algo que sozinho já passa uma sensação de realidade e medo.
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Nome do jogo: Pandemic: O Reino de Cthulhu (Designer: Matt Leacock e Chuck D. Yager. 2016)

Tema central: Corajosos investigadores do paranormal varrem a cidade de Arkham fechando portais para evitar que criaturas malignas de outra dimensão invadam o plano terreno.
O que achei do jogo: H.P. Lovecraft é um tema meio batido nos jogos de tabuleiro e este não será o último título dessa lista, porém ao mesmo tempo que parece ser lugar comum, ainda vejo como algum mérito essa fama que Cthulhu & cia. possuem. Em Pandemic: O Reino de Cthulhu não temos muita narrativa, como em outros jogos do bichão cósmico verde, inclusive a variedade de inimigos é bem pequena, porém a mecânica simples da franquia Pandemic, aliada com seu tempo curto de partida me fazem achar o jogo uma excelente escolha. Os tons da paleta de cores são todos pesados, escuros, fechados, a rolagem de dados não serve para definir combate em si, mas para verificar o nível de sanidade dos investigadores, então o jogo acaba não passando aquele clima de ação como sinto em outros jogos do gênero. Por fim, minha reclamação da falta de narrativa acaba sendo suplantada por uma tensão sempre presente na revelação e compra de cartas e na sensação de constante ‘urgência’ que a série Pandemic, como um todo, propicia aos jogadores.
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Nome do jogo: Elder Sign (Designer: Richard Launius e Kevin Wilson. 2011)

Tema central: Corajosos investigadores do paranormal precisam correr contra o tempo para livrar um museu de seres cósmicos e com isso salvar o resto do planeta.
O que achei do jogo: Mais um jogo de Cthulhu na lista (e o último). Eu sinceramente adoro este jogo (e foi até uma das primeiras análises completas do canal, confira em
https://ludopedia.com.br/topico/42084/-analise-elder-sign-aposte-contra-os-ancioes), pelo fato dele ser o mais intimista dentre todos dos mitos de Cthulhu que já joguei. Em Elder Sign estamos presos em um local fechado e ao mesmo tempo presos aos dados, sendo um jogo que nos deixa tenso o tempo inteiro com a rolagem, o que me transmite uma dose de adrenalina e fragilidade que outros jogos não conseguem fazer igual. Reconheço, porém, que o fator sorte pode ser um grande ponto negativo para algumas pessoas (é para mim também) e além disso, jogar Elder Sign em muitos jogadores pode apresentar um
downtime (o tempo que esperamos para jogar de novo) bem elevado, o que o faz ficar pior posicionado na lista do que Pandemic: O Reino de Cthulhu (mas para jogar em 2 jogadores ou solo, acho melhor).
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Nome do jogo: Dead of Winter: Um Jogo de Encruzilhadas (Designer: Jonathan Gilmour e Isaac Vega. 2014)

Tema central: Sobreviventes precisam lidar com o rigoroso inverno e falta de mantimentos enquanto sobrevivem a um apocalipse zumbi... e, para piorar, alguém na colônia parecer ser um traidor.
O que achei do jogo: Já falei de seres místicas de outra dimensão e espíritos, agora chegou a hora de falar de outra criatura clássica de terror: Zumbis. Apesar dos zumbis serem as criaturas que ganham o papel de vilões em Dead of Winter: Um Jogo de Encruzilhadas (e também no Dead of Winter: Noite sem Fim de 2016), durante a partida jogadores precisam estar atentos também a outros problemas, como fome, lixo que produzem, pessoas que resgatam e até mesmo os colegas de colônia. Durante a partida, os jogadores possuem um objetivo principal coletivo, porém também têm objetivos pessoais e isso faz com que entre a galera na mesa exista um traidor, alguém que parece que está ajudando, mas na verdade vence se o resto se lascar! Isso entrega uma experiência de desconfiança o tempo inteiro entre os jogadores, o que amplia (e bastante) a sensação temática durante a partida. Alguns de vocês podem pensar em outros jogos com traidor e até mesmo o recém lançado The Thing: Boardgame (Cícero e Crespi. 2022), contudo acho Dead of Winter superior neste quesito de traidor, pois pode ser que ele não esteja na partida, mas mesmo assim os jogadores passarão o tempo todo com a pulga atrás da orelha ou se acusando, o que quando é revelado ao final pode gerar incríveis revelações, além disso, Dead of Winter entrega uma narrativa bem mais interessante com as cartas de encruzilhada e ao colocar o surgimento de novos civis na colônia através da compra de cartas. Um defeito do jogo, porém, é a forma que as cartas são resolvidas, mostrando a resposta ao mesmo tempo que a escolha, então se for jogar e manjar de inglês recomendo MUITO usar um aplicativo que substitui as cartas e conserta esse vacilo.
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Nome do jogo: Captive (Designer: Emmanuel Quaireau. 2016)

