Em
Rewild: América do Sul, os jogadores recebem a missão de recuperar uma paisagem degradada, reconstruindo seus habitats e criando condições para que vegetações e animais voltem a ocupar aquele ambiente. Ao longo da partida, a biodiversidade sul-americana, as relações entre as espécies e até a presença de predadores são transformadas em decisões estratégicas.
Criado pelo brasileiro
Bruno Liguori Sia, ao lado de
Marc Dür e
Samuel Luterbacher,
Rewild teve uma trajetória que também passou por importantes transformações. O projeto nasceu inicialmente com foco na Caatinga, ganhou uma dimensão continental ao incorporar diferentes regiões e espécies da América do Sul, encontrou uma editora internacional e posteriormente, recebeu sua edição brasileira pela
Grok Games.
Antes mesmo do financiamento coletivo,
Bruno conversou com o
canal É a minha vez? sobre a origem do projeto e sobre o desejo de um dia ver Rewild disponível aos jogadores brasileiros. Agora, alguns anos depois, o jogo completa mais um capítulo dessa história ao conquistar o
Prêmio Ludopedia 2025 de
Jogo Expert Designer Nacional.
Conversamos com
Bruno para revisitar esse caminho, entender algumas das escolhas que moldaram
Rewild, conhecer histórias de seu desenvolvimento e descobrir o que ainda pode surgir desse universo.
Robert Coelho(Grok) e Bruno Liguori na entrega do Prêmio Ludopedia
Ludopedia:
Bruno, parabéns pela conquista! Rewild venceu o Prêmio Ludopedia na categoria Jogo Expert Designer Nacional. Como foi acompanhar o resultado e perceber que um projeto tão pessoal havia conquistado o reconhecimento da comunidade brasileira?
Bruno Liguori Sia: Grato pelo reconhecimento e pela oportunidade dessa entrevista. Receber o prêmio foi uma experiência gratificante e ao mesmo tempo uma surpresa bem positiva, fiquei muito contente com o resultado.
Ludopedia: Durante o financiamento coletivo, você comentou sobre a vontade de ver Rewild publicado também no Brasil. O jogo acabou sendo lançado primeiro por uma editora estrangeira, depois ganhou sua edição nacional e agora recebe o Prêmio Ludopedia. Como é olhar para essa trajetória? E o que ela mostrou para você sobre a valorização dos designers brasileiros dentro e fora do país?
Bruno Liguori Sia: É estranho que um jogo sobre o Brasil tenha que vir de fora pra poder ser "visto" por aqui, mas ao mesmo tempo é o que estamos acostumados de uma maneira geral. Vejo que o cenário nacional vem ganhando cada vez mais força e protagonismo, mas que ainda falta uma valorização mais intensa do que temos atualmente.
Primeiros Protótipos do jogo
Ludopedia: Rewild nasceu inicialmente como um jogo dedicado à Caatinga, mas acabou ampliado para representar diferentes ecossistemas sul-americanos. Como aconteceu essa mudança de escala e quais elementos da ideia original você fez questão de preservar?
Bruno Liguori Sia: Uma vez que o jogo foi pensando pra audiência internacional, o foco na Caatinga acabou perdendo um pouco de força, pelo fato de ser um bioma exclusivo do Brasil e não tão conhecido lá fora. A decisão de expandir para toda América do Sul foi totalmente pensada no produto final, o que permitiu adicionar uma fauna mais diversificada e contemplar um maior território de animais.
Algumas espécies originais da Caatinga foram preservadas desde as primeiras versões, tanto pela sua importância quanto pelo alerta de sua extinção. A Arararinha-azul é uma delas.
Ludopedia: Rewild tem Marc Dür e Samuel Luterbacher como coautores, sendo que Samuel também é biólogo. Como os diferentes conhecimentos da equipe influenciaram o desenvolvimento do jogo ?
Bruno Liguori Sia: A abordagem deles foi maior no sentido de que cada coisa no jogo fosse justificada na vida real, então cada elemento no jogo vai de encontro ao que acontece na prática. Para mim, tiveram alguns pontos que eu preferia abstrair um pouco ao invés de manter essa fidelidade restrita, mas no geral, o resultado foi positivo.
