alex2306::Sendo sincero, não vi o vídeo ainda. Mas sempre oriento a leitura do manual, eu mesmo adoro ler manuais e sei que muitos não bem diagramados e/ou usam termos que deixam ambiguos. Mas ainda sim são a referência para qualquer situação.
Hoje com a era que estamos já tem manual que vem com QR code para caminhar para vídeos de regras, mas ainda sim o manual que vai te orientar. Brasileiro já não tem hábito de leitura e ainda tem essas ferramentas, elas tem que auxiliar mas não ser a principal opção.
Aqui mesmo vemos youtubers passando regras erradas nos vídeos, se eles que são "referências" porque em tese são pessoas que estudam os jogos para passa informação ao seu público. Imagina a pessoa que tem pouca familiaridade com jogos só dependendo de apps.
Thiag0Prado::
Sugiro dar uma olhada no vídeo! Tenho certeza que vai gostar, a ideia é usar e potencializar o manual a nosso favor! O 'sem manual' tem um sentido. Assistindo, você vai entender!
Caros
alex2306 e
Thiag0Prado
Rapazes, eu entendo toda a questão do encanto com a IA, e não apenas em relação a jogos e coisa e tal. Eu também acho que ela pode ser uma ferramenta muito útil, para melhorar as jogatinas. Porém, eu acho que é muito importante fazer algumas considerações.
A primeira de todas essas considerações, e a mais óbvia, é que a IA é como a ambição, ou seja, ela é "uma boa serva, porém uma má senhora". Em outras palavras, a IA é antes e acima de tudo uma ferramenta, que deve ser encarada e utilizada exatamente como isso, uma boa ferramenta.
Entretanto, o que se vê geralmente quando se fala em IA, é que as pessoas estão, nas palavras do Miguel Nicolelis "enamoradas de uma tecnologia", o que não faz sentido e é até perigoso. Quando alguém se enamora de uma pessoa, um produto, uma empresa ou de uma ideia, o mais natural, e o que geralmente acontece, é que essa pessoa passe a enxergar apenas os aspectos bons e positivos do objeto do seu afeto, e ignorar totalmente os seus pontos ruins e negativos. Por isso, a intenção inicial por trás da IA pode ser boa, mas não custa lembrar que o caminho para a perdição é pavimentado de boas intenções. Assim sendo, aquilo que era para ser uma ferramenta, um recurso, um auxílio, pode, e cada vez mais, tem se transformado em uma muleta.
Isso é muito comum no meio acadêmico. Não há como negar que a IA é uma excelente ferramenta de pesquisa, que em segundos disponibiliza à pessoa uma série de caminhos possíveis para alcançar uma informação. Só que a tentação de deixar a IA não apenas ajudar o sujeito, mas sim fazer todo o trabalho por ele é muito grande. O resultado é que muita gente simplesmente está desaprendendo a escrever com qualidade, e simplesmente não consegue mais escrever três ou quatro parágrafos coerentes, inteligentes e interessantes, mesmo a respeito de um assunto que a pessoa gosta. Traduzindo isso para os board games, o uso da IA pode, muito facilmente, descambar para as pessoas simplesmente não quererem mais ler os manuais, e tentarem aprender o jogo direta e exclusivamente através da IA.
Outra consideração importante a se fazer, é que as pessoas aprendem e desenvolvem a forma de se expressar e de argumentar, efetivamente se expressando e argumentando, a respeito daquilo que elas pensam, sentem e acreditam. E isso, seja na forma da leitura, da escrita, da fala e demais atos de criação. Todavia, quando se adiciona a IA nesse contexto, geralmente se verifica uma "terceirização" do exercício da expressão. O sujeito não escreve mais, nem procura mais, ele simplesmente digita um prompt dizendo "IA faça isso para mim". O resultado é que quanto menos a pessoa se expressa por si mesma, menos ela desenvolve a capacidade de se expressar. E é aí que entra o problema para o qual nem todo mundo dá a devida atenção.
