(Análise) Calico
Título: Calico (2020)
Designer: Kevin Russ
Arte: Beth Sobel
Editora nacional: Grok Games
Nº de jogadores: 1 a 4
Não se engane: Calico apesar de fofo, direto e simples, possui um alto teor de queima-cuca que irá desafiar até mesmo jogadores mais experientes.
Resumo de Como o Jogo Funciona
Uma partida de Calico transcorre ao longo de exatos 22 turnos, no qual cada jogador irá colocar uma das duas peças de retalho que possui em sua mão na sua colcha (seu tabuleiro individual) e depois irá escolher uma nova peça dentre três disponíveis no centro da mesa para compor sua mão. Ao alocar uma peça, coisa que não existe nenhum tipo de restrição, o jogador irá tentar cumprir requisitos de peças de pontuação (chamadas de Peças de Composição) já colocadas em sua colcha que concedem pontos ao final da partida, além de receber botões ou gatinhos, caso cumpra outros requisitos pré-determinados. Basicamente é só isso que você precisa saber para jogar Calico. Sim, é simples assim.
Mecânicas Principais: Colocação de Peças.
Critérios
Ø Qualidade dos Componentes
PRÓS: Cartonados de excelente gramatura; Sacola de tecido com impressão e tecido de boa qualidade; Manual bem escrito, com muitas ilustrações e papel de excelente qualidade; Caixa de boa gramatura; Tabuleiros individuais de dupla camada.
CONTRAS: Apesar de muito bons, são muitos componentes e alguns deles poderiam apresentar uma melhor forma de serem diferenciados, por exemplo, os marcadores de gatinhos, que poderiam ter um fundo de cores diferentes para facilitar a seleção e manuseio na preparação da partida; A caixa poderia ser um pouco maior, para acomodar melhor os componentes, talvez tendo até algum tipo de separador para os marcadores.
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(Todos componentes)
Ø Tempo de Preparação de Partida
Baixo...mas depende. Depende basicamente se está tudo separadinho e arrumadinho (provavelmente em saquinhos plásticos [ziplocks]) previamente. No meu caso, como já deixo separado cada conjunto de peças de Composição por jogador (as que mostram os pontos) e os gatinhos de cada tipo em cada saquinho, na hora de jogar basta pegar os ziplocks que vou usar, abrir e colocar na mesa. Porém, se você deixa tudo junto num só saco ou mesmo tudo solto na caixa (espero de coração que NINGUÉM em sã consciência faça isso com jogo nenhum) pode separar alguns bons minutos, pois vai demorar tanto quanto abrir uma caixa de quebra-cabeças e fuçar entre as peças buscando as bordinhas.
Ø Arte
PRÓS: Transmite bem um ar de ternura e fofura correspondente ao aconchego que o tema apresenta, com uma paleta de cores bem variada, porém bem alegre e leve; Achei bem legal o espaço dedicado no manual para apresentar cada gato e sua foto, já que cada um deles existem de fato.
CONTRAS: Olhando o tabuleiro do jogador e sabendo que ele representa uma colcha, as proporções de tamanho estão bem erradas e podemos constatar isso de diferentes formas. A primeira é olhando a arte na tampa da caixa do jogo, onde existe uma gatinha deitada (a Tibbit, provavelmente) e lá é possível perceber que os pedaços de retalho em relação ao felino são bem maiores dos representados durante a partida, logo os gatos estão representados muito pequenos ou os retalhos muito grandes. A segunda forma é simplesmente vendo o tamanho dos botões em relação aos gatos: são imensos! Claro que tudo é uma abstração e os marcadores estão adequados para serem funcionais à partida, mas ao menos poderiam ter se atentado a isso e feito os retalhos menores na arte da caixa e na Ficha de Pontuação de Gato e mesmo os marcadores de botões apresentarem uma espécie de conjunto de botões em cada um ao invés de um único botão.

(Alguns componentes em detalhe)
(Outros componentes em detalhe)
Ø Curva de Aprendizagem
Baixa. Para explicar as regras e entender a funcionalidade da partida não leva mais de 5 minutos! O que acaba tomando mais tempo é o jogador entender a lógica (que é bem simples, na real) por trás das Peças de Composição (algo como AAA-BBB, por exemplo, que quer dizer um trio de 3 peças de cor ou textura iguais e outro trio de peças de 3 peças de cor ou textura iguais, mas que sejam diferentes do trio anterior). Passada a confusão inicial com essas peças (que durante a partida pode dar uns nozinhos mentais mesmo), o jogo flui bem e fácil.
