Acho que não preciso apresentar o jogo de Damas, apenas gostaria de contar lembranças e minha relação com o jogo.
Joguei na infância, aprendi com meu pai, mas longe de ser lembranças totalmente agradáveis. Meu pai só vencia e eu não tinha a menor chance de vitória, claro que foi uma experiência muito positiva aprender a frustação da derrota, aprender a não ser uma mal perdedora, edificou caráter. Mas rapidamente se tornou apenas frustrante mesmo.
Até mesmo porque meu pai, além de mais experiente no jogo, conhecia de cor uma quantidade enorme de macetes e scripts do jogo.
Apesar de todas partidas serem apenas derrotas, teve uma foi marcante.
Eu tinha por volta dos nove-dez anos, e consegui que minha irmã quatro anos mais nova jogasse uma partida mesmo que a contragosto. Claro que eu estava vencendo a minha irmã na primeira partida dela, e aí ela num momento de birra resolve virar o tabuleiro e jogar todas as peças no chão. Claro que eu fiquei com raiva e comecei a xingar, meu pai veio em defesa da favorita dele e falou que eu não poderia fazer aquilo e que eu não deveria ser mal perdedora e me deu uma lição de moral.
Aceitei.
Só que Deus não dá asa a cobra, e chamei meu pai para uma partida.
E ele vencia feliz e sorridente, até que imitei minha irmã e virei o tabuleiro.
Bicho, ele ficou puto, agiu como se fosse me bater, deu medo, meu pai trabalhava em marmoraria carregando pedras de cem kilos, ficou puto e rasgou o tabuleiro, que era uma folha de papel, e quando eu vi que ele tava com a intenção de me bater soltei "Ah mas ela pode e eu não posso né!? E eu não posso ficar com raiva", aí ele "acalmou" e começou a passar o sermão em que eu deveria agir como homem (naquela época eu ainda era menino) e coisas e tals. Um homem vinte e cinco anos mais velho pedindo uma criança a inteligência emocional que ele não tinha.
Enfim, assim que os ânimos se acalmaram chamei ele para jogar outra partida, ele falou que não ia mais jogar comigo, e nunca mais jogamos.
Outra lembrança que tenho foi quando aprendi xadrez, eu tava apaixonada por aquele jogo de gente inteligente, e claro que fui ensinar para o meu pai.
Ele perdeu, obviamente, e ele detestou. Não lembro se ele disse que achou "muito idiota", mas lembro que ele falou que prefere damas.
Por um longo período da minha vida eu detestei damas por toda esse histórico. Para mim era um jogo de decorar sequências.
Tentei fazer as pazes com as damas, tinha um "stand" de brinquedos de madeira no shopping perto do supermercado que eu fazia compras. Comprei o tal tabuleiro, que surpresa "maravilhosa" quando abri a gaveta do tabuleiro e as pedras de damas eram quadradas, sim amigos, as pedra eram quadradas ao invés dos tradicionais círculos.
Um dia fiquei fula com as damas quadradas e dei pra minha irmã para ela doar pra alguém.
Esse é o meu relato com as damas.