A máquina não adivinha, nem lê pensamentos, ou seja, a máquina não faz aquilo que você quer, ela faz aquilo que você manda ela fazer, e quanto pior o comando, pior será a resposta.
Assim sendo, quando as pessoas começam a ter dificuldades de se expressar, fruto da "terceirização do exercício do se expressar", mesmo que seja em uma simples comando para a IA, os comandos se tornam cada vez piores o que dificulta e muito as resposta da máquina e compromete a qualidade dessa resposta. Não sei se existe alguma pesquisa a respeito, mas certamente muito das "alucinações", e respostas equivocadas que a IA gera, são resultado de perguntas dúbias ou mal formuladas. Uma cena que exemplifica muito isso, está no filme "Fenômeno". Nessa cena, um pesquisador entrevista o personagem de John Travolta, um sujeito comum, que adquire uma super inteligência, após um incidente. O pesquisador pergunta a idade de uma pessoa nascida em um determinado ano. A pergunta parece simples, mas envolve uma série de outras variantes além do ano, como o mês, dia, horário e local de nascimento. Evidentemente, a cena não envolve nem IA e nem mesmo tecnologia, mas essa cena dá uma boa ideia do tipo de problema na interface entre uma máquina binária, baseada apenas em 0 ou 1, e um ser humano, que entre 0 e 1 visualiza uma infinidade de pontos intermediários.
Também é preciso pensar que não adianta nada restringir a IA a responder com base apenas em um manual, acrescido de algumas outras fontes que também têm origem nesse manual, se o próprio manual em si for mal escrito e confuso. Essa situação só piora quando os designers do jogo também estão tão viciados em IA, que simplesmente não conseguem escrever uma série de regras, de forma minimamente inteligível o suficiente para que se possa compreender de forma clara, como se joga aquele jogo.
Por fim, outra questão que me preocupa bastante com esse crescimento indiscriminado e essa assimilação desmedida da IA é que as pessoas se esquecem que a IA parece mágica, mas na verdade ela é um produto. Só que todo produto tem um dono por trás, que evidentemente quer lucrar com esse produto. Basta pensar em um cenário futuro bastante provável, em que após as IAs terem se tornado indispensáveis para as pessoas, as Big Techs que as produzem podem começar a cobrar por elas, ou auferir ganhos de alguma outra forma. Antes o chatgpt era usado de forma quase que totalmente livre e gratuita, mas hoje já há uma assinatura premium, de forma que o uso livre e gratuito é restrito e limitado. Não demora muito e a pessoa só poderá fazer duas ou três pergunta para a máquina, e depois aguardar algumas horas ou migrar para o Plano Premium, para continuar perguntando o quanto quiser ou precisar. Agora imagina só o sujeito tentando aprender a jogar Food Chain Magnate, fazendo apenas 3 perguntas a cada 6 horas?!?!
Dito isso, eu louvo a inciativa do vídeo, mas sinceramente não vejo sentido em substituir a IA por um bom manual de regras físico, escrito de forma compreensível. E nem adianta falar que no vídeo se recomenda o uso da IA apenas como ferramenta e não se abandone os manuais físicos, quando claramente a mensagem subjacente é que a IA é o futuro e que fará o milagre de se aprender o jogo sem precisar perder tempo lendo o manual. Com todo o respeito ao autor do vídeo e todo o trabalho que ele teve na sua produção, mas eu acho que seria mais correto apresentar a IA exclusivamente como uma auxiliar para tirar dúvidas, com a qual eu concordo, do que deixar uma mensagem dúbia, mostrando a Ia ora como ferramenta e ora como solução substitutiva.
Um forte abraço e boas jogatinas!
Iuri Buscácio
P.S. Quanto ao respeito do desserviço que a IA, enquanto muleta e não ferramenta, para uma população que já lê muito pouco para início de conversa, com bem destacou o
alex2306, disso nem dá para falar aqui, por falta de espaço para uma problemática tão complexa...