(Mesa durante uma partida para dois jogadores)
Ø Presença de Tema
Baixa. O jogo quase se comporta como um abstrato no tema, porém a arte é incorporada de tal forma que nos abraça carinhosamente, mesmo não tendo um tema muito presente. Do ponto de vista mecânico, basicamente colocamos peças (pedaços de pano) lado a lado sem nenhum tipo de engrenagem que exija pensar sobre linhas, técnicas de costuras ou dobras, é só pegar uma peça e colocar do lado da outra pensando na cor e textura mesmo, mas aqui entra algo que faz bastante sentido: gatos não enxergam cores como nós, logo ganhar a pontuação seguindo o padrão da textura ao invés das cores foi uma boa sacada de design (eles não enxergam preto e branco como alguns pensam, apenas enxergar como se a saturação das cores fosse menor, sacou? Não? Veja esse vídeo aqui que ele explicar bem melhor:
https://www.youtube.com/watch?v=1dohl-GeYIk). Se gato curtir textura e humano botão (devido às cores) faz sentido, por outro lado, não faz muito sentido terem vários marcadores do mesmo gato na partida, então é melhor pensar no marcador de gato como um ‘local preferido do gato X’ do que de fato ‘o gato X tá ali’, isso achei que poderia ter sido melhor abordado no manual, inclusive. Por fim, o que significa a palavra Calico? Nem sei bem ainda. O manual não fala nada sobre e a internet me disse que é um tipo de tecido de algodão branco e ao mesmo tempo a raça de um gato (mas não é o loirinho da ilustração da caixa). Essas duas hipóteses de significado fazem sentido com o jogo? Sim. Contudo, o fato de eu não saber qual a real já que o jogo mesmo não me disse nada me deixa frustrado, logo, perde ponto aqui também. O jogo ganha pontos, porém, ao apresentar cada gatinho no final do manual, com uma foto e um parágrafo que descreve um pouco suas peculiaridades (do espécime em questão, não da raça), uma vez que cada gato representado no jogo é um gato que existe no mundo real (só que ele apresenta 12 gatinhos e o jogo só tem 10... vai entender).

(Parte do manual que conta um pouco sobre cada gatinho/a)
Ø Rejogabilidade
Média. Para quem curte queimar a cuca e a cada rodada tentar fazer a melhor limonada com os limões que a vida te deu, Calico é um prato cheio. O jogo apresenta uma boa variação de possibilidades de pontuação dentro de suas possibilidades mecânicas simples e a cada partida existirão diferentes desafios de pontuação devido a adjacência das peças e dos gatos que entram na partida (são sempre 3 entre 10 possíveis). Porém, se você não acha esse tipo de jogo divertido, não existem outras formas de gerar engajamento, então possivelmente Calico não é um jogo para você, uma vez que o jogo tem sempre o mesmo ciclo, mudando apenas a forma que contabilizamos a pontuação de acordo com onde colocamos as peças de retalho.
(Tabuleiro de jogador no final da partida, a ponto de contabilizar os pontos.
ps: eu sei que o gato está errado ali, montei para foto e vacilei!
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Ø Interação
Baixa. Só existe um único tipo de interferência na partida, que rola no final do turno do jogador. O que acontece é o seguinte: sempre existem 3 peças abertas no centro da mesa e o jogador após alocar sua peça, pega uma das três para si, depois é aberta uma nova peça (ela sai da sacolinha). Se aquela peça que o adversário pegou era boa para um você: paciência, espere outra ou mude o que ia fazer. Esse tipo de interação em outros jogos costuma ser bem maliciosa, com jogadas cruéis para bloquear adversários, contudo em Calico só vi esse tipo de sacanagem acontecendo sem real intenção de prejudicar o outro, pois o quebra-cabeça do jogo é tão preciso, com uma contagem de pontos tão apertada, que simplesmente não vale a pena pegar algo que não nos ajuda para atrapalhar um adversário. Além disso, o próprio tempo de ficar analisando o que vai onde já vai ocupar um baita espaço do decorrer da partida para que você sequer se preocupe em olhar um tabuleiro de um coleguinha. Isso nos leva ao ponto de falar sobre ‘A.P.’ (analisys paralisys – aquele tempo que ficamos pensando na jogada perfeita), que pode ser IMENSO em Calico se a galera se preocupar com olhar todas possibilidades próprias e também as dos rivais, então minha recomendação é: foca no seu jogo e se for pensar em pegar coisa para bloquear um adversário, deixe para fazer isso nas últimas rodadas, se não ao custo de atrapalhar alguém, quem pode se lascar é você e ainda fazer uma partida de 30 minutos se tornar 3 horas.

(Parte do manual com os desafios para o Modo Solo)
Ø Fator Sorte
Relevância na partida: Média. A sorte está presente na abertura das peças no centro da mesa e considerando que são seis diferentes tipos de textura e seis diferentes cores, totalizando 108 peças, as chances de vir EXATAMENTE uma peça na cor e textura que o jogador precisa é pequena. Claro que ter em mente as probabilidades pode fazer parte do teor estratégico, contudo existem momentos em que se não for determinada peça, não tem como remediar com outra, já que não existem mecânicas que mitiguem isso, como trocar as peças em oferta, então o jogador precisa aprender a lidar com o que lhe aparece e a ler o que é mais fácil de fazer e em qual ordem. Existe um certo nível de aposta neste sentido em Calico e não é do tipo que acho ruim, contudo, acredito que poderiam existir formas de entregar para o jogador um pouco mais de flexibilidade e responsabilidade (usando botões já adquiridos como moeda de troca para alguma coisa, por exemplo).
