Olá, jovens.
Eu não sou fã do cantor Vinny. Aquele do “mexe a cadeira”, lembra? Mas eu sou muito fã do ser humano por trás do artista (lá ele). Existe uma entrevista que ele concedeu ao Rogério Skylab, em seu antigo programa no canal Brasil, em que o entrevistador o provoca, comparando-o a Chico Buarque, Gil, Caetano etc. E o Vinny, transbordando consciência e humildade, afirma que nunca teve a pretensão de chegar aos pés desses gigantes da nossa cultura, mas acrescentou algo bem interessante, e isso tem tudo a ver com o jogo de hoje:
“Esses caras estão em um patamar diferente do nosso. A glamourização do que eles fazem que acabou, principalmente para as novas gerações. E é bom que acabe. Porque precisam existir outros, senão a gente vai viver do passado.”
- CADEIRA, Vinny mexe a.
Talvez ainda sejamos os mesmos e vivemos como nossos pais. Talvez não, vamos descobrir.
Quando eu comecei no hobby, era muito comum ouvir a seguinte afirmação: “O jogo tal é o pai da mecânica tal!”.
“El Grande é o pai do controle de área.”
“Caylus é o pai da alocação de trabalhadores.”
“Dominion é o pai da construção de baralhos (o famoso deckbuilder para quem gosta de gringolês).”
E assim vai. Eu mesmo já reproduzi bastante esse pensamento no passado, e efetivamente não tem nada de errado com isso, mas será que o fato de ser “pai” de alguma mecânica o torna tão especial assim?
Meu pai foi comprar cigarros e nunca mais voltou.
1998. Era uma manhã de natal no Rio de Janeiro, estava nevando forte naquele dia. Eu acordei com o barulho da carroça do meu pai, que estava se aprontando para sair.
“Pai. Aonde você vai?”
“Vou comprar cigarros, filho!”
“Mas você não fuma, pai.”
Ele atiçou seu cavalo dizendo “Irra!”, avançou para o oeste, e nunca mais vi sua face.
Dominion é o “pai da construção de baralho”, e daí?
Ainda é o meu favorito no gênero, mas, neste caso em particular, isso tem muito mais a ver com a construção do meu relacionamento com o jogo do que sua importância para a comunidade. Não me entenda mal, ainda é um excelente jogo, um novo clássico, mas como disse bem nosso amigo Vinny ali no começo: para as novas gerações, o glamour é outro. E tem que ser assim mesmo para a roda girar.
Lá no começo do mato, eu conheci o Dominion. Comprei a caixa base, joguei exaustivamente. Hoje eu tenho mais de 10 expansões, todas as promos, jogo todas elas. É de longe o jogo que eu mais joguei expansões. Muitos jogos eu comprei expansões por puro impulso e mal toquei nelas. Então sim, para mim é o melhor, mas não por sua jogabilidade (hoje tem deckbuilders mais modernos, dinâmicos), mas porque eu tenho uma bagagem de anos com esse jogo. É uma competição muito injusta.
A Sra. Perdomo é uma mulher ciumenta. Eu acho até graça. Eu sou um cara careca, hoje não sou mais tão estrábico porque fiz uma cirurgia de reparação, mas ela me conheceu bem vesgo, também não tenho um porte atlético, sou magrelo, enfim, estou longe de ser um modelo de beleza, mas, ainda assim, ela sente ciúmes de mim. Eu fico lisonjeado, sério. Eu até acho que sou um cara legal, tenho senso de humor, nosso relacionamento tem bastante respeito e diálogo, então atribuo o ciúme a isso. Mas eu sempre respondo assim para ela:
“Vida, para eu ter essa conexão espiritual que nós temos hoje com outra mulher qualquer, eu teria que me relacionar com ela por anos e passar por todos os perrengues que passamos juntos. Vem fácil, vai fácil, e nossa trajetória certamente não foi nada fácil.”
Voltemos ao Dominion. Eu tenho um viés de centenas de partidas com esse jogo, mais de mil se contar as partidas online (para os não puristas). Já está marcado com ferro quente no meu julgamento “tá, mas eu tenho 20 kg de memórias de Dominion, esse novo deckbuilder não dá nem pro aperitivo… bonitinho, mas ordinário”.
Isso significa que eu odeie todos os outros deckbuilders a partir daí? Óbvio que não, mas Dominion é o meu jogo conforto da categoria. É onde eu posso desligar o cérebro porque eu já conheço todas as regras, todas as cartas, eu não preciso pensar ativamente, as jogadas já saem no instinto, e isso gera aquele prazer de jogar por jogar, sem se preocupar com vitória, estratégia etc.
Construção de baralho teve seu auge há alguns anos, mas ainda é muito popular, e há jogos dessa mecânica para todos os gostos. São bem reais as chances de um jovem se deixar levar pelo papo de um influenciador nostálgico emocionado, correr atrás de um usado, possivelmente mais caro, porque esse jogo não está mais em impressão aqui, finalmente colocá-lo na mesa, então pensar “é isso?” e se frustrar.
Você já sacou que este texto não é sobre Dominion, nem sobre a minha experiência com o jogo de fato. Estamos falando de geração de expectativas e de um conflito de gerações, dentro do hobby mesmo.
Sempre que você ouvir algo como “ah, jogo X é um clássico”, “é o pai da mecânica tal”, ou qualquer coisa desse tipo, pare e reflita: “E daí? Eu realmente preciso conhecer tudo?”. Se já está difícil acompanhar o novo, imagine o velho. É uma busca quase que infrutífera, com altas chances de frustração. Não é como se você tivesse que preencher um currículo para tirar sua carteirinha de boardgamer.
Então não, hoje eu não vou falar de Dominion. O que não falta é material sobre esse jogo, dado o tempo que ele está vivo no mercado. Ele certamente tem o seu valor: para um jogo se manter relevante há tanto tempo, com inúmeras expansões, ele é um nicho em si mesmo, digno de respeito e admiração. Entretanto, não se sinta culpado por nunca ter jogado esse jogo ou qualquer outro “pai de mecânica”. Retomo uma última vez o que disse sabiamente o jovem Vinny: “senão a gente vai viver do passado”.
E assim caminha o hobby.
Até o próximo jogo.
Forte abraço,
Luis Perdomo