Ludopedia: Rewild transforma relações ecológicas complexas em decisões de jogo, e a chegada dos predadores é um dos exemplos mais marcantes. Como você buscou equilibrar fidelidade e leveza, e como essa mecânica evoluiu durante o desenvolvimento?
Bruno Liguori Sia: O maior desafio foi justamente esse; de não querer criar uma simulação perfeita dos sistemas ecológicos e sim uma abordagem mais leve, mas que ao mesmo tempo fosse fiel. Sem ser complicado, mas ao mesmo tempo com certa profundidade.
Os predadores são algo que eu pensei logo nas primeiras versões do jogo. No início, a presa devorada liberava seu espaço no tabuleiro, podendo desencadear combos interessantes, pois um novo animal poderia ser atraído pra esse espaço. Nas versões mais novas e na final, isso não acontece mais, porque tematicamente a presa não sumiu completamente, eles apenas estão vivendo em um ciclo equilibrado de presa e predador.
Belos componentes e ilustração do jogo na versão final
Ludopedia: A arte é um dos elementos que mais chamam atenção em Rewild, com dezenas de espécies e paisagens diferentes. Como foi acompanhar a construção dessa identidade visual? E entre tantos animais da América do Sul, quais você acreditava que não poderiam faltar no jogo?
Bruno Liguori Sia: A arte - definitivamente - ficou perfeita. Desde o início a editora queria apostar nessa cara de estúdio Ghibli e acho que deu certo. Eu não tive muito acesso a essa parte, então foi só aguardar e apreciar o resultado.
Quanto aos animais que não podiam faltar, sem duvidas a onça pintada e a harpia.
Ludopedia: Rewild aborda temas como desmatamento, incêndios e espécies ameaçadas, mas sem perder de vista a experiência de jogo. Como você encontrou esse equilíbrio entre mensagem e diversão? E houve alguma reação de jogadores que mostrou que o jogo conseguiu ir além da mesa?
Bruno Liguori Sia: Nesse caso, eu acho que o jogo tem que ser, antes de mais nada, divertido pra quem joga. Uma vez que a pessoa está aproveitando aquela experiência e disposta a investir seu tempo, a mensagem do tema pode vir à tona. Infelizmente, em muitos jogos com temas mais políticos (no aspecto mais amplo da palavra), a mensagem acaba sendo "empurrada" em um jogo fraco, em termos de diversão.
Ainda não ouvi nenhum relato disso, mas nesse ultimo DOFF, um rapaz me disse que o
Rewild fez ele conseguir jogar com o irmão dele e que queria me agradecer. Isso me deixou bastante contente.
Ludopedia: O jogo ainda parece ter espaço para crescer, mas sua trajetória como designer também segue abrindo novos caminhos. O que você ainda gostaria de explorar dentro desse universo de Rewild e quais são os projetos mais recentes que os jogadores devem te acompanhar?
Bruno Liguori Sia: Da minha parte existe sim. Gostaria muito de publicar a expansão Andes e Patagônia, que são regiões muito importantes que ficaram de fora desse jogo. Por mais que eu queira, agora essa é uma decisão da editora, então não tenho muita decisão quanto a isso. Estou tentando convencê-los.
Meus últimos jogos publicados são o do
Ludoteca Disney - Hércules da Grok e o
The Old Ones of El Dorado, pela Dranda Games que estará em Essen, ainda sem previsão de vir para o Brasil.
Ludopedia: Depois de acompanhar Rewild passando pela publicação internacional, pela chegada ao Brasil e agora vencendo o Prêmio Ludopedia, que mensagem você gostaria de deixar para os jogadores que conheceram, apoiaram e ajudaram o jogo a chegar até aqui?
Bruno Liguori Sia: Apenas agradecer a todos e todas que deixam seus comentários, tanto no BGG quanto na Ludopedia, e lembrar o quanto o Brasil e toda a América do Sul é maravilhosa!
Bruno Liguori Sia com o troféu de jogo do ano