Ø Fator Estratégia
Relevância na partida: Média. Existe uma pontuação máxima a ser atingida com uma partida perfeita em Calico. Você vai ver isso acontecer? Duvido muito, muito mesmo. Isso acontece justamente pela aleatoriedade na abertura das peças, que irá forçar o jogador a usar o que não queria em algum momento, destruindo este sonho de placar perfeito. Ainda assim, o jogador vai precisar pensar (e muito) onde colocar uma peça, sempre pensando nas rodadas futuras e quais as peças que seguirá colocando dali para frente. A parte do ‘queima-cuca’ que tanto mencionei entra aqui, pois a decisão feita em uma rodada, muitas vezes irá ser como uma avalanche ao longo do resto da partida, impossibilitando alguma pontuação (principalmente nas peças de Composição que compartilham alguma peça adjacentemente). No final das contas, se Calico fez algo certo, foi conseguir entregar uma experiência desafiadora para o jogador equilibrando bem os fatores Sorte e Estratégia.

(Como fica organizado na caixa, muitos e muitos saquinhos, porém nem todos são usados)
Ø Preço e Valor Percebido
Quase Bom. Considerando a qualidade dos componentes, as vezes que foi para mesa e a atração do tema (que admito ser bem subjetivo), acho que até uns R$250 estaria Bom, já muito mais que isso acredito que vá valer apenas só para quem curte o tema e o estilo do jogo, mediante aos valores de hoje em dia.
Ø BÔNUS: Algumas dúvidas corriqueiras:
- Dá para jogar com crianças? Apesar do tema ser bem sugestivo, acho que só com as crianças com 10 ou mais mesmo, devido ao desafio que o jogo proporciona.
- Funciona bem em qualquer número de jogadores? Sim, como os jogadores vão se preocupar mais com seu ‘mundinho’ e a interação é quase inexistente, roda praticamente igual para qualquer número de jogadores.
- Como é o Modo Solo? Praticamente igual ao modo multijogador, sem a baixa interferência de alguém te tomar alguma peça. O bacana é que o manual apresenta algumas conquistas e desafios, quaaaase um modo campanha (e é bem difícil, já que precisamos contar com uma parcela de sorte). Achei bem gostosinho de jogar e um excelente passatempo que não exige muito tempo de preparação e nem espaço.
Opinião Pessoal
“Reforçando a primeira frase: Não se engane! Calico proporciona através de um tema fofo um alto nível de desafio, em parte pela aleatoriedade presente e incontrolável e em parte pela nossa própria vontade de fazer a jogada mais perfeita possível. Este é o tipo de jogo que parece que vamos jogar tomando um chazinho no meio de uma tarde romântica, mas acaba fazendo nosso cérebro entrar em pane (no melhor dos sentidos)! Adorei o jogo e certamente indico para quem busca jogos do gênero que exijam um pouco mais dos jogadores." (Raphael Gurian, que prefere doguinhos [mas é por causa da rinite que o impede de apertar gatinhos])
“Calico é um adorável jogo estratégico no qual os jogadores precisam montar suas colchas de retalhos e deitar seus gatinhos sobre elas, a fim de pontuar o máximo possível ao final da partida. Estampas e cores das peças de retalho deverão ser combinadas de acordo com os objetivos individuais e gerais, gerando combos de pontos. O fator sorte está no sorteio das peças a serem escolhidas para o uso, havendo pouca possibilidade de bloqueio intencional entre os jogadores, uma vez que estarão todos focados em criar a melhor colcha possível. Este é um jogo com uma arte encantadora, de fácil entendimento de regras e de baixa dificuldade, exigindo um nível de raciocínio moderado por parte dos jogadores. Sem dúvidas, é um ótimo jogo para se ter na coleção..” (Heloisa Fernandes, que ama gatinhos [e doguinhos] e faz colchas na vida real também [apesar da rinite, ela aperta gatinhos mesmo assim])
Um texto de
Raphael Gurian
A ideia deste formato de análise não é explicar um jogo, para isso existem muitos outros textos, vídeos e etc. A finalidade do texto é fazer uma análise crítica acerca de critérios que acho importante e que muitas vezes acabam não sendo explorados em análises de uma forma mais detalhada. Os jogos analisados não seguem qualquer critério comercial, incentivo ou pagamento, sendo escolhidos com base em fontes de vozes da minha cabeça, aliado ao fato de ter já jogado o jogo em questão muitas vezes, a ponto de me sentir confortável em opinar sobre o mesmo.
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