GabrielAlmeida::Schaidhauer::ou será que um é mais vítima que o outro?
Sim, é. Soldados morrerem no campo de batalha, sem que tenha sido sua escolha estar lá correndo esse risco, é horrível. Mas a história da escravização de diversos povos baseada puramente em ideais raciais e supremacistas não tem comparação. Povo este cujos descendentes até hoje sofrem com as consequências desta atrocidade chamada colonialismo. Não, não tem comparação. Qualquer representação desta história que não tome o lado do oprimido, obrigatoriamente está tomando o lado do opressor, pois essa é a narrativa hegemônica. Como disseram aí, você é beneficiado por desenvolver o colonialismo no continente em Mombasa. Isso te faz ganhar o jogo.
Está certa a mudança de tema, visto que o próprio manual admite que este não é relevante para a mecânica do jogo. Ora, se não é relevante e se o jogo não toma o lado dos escravizados sob uma ótica insurgente ou algo similar, para que tratar do tema?
Aposto que sobre essa comparação, o soldado terá uma opinião bem diferente. Vamos tomar cuidado pra não tratar de forma absoluta coisas que podem ser relativas, até porque, por analogia, um soldado pode muito bem ser um escravo, e de uma forma de dominação muito mais sutil e perniciosa.
Quanto à mudança de tema eu concordo. No final das contas, não há a menor necessidade do jogo ter esse tema, e temos que refletir sim no porquê de ter sido este o assunto do jogo, e não outro, já que existem tantas opções. Isso pode nos dizer muito de quem escolhe, não só individualmente, mas da cultura de onde o jogo é proveniente.
O que me preocupa mesmo nessas polêmicas é que me parece muito evidente um movimento de varrer a história para debaixo do tapete, quero dizer, compensar a parte ruim tentando convencer o público que ela não existiu; "vamos fazer jogos sobre a parte boa, vamos falar colono ao invés de escravo"... Esse tipo de coisa é artificial, um desserviço na verdade. Nenhum momento da história de qualquer nação tem um lado só.
Correndo o risco de ser repetitivo, pois já disse isso em vários momentos, o melhor exemplo que conheço é o da segunda edição do Endeavor. O autor optou por dizer claramente no manual que o jogo retrata um período da história das nações em que houve exploração da mão-de-obra escrava, mas que o jogo não exalta isso de forma alguma e ainda, que existe também uma penalidade pra isso na forma da carta de Abolição. Óbvio que não quero dizer que essa saída é suficiente para abonar qualquer coisa, mas neste caso em especial, vejo um exemplo bem digno.