Caros Boardgamers
Eu sinceramente acho que o politicamente correto exagera bastante em alguns assuntos, mas não tem todos os casos. Um homem pode muito bem achar mulheres loiras, orientais ou negras, mais bonitas e mais sexualmente atraentes, sem que isso faça dele obrigatoriamente racista. Assim sendo, o racismo não nasce da preferência por um, mas sim pelo desprezo, ojeriza, desdém e comportamento ofensivo e violento para com o outro.
Uma pessoa pode achar injusto que homens do ponto de vista exclusivamente biológico e genético, compitam cm categorias femininas esportivas, porque biologicamente os homens tem maior capacidade pulmonar, maior estatura, maior força física, maior densidade óssea, sem que isso faça dessa pessoa obrigatoriamente homofóbica.
E esses são apenas dois exemplos, de quando o politicamente correto exagera, na minha humilde opinião.
Por outro lado, não se pode negar, que o Brasil ainda é um país absurdamente desigual, em assuntos que tem tudo a ver com o politicamente correto. Em pleno século XXI, ainda se vê diariamente casos de pessoas que são presas, porque foram reconhecidas em fotos 3x4, sem nenhuma definição, retiradas arbitrariamente de redes sociais, e que às vezes passam semanas ou meses presas, mesmo havendo provas de que elas nem estavam na mesma cidade onde o crime aconteceu. Com um detalhe, isso nunca acontece com pessoas brancas, loiras de olhos azuis. Por isso, tão errado quanto enxergar racismo em tudo, é fazer de conta que ele não exista, ou que não é tão grave assim. E só quem passou por isso, ou quem sofre as mais variadas, cruéis e perversas humilhações pelas quais passa nossa população negra, sabe o quanto isso é grave, ofensivo e aviltante.
Do mesmo modo, nem sempre as pessoas lembram que até bem pouco tempo atrás, e eu estou falando de apenas algumas décadas, era socialmente aceitável um marido espancar a esposa todos os dias, afinal de contas "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher". E mesmo que isso não seja mais socialmente aceitável, diariamente se vê casos de homens que assassinam suas companheiras, às vezes por apenas suspeitar de uma traição. Além disso, em 2019 foram registrados em todo o Brasil, 66.123 boletins de ocorrência sobre estupros, o que dá uma média de um estupro a cada 8 minutos. Isso que dizer que, uma pessoa foi estuprada quando você começou a ler esse comentário, e outra será alguns instantes depois de você terminar. E nessa conta entram apenas os casos que foram relatados, ficando de fora milhares de ocorrências que não são denunciadas às autoridades policiais, por isso, a quantidade de estupros certamente é absurdamente maior. Mais uma vez, na quase totalidade dos casos, esses crimes foram cometidos por homens. No campo profissional, ainda é absurdamente comum, que um homem receba mais que uma mulher pelo mesmo trabalho, e às vezes ele tendo menos qualificação e menos tempo de casa do que ela. E o mesmo ocorre em caso de promoções, com a mesma frequência .
Por isso, eu digo que o politicamente correto exagera muito às vezes, mas nem sempre. E eu digo isso como um homem que nem é um militante do mimimi, nem tampouco um neandertal, machista, homofóbico e racista. Eu sou apenas um pessoa comum, que tenta enxergar o mundo a sua volta, minimizando ao máximo o filtro ideológico que todos nós temos, sem exceção.
Essa situação também se aplica aos board games. Vejam bem, que board games são criações humanas, que atendem a diversos objetivos, mas que o principal é sem sombra de dúvida a diversão. Aliado a isso, há uma verdadeira infinidade de temas nos jogos de tabuleiro, muito pouco, ou até mesmo nunca explorados. Por isso, eu não vejo sentido em criar um jogo que explore temas absurdamente polêmicos, ou coloque os jogadores em situações absurdamente desagradáveis e aviltantes, especialmente para certos grupos de pessoas.
Claro que a humanidade, ao longo de toda a sua história, sempre foi polêmica e de uma crueldade, às vezes inconcebível. Mas um fenômeno que se percebe é que quanto mais próximo da gente, mais complicado fica lidar com certos comportamentos. A Antiguidade foi um período muito violento e no qual a escravidão era algo tão comum que nem era percebida. Na Idade Média, as pessoas eram mortas sem nenhum motivo, ou pelos motivos mais fúteis, apenas porque a nobreza ou o clero assim decidiam. Os vikings que muita gente venera hoje em dia, deixavam um rastro de destruição e selvageria por onde passavam. Os samurais, outros muito venerados, poderiam simplesmente matar um camponês, apenas para ver se sua katana estava suficientemente afiada. Na época dos grandes descobrimentos, as potências coloniais escravizaram populações inteiras, isso quando não resolviam exterminar as populações nativas, como ocorreu em todo o continente americano.
Só que essas questões parecem distantes demais para afetar a moralidade e o senso ético das pessoas, muito embora, no caso da escravidão é bom lembrar que temos apenas 136 anos desde a Lei Áurea, e menos ainda se considerarmos que mesmo após a abolição, a escravidão continuou acontecendo em boa parte do país. Hoje mesmo, ainda são muitos os casos de pessoas mantidas em situações análogas à escravidão. Desse modo, qual é o sentido de colocar o jogador no papel de um explorador colonialista da África, no melhor estilo Leopoldo da Bélgica, que ratificava e incentivava a prática de mandar cortar as mãos dos filhos, casos os pais não cumprissem as suas cotas de entregas de matérias primas?
Nós podemos ir além e aproximar temporalmente ainda mais a discussão. Se jogos sobre colonialismo e exploração da mão-de-obra escrava não tem tanto problema e reclamar disso é mimimi, qual seria então o problema de se fazer um jogo em que os jogadores são administradores de campos de concentração nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, e ganha quem conseguir exterminar a maior quantidade de judeus, como foi dito no vídeo?!?! Alguém poderia defender que "as mulheres exageram, nessa questão de estupro, e se elas saem de casa com roupas provocantes e indecentes é porque elas estão procurando, então que arquem com as consequências, e reclamar disso é mimimi dos lacradores politicamente corretos". Um pessoa dessa poderia achar muito normal e até legal, por incrível que pareça, fazer um jogo em que ganha o jogador que "traçar" mais novinhas em uma festa, ganhando mais pontos se a menina não quiser e disser não. Já imaginaram um jogo com os jogadores sendo executores de um grupo terrorista radical islâmico, cujo o objetivo é decapitar a maior quantidade de infiéis, ou fazem parte de guardas de uma prisão militar norte-americana, com o objetivo de torturar e obter a maior quantidade de confissões dos prisioneiros de guerra, com aconteceu em Abu Graib?!?!
Certamente, nenhuma pessoa sã e decente vai achar que qualquer um desses jogos seria aceitável, em hipótese alguma, então porque cargas d'água, um jogo sobre colonialismo selvagem e exploração de mão-de-obra escrava deveria ser?
Nesse sentido, eu concordo totalmente com o Pfister que modificou o tema do Mombasa e alterou o Great Western Trails, para torná-los menos ofensivos para alguns grupos. Se dá para fazer um jogo sem ofender ninguém, pelo menos de forma genuína, porque tem gente que se ofende por absolutamente qualquer coisa, eu sinceramente não vejo porque não fazê-lo. Um ótimo exemplo disso é o Puerto Rico 1897. Isso faz todo o sentido tanto ponto de vista ético, como também do ponto de vista comercial, porque sendo mais neutro há uma possibilidade de vender o jogo para muito mais pessoas.
É como eu penso.
Um forte abraço e boas jogatinas!
Iuri Buscácio