É sabido pelos “usuários” dos jogos Arkham Files o quanto alguns destes podem ser desafiadores — e talvez este seja um dos seus principais atrativos. No entanto, para muitos jogadores, esse alto nível de dificuldade transforma a experiência em horas de pura frustração. Como exemplo, cito duas experiências próprias, em que notei pessoas na mesa que pareciam ter este sentimento.
Uma das ocasiões ocorreu no ano de 2018, pouco depois de me mudar para a cidade de Ribeirão Preto (SP), onde comecei a jogar com um grupo com o qual mantenho a amizade e carinho até hoje, embora distante fisicamente. À época jogávamos muito mais eurogames e, eventualmente, aventurávamo-nos nos temáticos cooperativos.
Foi em uma dessas ocasiões em que sugeri algo que tinha potencial de ser épico, imersivo e único — o que, de certa forma, aconteceu.
Jogamos Eldritch Horror… em 8 (oito) jogadores.
Embora seja um dos meus favoritos da vida, EH definitivamente não foi feito para mais que 4 jogadores. Ainda que todos tenham se esforçado para entrar no clima e participar ativamente — a maioria frequentava RPGs — a dinâmica da sua mecânica e divisão de fases impôs longos momentos de espera e inevitável dispersão.
Infelizmente, imagino que alguns daqueles colegas tenham gravado a experiência como algo que não gostariam de repetir.
Outro exemplo de como a dificuldade crescente deste mesmo jogo pode ter impacto negativo em algumas pessoas está na minha própria esposa que, após duas ou três partidas — desta vez em dois jogadores — criou certo trauma com os portais que se abrem, trazem novos monstros e fazem perdermos o controle do mapa rapidamente.
Atualmente, ela é pragmática em dizer que não quer mais jogar “o jogo dos portais”.
Observando estas características dos jogos da série Arkham e, especialmente, do meu primeiro boardgame moderno —
Eldritch Horror — percebi que a experiência por ele proporcionada e as sensações ambíguas que causa podem ser explicadas por uma linha de pensamento clássica e muito difundida atualmente:
o Estoicismo.
Ainda que reconheça a importância da flexibilidade e empatia nas relações humanas, desde muito aprecio o pensamento prático e pragmático - linha que faz parte da base da filosofia estoica.
Citando alguns pensadores expoentes desta filosofia, relaciono abaixo suas ideias a essas situações.
Epicteto — Enchiridion (Manual)
“Algumas coisas dependem de nós, outras não.”
Aqui, um exemplo claro do quanto o jogo traz o caos à tona em diversos momentos. As cartas de encontro, a rolagem dos dados e a fase dos mitos são situações nas quais, ainda que possamos mitigar as chances de fracasso, o fator sorte é preponderante.
Como observado por Epicteto e seus pares, nem tudo está sob nosso controle.
Sêneca — Cartas a Lucílio
“Não é que tenhamos pouco tempo, mas que desperdiçamos muito.”
Assim como na maioria dos jogos — e ainda mais evidente em Eldritch — as decisões tomadas a cada turno são críticas para a evolução do personagem ou para decretar o avanço da perdição.
Os turnos limitados e a pressão constante pode trazer a sensação de que não temos alternativas e de que o jogo está jogando por nós. No entanto, quando nos propomos a criar uma estratégia e tentar seguir um plano, percebemos que podemos ter alguma chance sobre o inevitável.
“Sofremos mais na imaginação do que na realidade.”
Um dos grandes sofrimentos da humanidade é a ansiedade — algo que essa citação traduz perfeitamente — e que, no jogo, se manifesta na paranoia causada pelo “não saber o que virá” na próxima carta de mito e em cada evento sacado. Normalmente, quando o momento chega ele é bem menos assustador do que nossa imaginação chegou a cogitar.
Marco Aurélio — Meditações
“Aceite tudo o que lhe acontece como se fosse escolhido por você.”
Para vencer o jogo — ou, ao menos, chegar até o final — muitas vezes é fundamental explorarmos ao máximo o conceito de resiliência.
Há partidas em que tudo parece estar perdido logo no início. No entanto, os muitos monstros surgidos, os eventos terríveis e as situações que enfraquecem os personagens devem ser enfrentados com visão estratégica, mas também com a consciência de nossa limitação diante do caos.
Colocando-se nesta condição — de controlar o que é controlável e aceitar o restante — cada rodada pode trazer novas percepções e renovar as chances contra o tabuleiro.
Entre outras citações estoicas que podemos considerar em nossa análise, estão:
- Marco Aurélio:
“Você tem poder sobre sua mente, não sobre eventos externos.”
“A perda não é nada além de mudança.” - Sêneca — Sobre a Brevidade da Vida:
“A vida é longa o suficiente, se bem utilizada.” - Epicteto — Discursos:
“Não são os eventos que perturbam os homens, mas os julgamentos sobre eles.”
Todas elas nos trazem uma visão de que não estamos no controle da maioria das situações que nos afetam diariamente.
Mas podemos planejar nossa vida — e nossas jogadas — tentando seguir um caminho que reflita nossos valores e objetivos.
A forma como lidamos com as bifurcações e desafios, na vida e no tabuleiro, alimenta as opções que teremos para nossas próximas ações.
Muitas vezes, uma mesma situação pode ser vista como o fim de tudo — levando à descrença e à desistência no meio do “jogo” — ou como parte dele: um desafio tático que deve ser enfrentado com os melhores recursos disponíveis.