Como o jogo tem dois autores, a sua história tem também dois pontos de vista diferentes…
A história do "DuvidaÊ!" na visão de Maurício Torselli
Bem, essa história começa na hora do almoço em um dia de semana qualquer; em um restaurante japonês genérico em São Paulo. Em um de nossos almoços para jogar conversa fora, falar mal do mundo e reclamar dos altos salários pagos para designer de boardgames, meu amigo Vicente Martin (mas o pessoal conhece ele como Vince Vader, ou simplesmente Vince) vira e faz o convite:
"Torselli, vamos fazer um jogo juntos?"
Minha primeira resposta, motivada por uma preguiça monstro que sempre mora dentro de mim, foi "Nem a pau. Muito trabalho. Pensar, bolar, desenhar, testar, dar errado, testar de novo, ilustrar, achar editora, editar... não rola".
Mas ele foi incisivo. "Vai ser o jogo que vai aposentar a gente. Vai vender mais que UNO."
Será?
Diante desse fato inquestionável, topei. O Vince sempre foi o cara das ideias mais fora da caixa, uns abstratões muito loucos (sugiro muito conhecer a série com dados de 4,6, 8, 10, 12 e 20 lados) e, para um outro mercado, os jogos bem família editados pela Grow. Eu, obviamente, queria um carteado. A interseção óbvia era alguma coisa mais puxada pro jogador casual, galera, que fosse divertido e informal, como é o Vince.
Comecei a pensar nos jogos de escalada, e percebi que não conhecia nenhuma escalada que tivesse a possibilidade de blefar. Comentei isso com ele, que comprou a ideia na hora - uma escalada com blefe. "Vai ser uma mistura de Truco com UNO", disse Vince. "Sucesso total."
Desenhamos mais ou menos a ideia, e começamos a testar. O primeiro teste tinha trocentas cartas especiais, sendo que uma delas era pegar uma carta aleatória do vizinho da esquerda/direita - e, bem, isso era cansativo para caramba. Fizemos alguns playtests (online e offline), e em um deles veio uma sugestão interessante: e se as cartas do blefe tivessem "armadilhas", ou seja, efeitos que só acontecem quando reveladas? Gostamos muito do conceito, colocamos nele, e o jogo virou um escalada com blefe e armadilhas.
Pode vir. É seguro Confia. Vem, vem.
Daí em diante foram mais testes, sempre cortando coisas que pareciam "estar sobrando" e tentando deixar as regras o mais simples e linear possível, para que fosse um jogo fácil de jogar, e fácil de explicar. No final, ficou uma escalada divertida, em que o timing do blefe é fundamental para você se dar bem. Um jogo casual, legal pra jogar em galera, e que dá mesmo uma sensação de ser um jogo de regras simples, como o UNO, e com o elemento do blefe, como o Truco.
Convidamos vocês a pegarem as cartas, jogarem algumas viradas para baixo sobre a mesa, olhar fixamente no rosto do próximo jogador e falar... "DuvidaÊ!".
A história do "DuvidaÊ!" na visão de Vicente (Vince) Martin
Quando eu marquei um almoço com o Torselli no “restaurante japonês genérico de São Paulo” (TORSELLI, 2025) eu realmente fui com a ideia de fazer um jogo legal junto com ele. Aliás, eu quero fazer jogos com muitas pessoas, afinal de contas, é assim que estou construindo minha fortuna.
A conversa sobre o DuvidaÊ! fluiu bem de cara, mas, como o Torselli mencionou, o game era um pouco exagerado em poderes e efeitos diversos. Nesse sentido, eu sempre gosto muito de voltar em uma leitura que tem me acompanhado há alguns anos: o livro CASUAL GAME DESIGN do autor Gregory Trefry; apesar de ser uma obra focada em videogame, muitos ensinamentos de lá eu levo para os projetos analógicos.
Indicação de leitura para vocês! Carteado também é cultura!
Eu acredito que ter feito esse game com o Torselli foi um bom projeto para colocar em prática o mantra do “keep it simple” e como é difícil fazer isso. Como diz o escritor português Valter Hugo Mãe “o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas”; daí a dificuldade, muitas vezes, de deixar as coisas fluídas e simples sem que elas fiquem sem graça.
Acredito que o processo demorou um pouco mais para ser finalizado porque fizemos muitos playtests: o Torselli online e presencial com uma galera nota 1000 mais profissa no carteado, e eu com meus alunos que não tem tanto o costume de jogar esse tipo de game. No final, conseguimos alinhar as expectativas e conseguimos juntar dois mundos. DuvidaÊ é casual, mas agrada veteranos e novatos.
Ainda estávamos um pouco emperrados na questão da arte do jogo e recorri ao meu amigo Marcelo Braga que ilustrou o McQuestion Marky, a simpática interrogação que ilustra a caixa e o manual do jogo, assim como as redes de armadilha. O Braga, como sempre, mandou muito bem e ajudou a dar a cara que a gente queria para nosso projeto.
DUVIDAÊ se tiver coragem!
Espero que seja tão divertido de jogar quanto foi para a gente criar!
Longa vida ao Selo Carteado! Até porque eu quero publicar, pelo menos, mais quatro títulos por ele e consolidar minha fortuna!
#GoGamers
Veja também os diários de Trunfos e Tesouros e de Doppelgänger Tricks