Tema central: O jogador assume o papel de um policial que adentra em uma mansão cheia de mistérios em busca de resgatar uma jovem.
O que achei do jogo: Captive não é propriamente um jogo, mas um gibi-jogo (HQ-jogo para os mais puristas). O jogador irá ler a história em quadrinhos e se atentar a alguns números em alguns locais que o levam para páginas específicas, a grosso modo, em uma imagem tem uma lata de lixo com o número 12 e uma porta com o número 40: se ele ir até a imagem na página 12, irá verificar o que havia dentro da lata de lixo, ou a 40 adentrar no novo cômodo passando pela porta. Dessa forma o jogador vai se aventurando pela mansão, encontrando objetos, fazendo marcações até chegar ao desfecho da história. Parece simples, mas não é. A história possui diversas ramificações e finais diferentes, então não será o jogador alguém passivo, como um leitor de um livro convencional. Alia-se essa possibilidade de escolhas com uma atmosfera muito interessante e temos uma experiência sensacional! Acho que faltam mais livros/gibis/HQs modernas do gênero em nosso mercado, sei que tem muito livro jogo, mas gibi-jogo são poucos, então vou deixar aqui a menção para o Zumbis (Waltch. 2014) também, apesar dele não ter entrado na lista de hoje por me passar a sensação muito mais de ação do que de terror (e eu ter que selecionar somente dez obras).
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Nome do jogo: Black Stories (Designer: Holger Bosch. 2004)

Tema central: Variado. Cada carta possui um mistério a ser desvendado.
O que achei do jogo: Quase mais uma atividade social do que um jogo, em Black Stories um jogador lê um enigma, enquanto os outros vão fazendo perguntas simples na tentativa de chegar a uma conclusão e descobrir o que aconteceu. Por mais que eu não seja tão fã do formato extremamente simples, a brincadeira pode ser bem divertida se o pessoal ficar engajado, não a toa existem dezenas de Black Stories com temas específicos, mas todos macabros, e até mesmo versões infantis, onde prevalece apenas o sentimento de ser um detetive e descobrir o que aconteceu. Black Stories (ou Histórias Sinistras como foi batizado depois no Brasil) é uma obra que vai na contramão do que gosto dentro do tema de terror, pois a maioria dos seus mistérios envolvem carnificina, violência e sangue, morbidez essa que não me agrada tanto quanto um bom mistério paranormal. Um ponto negativo também é a quantidade de cartas (leia: mistérios) em cada edição, apenas cinquenta, o que faz a vida útil de cada caixinha não ser muito grande. Apesar das reclamações, Black Stories é uma excelente escolha para levar naquela festa de halloween que parece que será meio miada e/ou jogar com quem nunca conheceu nada além de damas ou dominó.
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Nome do jogo: Room 25 (Designer: François Rouzé. 2013)

Tema central: Presos em um labirinto misterioso e cheio de armadilhas, sobreviventes tentam escapar da morte certa encontrando a saída.
O que achei do jogo: Existem alguns jogos no mercado inspirados em grandes títulos de livros e filmes e Room 25 é um deles, ou quase. Digo isso, pois ele não concede os devidos créditos à obra o qual (totalmente) se inspira, porém, é impossível ver Room 25 na mesa e não lembrar imediatamente da série de filmes O Cubo (1997). Aqui não temos fantasma, nem zumbi, nem monstro. Temos, na verdade, apenas o mistério e a tecnologia. Os personagens podem cair em poças de ácido, serem esmagados pelo teto, serem queimados, congelados, empalados ou até simplesmente morrer sem nem se darem conta do que aconteceu, some a tudo isso o fato de, a depender da modalidade de jogo escolhida, só um poder sobreviver então vai ter muito empurra-empurra para dentro e fora das salas. Apesar de estar fora do que considero mais divertido dentro do terror, o jogo é bem engajante e rende boas reviravoltas (principalmente utilizando a expansão Season 2, de 2015, que adiciona cartinhas que vão embaralhando as peças de labirinto no meio da partida), tanto pelas peças de sala em si, como pela mecânica de ação programada, onde os jogadores programam toda rodada em segredo e só depois revelam e resolvem na ordem pré-estipulada, então acontece bastante de gente ir onde não queria originalmente e outras confusões do tipo. Room 25 não é o melhor exemplo de jogo de terror, porém devido a seu sucesso na mesa, não teria como ficar de fora da lista e convenhamos, se visto por uma ótica séria, tem bastante
gore e violência gratuita na parada, por mais que as ilustrações não deixem isso muito evidente.
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Nome do jogo: Lucidity: Seis Faces do Pesadelo (Designer: Shannon Kelly. 2018)

