Este segundo texto, talvez, será o mais polêmico da série. Não apenas porque o tema é delicado, mas porque ele é um dos mais difíceis de ser internalizado, além de ser um dos mais criticados: machismo vs feminismo nos boards.
Primeiramente, precisamos desconstruir alguns imaginários tomados como exemplo, sendo que eles são extremistas e sequer deveriam ser citados na tentativa de invalidar movimentos. Ao contrário do que muita gente pensa, o feminismo não é um movimento radical de mulheres que reivindicam serem picadas por uma aranha radioativa a fim de ganharem super-poderes para se tornarem superiores. O feminismo (e mais uma vez não considerarei extremismos) é a busca por igualar os direitos da mulher em uma sociedade desigual. Trocando em miúdos: se um marido pode pegar o carro, ir jogar com amigos e voltar 01 da manhã, por que sua esposa não pode fazer o mesmo? Por que é só dela a responsabilidade de cuidar da casa e botar os filhos pra dormir enquanto seu marido se diverte com os amigos? Sim, o feminismo é um contraponto ao machismo. Aliás, o feminismo não veio para instituir um império feministo, e sim para que o machismo deixe de existir. Pois, mais uma vez, ao contrário do que muita gente pensa, o machismo não é normal (ou não deveria ser). Ser machista não é defender o homem, é diminuir a mulher por acreditar que ela é inferior de alguma forma. E isso está tão entranhado em nossa sociedade - o tal do machismo estrutural - que a gente sequer percebe que ele existe. Pensemos rapidamente: eu vou encontrar um grupo de meninas que nunca jogaram boardgames, mas quero iniciá-las no hobby. Quais jogos gateway vocês me indicariam? Takenoko? Sonhando com Alice? Matryoshka? Dixit? Algum jogo com bichinhos e ilustrações bonitinhas? E se o grupo fosse de homens? Os jogos citados anteriormente seriam a primeira opção ou me citariam Stone Age, Ticket to Ride e Mansions of Madness? Todos esses jogos têm seu tipo de público, obviamente, mas esse público se divide em questão de gosto e não em questão de gênero. Mas, por algum motivo, nós (e me refiro a homens e mulheres mesmo) criamos uma ideia errada de que jogos com temas fofinhos atraem as mulheres mais do qualquer outro e acabamos impondo esse pensamento na hora da escolha da indicação. É difícil perceber isso? MUITO. Mas não quer dizer que, por ser quase imperceptível, ele não exista. E aí reside a agrura no discurso de "isso é problematização" quando alguém percebe isso e traz o assunto à tona.
Conversando com minha irmã sobre esse tema, ela me perguntou se eu tinha memória de quando uma mulher havia me encarado com ar sexual pela primeira vez. Eu não fazia a menor ideia. Ela lembrava o dia, a hora e detalhes da situação quando um homem a olhou com desejo sexual pela primeira vez, por ela estar usando um shortinho aos 13 anos de idade. Até hoje ela diz ter medo de passar por aquela situação novamente. Agora imaginem quantas meninas já não passaram pelo mesmo tipo de situação ao adentrar em mesas e eventos com público massivamente masculino. Então, acho que vale a reflexão: elas têm se sentido iguais e seguras para desfrutar horas de atividades lúdicas em paz ou nós continuamos objetificando-as, desejando-as e fazendo comentários maldosos quando elas se viram de costas para ir ao banheiro? Mais um vez, de certo, é maravilhoso se isso não acontece no seu grupo. Mas você é capaz de deslegitimar esse comportamento Brasil afora?
Provavelmente os eventos que visam atingir o público feminino sejam a melhor resposta para as perguntas supracitadas. "Ah, você tá falando daqueles eventos segregacionistas?" Jovem padawan, poupe o tempo de todos nós, inclusive o seu. Dizer que existe segregacionismo pelas minorias é tão ridículo quanto acreditar em racismo reverso. Por que diabos vocês se incomodam tanto quando as minas se reúnem e organizam um evento só pra elas a fim de se proteger de cantadas, olhares, piadinhas ou simplesmente querer conversar sem pudores sobre assuntos do universo feminino? Por que dói tanto em seu frágil ego masculino deixar que as minas estejam no controle de um evento que busca representatividade em um hobby predominantemente masculino? "Mas, cara, esses eventos sequer aceitavam que homens entrassem, isso não é segregacionista?" Não, cara, não é. Embora eu já tenha escutado que alguns eventos tiveram essa característica (e hoje não conheço nenhum, me perdoem) eu consigo enxergar que é/foi necessário. Quando uma mulher passa por agressão masculina (seja física ou intelectual) quem a atende na delegacia é uma mulher e não um homem! Sabe por que, jovem? Porque é necessário um acolhimento, um apoio psicológico, uma relação de confiança e segurança que o sexo oposto não é capaz de ofertar pela fragilidade da vítima. Se você for mordido por um cachorro, te colocar no meio de um canil não parece ser a melhor forma de fazer superar o trauma, não importa se todos os cachorros parecem fofinhos. Antes de criticar, entenda que existem eventos para vários tipos de públicos e simplesmente não é o seu naquele momento, porque é necessário criar um ambiente seguro e confiável antes de qualquer coisa. Isso sem falar nos que sequer frequentam eventos, não têm o menor interesse neles, mas estão prontos para criticar porque "esses eventos ajudam a separar e não a juntar pessoas no hobby". Eu não jogo com todas as pessoas da minha cidade pelos motivos mais diversos possíveis. E eu consigo entender que ter pessoas jogando em outros lugares sem a minha presença, fortalece o hobby porque é mais gente jogando e consumindo. Eu não sou o juiz supremo dos boards que deve estar presente para validar todas as mesas e julgar se elas são ou não importantes. Se você parar com a síndrome de ser o centro do universo, talvez você também consiga entender... Isso sem falar nas mesas que não aceitam mulheres porque "a esposa do anfitrião não gosta que ele receba meninas em casa para jogar". Mas é melhor a gente não falar nesse assunto por enquanto, certo?
Para finalizar, senti a necessidade de ser um pouco mais explícito sobre o que poderíamos fazer para tornar nosso ambiente machista de jogo menos tóxico às mulheres. Penso que os principais são:
1- Não fazer mansplaning;
2- Não ficar dando pitaco na jogada da coleguinha;
3- Não ficar criticando as jogadas da coleguinha.
Caso você esteja fazendo isso com geral e por isso se sentiu injustiçado ao ser acusado de estar praticando atos machistas, tente apenas que explicar que é seu perfil ser um jogador chato pra cara*** e que tem o costume de fazer isso com todo mundo. Ah, mas não é com todo mundo? É só com a mina na sua mesa? Então, jovem, tenho uma péssima pra te dar... Eu conto ou vocês contam?
Mas, digam aí: além das sugestões do texto, que outras sugestões vocês dariam para tornar o ambiente do nosso hobby menos machista?