Visita de Médico: Vantage
Essa série "Visita de Médico" se propõe a ser um review curto de uma partida apenas. Muitos jogos vão crescendo com múltiplas partidas e, inclusive, alguns são notáveis por serem péssimos na primeira tentativa (pense em quase qualquer Phil Eklund). Dito isso, leia tudo aqui com um quilo de sal, e saiba que de forma alguma quero ofender designers ou o seu gosto duvidoso para jogos. E claro, vou assumir que você já sabe as regras (em certa medida).
A História
Não curto
Ameritrash. Ou pelo menos isso é o que digo a mim mesmo por um
loooooongo tempo já. Para confirmar isso, à dois anos atrás joguei
Horrified na
CovilCon e derreti.
Horroroso, literalmente. Minhas outras memórias foram com
Eldritch Horror e seu caminhão de alpha-player. Acrescente pitadas de:
"deixa eu desfazer essa jogada", o que me deixa louco num jogo que é pra ser
duro. Pheeww… Fica aí o desabafo. Mas não sou um hater completo já que eu curto coop com comunicação restrita:
The Crew e
Skyteam por exemplo. E gosto bastante de
Fury of Drácula (nas mãos do grupo correto).
Agora o aclamado
Jamey Stegmaier, lançou um "coop imersivo" de exploração com
1300+ cartas. Algo que soa impressionante pra mim, mas talvez até não seja pro ameritrasheiro veterano. Nunca joguei
Gloomhaven, mas assim como o próprio
Arkhan Horror LCG (esse sim, onde tenho alguma experiência), sinto que ambos tem o lado mecânico, mais valorizado que o
story-telling (lembre-se: mais valorizado não quer dizer que não exista).
Vantage parece que se propõe em ser diferente: é sobre o sentimento de exploração e o story-telling de forma primária. Isso fez ele ficar no meu radar, até talvez para comprar a versão em
Holandês e usar isso para meu aprendizado pessoal.
Explicando o jogo com uma carta: é praticamente um adventure de PC das antigas. Cenário, e ações possíveis. Combine isso com 9 livros com as consequências (1 pra cada cor). Exemplo: ASK, veja a consequência no livro LARANJA para a carta 158.
O Contexto
Meu grupo tem jogatina regulares a cada duas semanas, mas de tempos em tempos realizamos uma sessão extra. Dessa vez sobrou só eu e meu amigo
Tom (que é um game designer também diga-se de passagem). Eu sabia que ele tinha
Vantage e já tinha sinalizado o interesse em jogar. Ele é um
solo player hardcore (joga
Mr. President da GMT por exemplo) e ficou curioso para saber como seria
Vantage em 2P, que é a contagem ideal. O motivo? As consequências tem escolhas, e é difícil não "espiar" ela ao ler os livretos, por isso o jogo indica que o jogador não ativo seja o
game master do turno; lendo e apresentando opções, mas sem revelar o resultado.
Embarcamos nessa aventura juntos, e diga-se de passagem, o jogo é bem amigável para um
rolling-teach, então se um lado é experiente, você pode literalmente sair jogando sem conhecimento prévio de nada.
Sorte
Aleatoriedade
durante o jogo se apresenta em:
- Rolagem de dados para avaliar o resultado de qualquer teste. Basicamente o core do jogo. Diferente dos jogos onde você rola o dado para saber o resultado, aqui você rola o dado para saber o custo: você sempre passa os testes. Porém pode acabar morrendo no processo (se acabar seus pontos de vida por exemplo).
E é isso. Dada a natureza do jogo, diria que no final das contas a sorte é bem baixa na prática. Diferente do que você poderia imaginar, essas 1300+ cartas, são
determinísticas, não é um deck de eventos com coisas aleatórias, vou explicar mais sobre isso em seguida.
Interação
- Você narra as escolhas para o seu parceiro.
- Quando jogadores vão para uma outra localidade, você descreve para o outro o que você está vendo (arte e texto). Você não pode mostrar a carta para o seu parceiro.
- Algumas cartas permitem você "roubar" o dado que foi rolado (e que anulam as consequências negativas). Isso pode ser feito para a suas rolagens, ou o do seu parceiro.
A interação em termos mecânicos,
é baixa, porém o storytelling é divertido, e ouvir a aventura do colega é bem agradável.
O Bom
Noção Espacial
Você já jogou, ou entendeu a beleza artística do
Zelda Breath of the Wild de Nintendo Switch? Tanto lá, quanto aqui, vivenciei um sentimento de exploração que nunca senti num jogo desta mídia. Não estava preocupado com pontos de vitória, ou fazer o
build mais forte. Eu queria saber o que eram os
Monolitos Brilhantes que eu via adiante. Vou explicar com uma das cartas do manual (spoiler mínimos):
Na seguinte carta, você vê que existem essas formações rochosas adiante, mais no fundo a esquerda consegue ver inclusive a carcaça de um grande animal.