Tema central: Jogadores adormecem e entram no reino dos sonhos, onde devem combater monstros malignos... ou se tornar eternamente um deles.
O que achei do jogo: Lucidity: Seis Faces do Pesadelo é um jogo não muito famoso, eu mesmo o conheci por sorte, vi a caixa lindona, o valor era bom, peguei. Mecanicamente, o jogo não tem nada de mais, são rolagens de dado com bastante Force Sua Sorte, interessante, mas um pouco raso. A temática e a arte, contudo, achei fantásticas! As (poucas) cartas que simbolizam os pesadelos tem uma arte que usa muito bem a transição entre preto, branco e uma só cor (vermelho, verde, amarelo ou azul), deixando o jogo com um estilo muito único. Vale salientar que todos os dados, apesar de pequenos são customizados e translúcidos, o que ajuda bastante no charme. Este jogo é outro exemplo de que o clima certa vai fazer valer a experiência ou então jogá-lo às traças no fundo da estante, já que o clima pesado depende de como os jogadores interagem com a mecânica, que faz sua parte, mas sozinha não é capaz de segurar a tensão por muito tempo. O interessante (inclusive que o me fez, após muito ponderar, o colocar na lista) é o tema que sai do comum, trazendo um aspecto psicológico mais presente do que outros jogos (mesmo os com mitos do Cthulhu que usam tanto a noção de ‘insanidade’), afinal nos nossos sonhos podemos ser tudo o que quisermos, mas em contrapartida é o momento que estamos mais vulneráveis fisicamente, dormindo.
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Aqui acaba a lista dos jogos de terror que mais me passaram o tema, contudo quero fazer duas observações importantes antes de me despedir:
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1. Uma observação muito importante:
Existem muitos jogos com tema de terror por aí, seja sobrenatural ou com base em acontecimentos reais, contudo nem todos que joguei fui capaz de sentir REALMENTE o aspecto de terror sem sentir em igual ou maior dose o aspecto da ação. Alguns jogos de terror nos apresentam protagonistas fortes, velozes, poderosos, carregando equipamentos e coragem capazes de dizimar hordas de demônios (ok, exagerei um pouco, foi mal). Portanto, jogos como Zombicide (Guiton, Lullien e Raoult. 2012), Nemesis (Kwapinski. 2018), Arkham Horror (Launius, Wilson. 2005), Eldritch Horror (Konieczka e Valens. 2013), entre outros, não me fizeram sentir dentro de uma experiência cujo clima era de terror e medo, ao invés disso, me senti dentro do gênero de ação ou aventura. Aliado a isso, não são jogos que eu gostei a ponto de ter mais elogios do que reclamações (Eldritch Horror, por exemplo, acho tão longo que fica maçante e chato). Estes são os motivos de grandes títulos não estarem em maior destaque na lista da postagem. Em resumo: um misto de não gostei com não senti a sensação de terror tão presente.
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2. Uma última observação importantíssima:
É bem difícil escrever sobre jogos abordando algum tema específico, pois ficamos muito limitados ao que já jogamos, inclusive por isso que evito fazer posts como o de hoje, afinal a qualidade dos comentários fica restrita ao que já joguei (e falo isso tendo já passado da marca de 500 jogos jogados). É bom esclarecer que ainda não jogueis os seguintes jogos que são bem famosos: Arkham Horror Cardgame (French e Newman. 2016), This War of Mine (Oracz e Wisniewski. 2017), O Albergue Sangrento (Robert. 2015), Insondável (Fanchi e Konieczka. 2021), Carnival Zombie (Sanctus. 2013), Zurvivors (Arraes e Viana. 2019) e Last Friday (Ferrara e Fiorillo. 2016). Quero, com toda certeza, jogá-los um dia e se isso acontecer, o sol ainda estiver no céu e eu não tiver sido devorado pela insanidade, farei uma segunda edição Especial de Halloween revisada considerando todas novidades que vim a conhecer!
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...E vocês, quais jogos de terror mais sentiram frio na espinha? Quais são seus preferidos? Compartilha aí com a galera nos comentários!

Um texto de
Raphael Gurian
A ideia deste formato de análise não é explicar um jogo, para isso existem muitos outros textos, vídeos e etc. A finalidade do texto é fazer uma análise crítica acerca de critérios que acho importante e que muitas vezes acabam não sendo explorados em análises de uma forma mais detalhada. Os jogos analisados não seguem qualquer critério comercial, incentivo ou pagamento, sendo escolhidos com base em fontes de vozes da minha cabeça, aliado ao fato de ter já jogado o jogo em questão muitas vezes, a ponto de me sentir confortável em opinar sobre o mesmo.
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