- Se você decidir ir "pra frente", você provavelmente vai ir pra uma outra localização, provavelmente algo mais próximo da carcaça. Ou inclusive encontrar ela própria.
- Se você decidir construir um abrigo, talvez exista um problema já que a carcaça era a consequência de algo perigoso. Detalhes pequenos da arte, que possam parecer aleatórios são pistas do impacto da sua escolha.
Em algumas situações do jogo, você pode inclusive acabar tendo a possibilidade de ter uma visão aérea de determinadas regiões. Lembre-se: são efetivamente 9 livros com MUITO conteúdo, e muita arte. Nessa visão aérea por exemplo, talvez você veja a mesma carcaça do monstro, e para o leste um oasis. Nesse contexto, ao chegar na localidade acima você (que talvez estivesse procurando pelo Oasis), vai pensar: "
to quase lá, agora vou para a esquerda/oeste aqui."
Talvez por texto não fique tão claro, mas o ponto é, você realmente sente que está navegando pelo mundo, e as referências do que você vê nas cartas fazem sentido dependendo da posição onde você está.
Escape Room?
Isso eu não posso falar tanto, já que é efetivamente spoiler, mas por causa dos livros acessórios, alguma situações são bem elaboradas, e vão bem além da mecânica base do jogo. Você vai cair em situações BEM inusitadas, e que para mim foram um sopro de diversão bem alta. Eu particularmente nunca joguei os EXIT, mas imagino que em certa medida, você vai se deparar com puzzles como aqueles que acontecem lá.
O verdadeiro mundo aberto
No começo da partida, você ganha sua missão. No nosso primeiro jogo: domar 3 animais. Durante a partida coisas vão acontecer que vão te gerar novas missões, e o sentimento de estar jogando um jogo digital bem elaborado vem com força. O mais legal mesmo é que ficamos tão intrigados com a região que estávamos explorando que até esquecemos da missão principal (risos). Fique tranquilo, o próximo relato é
semi-fake para não dar spoiler, mas explica o sentimento de aventura que estávamos tendo:
- Meu amigo estava aprendendo a ser um jardineiro, ficou obcecado com o treinamento e efetivamente esqueceu de mim. Ficou arrogante, brigou com o professor e foi expulso da guilda de jardinagem intergalática.
- Eu fui amaldiçoado e meio que cai no Tesseract do filme Interestelar. Tive que apanhar para resolver um puzzle duríssimo para conseguir sair de lá.
Só Sair jogando
Regras facinhas (vide o 2.5 no BGG), tem potencial de pegar aquele gamer-não-gamer e engajar forte. Sem contar que é só sair jogando mesmo, você não precisa explicar nada de antemão caso o outro jogador esteja disposto a jogar "pelo tema".
O Ruim… ou não.
Eu me diverti MUITO. Fato. Porém sai com um sentimento de dúvida: o quanto esse sentimento iria durar ao jogar mais vezes? Será que tem uma validade? Naturalmente a validade existe, mas dado a improbabilidade gigantesca de você cair no mesmo lugar do mundo em múltiplas sessões isso vai demorar.
Será então que eu cansaria rápido ao jogar uma 2a ou 3a vez? Realmente não sei. Porém essa
primeira partida com zero spoilers, foi algo bem
memorável pra mim.
Como comentei lá em cima, as cartas não são o seu
"deck de eventos" típico. Na verdade, o jogo vem com todas as cartas organizadas num formato de índice. Você
não pode misturar, já que ele tem uma carinha de Livro-Jogo. Exemplo: No local X se você decidir cavar, sempre vai encontrar o item Y. Isso de fato diminui a rejogabilidade… mas isso é um problema? Realmente a Exploração, pela própria natureza é uma experiência única. E inclusive em múltiplas partidas você pode até tentar
"encontrar aquele lugar de novo", o que eu imagino geraria até um sentimento bem interessante.
Seu inventários com cartas que você vai encontrando nas localidades. Os itens por sua vez, podem trazer novos itens. Por exemplo, assim que eu terminasse de refinar o meu minério, eu pegaria uma nova carta simbolizando o novo recuso.
Veredito
Eu sou obrigado a fazer propaganda. Jogue Vantage. Nem que seja uma vez. Entendo que pode ser uma experiência bem cara pra jogar UMA VEZ, mas não estou aqui fazendo juízo de valor fianaceiros (risos). Rache o jogo com um amigo, compre usado (rachado em 2), pegue emprestado… Em fim, jogue pelo menos uma vez. Eu acho que se você, assim como eu, é um
eurozeiro, que curte RPG (mas se aposentou dessa vida) e por algum motivo nunca deu valor pra Ameritrashes, esse é o momento de tentar outra vez. Realmente é um 9, pois acho que é uma experiência que
"precisa" ser vivida como
boardgamer, talvez caia para um 7 rápidamente com mais partidas caso a "magia" acabe, mas só o tempo dirá.
Experiência única. Aprovado.
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