Caros fantafanta e adolfocaetano
Meus amigos vocês realmente têm um ponto e que realmente acabam convergindo de certa maneira.
Quando você junta "goumertização" com a lógica do "consumo de exclusão", você acaba chegando a situação em que o mero "consumir" se transforma em uma forma de valorização social, em que se eu consigo consumir, isso faz de mim parte de uma elite, dentro de uma sociedade que majoritariamente não consome. Para isso funcionar é preciso que tanto o produto seja caro, como também ele tenha características que não são necessariamente necessárias.
É aquela velha história, você pega um bolinho de cenoura, que antes custava 3,00 reais, que era muito gostoso e que agradava a todo mundo, cobre com uma camada generosa de "pasta americana" que tem um gosto horrível, salpica um pouco de chocolate granulado, e taca uma cereja marrasquino por cima, que reza a lenda é feita de mamão, e "voialà!", você agora tem um cupcake, que basicamente continua sendo um bolinho de cenoura, mas que agora quintuplicou de preço, passando a custar incríveis 15,00 reais. Como nem todas as pessoas conseguem pagar 15,00 reais em um bolinho, quem consegue acaba ficando feliz, por se sentir, ao menos em relação a isso, com parte da casta de privilegiados socioeconômicos do nosso país, mesmo que n!ao o seja em outra áreas.
Dito isso, é preciso ter clareza de que ninguém deseja seriamente nenhuma situação absurda ou extrema. Ninguém quer nem acredita seriamente que um jogo com a quantidade de componentes do Gloomhaven, com a quantidade de cartas do Dominion e miniaturas com a qualidade do Foudations of Rome, vá custar 100,00 reais. Mas também fica complicado, quando um Escape the Dark Castle, composto de menos de 100 cartas em preto e branco, com menos de 10 dados temáticos, custe quase 350,00 reais. Então a coisa não é nem oito nem oitenta, e dá para chegar a um meio termo, que seja bom tanto para as editoras quanto para os compradores.
Um exemplo disso é o caso do Herdeiros do Khan da Estrela. Eu sempre cito esse jogo, porque ele exemplifica muito bem o nosso mercado nacional de board games. Esse jogo é excelente, e sem exagero, e guardadas as devidas proporções seriam uma ótima alternativa aos Marco Polos I e II, que custavam quatro vezes mais do que o Herdeiros do Khan. O problema é que a Estrela, na ânsia de maximizar os lucros ao ponto de ruptura e utilizar o mesmo padrão de seus outros jogos (alguns defendem com razão que o jogo estava abaixo até desse padrão), a empresa acabou lançando o jogo com uma qualidade de componentes tão ruim, que teve um desempenho em vendas muitíssimo abaixo do esperado. Para piorar, esse jogo reforçou o estereótipo de que no Brasil nós não temos condições fabris de lançar board games com qualidade mínima, mesmo tendo uma Copag, que produz alguns dos melhores baralhos do mundo, e fornece para cassinos ao redor de todo o globo.
O outro lado desse caso do Herdeiros do Khan, que quase ninguém parou para pensar, e que faz uma diferença enorme é que o jogo custava apenas 100,00 e que para dar uma "pimpada" nos componentes, custava algo em torno de 30,00 a 50,00 reais (novos peões, castas com maior gramatura, talvez os problemas principais), apesar de dar algum trabalho com as cartas. Só que no final esse esforço te deixava com um jogo excelente, e que custou apenas 150,00 reais. Na época os dois Marco Polos custavam cada um mais de 600,00 reais, por isso eu acho que o Herdeiros do Khan compensava, e compensava muito. Só que com o estrago que a Estrela fez (o próprio selo Estrela Premium, não deu em nada), o Herdeiros do Khan ficou com a pecha de ser um dos jogos com a pior qualidade de componentes de todos os tempos, do ladinho do Selene. Desse modo, claro que todo mundo quer jogos mais baratos, mas também não dá para descer a qualidade dos componentes nesse nível, porque ninguém vai comprar um jogo assim, por melhor que ele seja. Agora vejam só como tudo seria diferente se ao invés de custar 100,00 reais o Herdeiros do Khan custasse 150,00, mas com componentes melhores. Provavelmente nós teríamos tido um campeão de vendas, que talvez, eu digo talvez, tivesse levado a produção de jogos 100% nacionais para outro lado.
Só que a nossa realidade é outra, e outro jogo exemplifica muito isso. Teve um outro jogo nacional, que eu não vou dizer o nome, porque fui quase que apedrejado virtualmente quando critiquei o preço dele, mas que era composto de alguns cartonados e da "joia da coroa", 180 dados purpurinados para bater com o tema do jogo. Só que ele custava 350,00, e isso no primeiro apoio do financiamento coletivo. A justificativa para o jogo custar tão caro era que os dados seriam produzidos na China, onde se produzia e ainda se produz a "nata do board game mundial". O problema é que sendo um jogo brasileiro, de um tema genuinamente brasileiro, obviamente a tiragem foi muito menor do que os jogos da "nata do board game nacional". Isso fez com que o preço unitário dos danos ficasse muito mais caro do que os próprios dados, cheios de frufru, que a China manda às toneladas para a Ludeka, por exemplo. Em função disso, em uma conta de padaria rápida, eu resolvi cotar uma versão "home made" do jogo, e pasmem, mesmo fazendo uma única unidade, o preço que eu consegui comprando os 180 dados na Ludeka, com mais alguns cartonados, ficou um terço do valor do financiamento coletivo. Claro que há ouros custos atrelados, quando se produz em escala, mas o preço do jogo por unidade também cai drasticamente. Para minha surpresa, quando eu apresentei esses dados para a comunidade, foi um "paga prá capar" para o meu lado. Mas como "o tempo é o senhor da razão" (o pensamento é do Marcel Proust e não daquele ex-presidente picareta), o jogo que é de um tema que se renova todo ano, e que poderia estar vendendo horrores até hoje, acabou ao invés disso, trilhando a triste senda do esquecimento. Então vejam, um jogo que poderia custar muito menos e vender muito mais, acabou custando muito mais e vendendo muito menos, só por apostar nessa gourmetização aliada ao consumo de exclusão.
Por outro lado, eu entendo perfeitamente que as elites que detém os meios de produção realmente estão cagando para os consumidores e para as pessoas, e ganhado o seu dinheirinho que é a única coisa que importa, como bem defendeu o Fantafanta. A questão é que, pelo menos desde o final da década de 90, a China mostrou a mundo que produzir muito mais e vender por muito menos gera muito mais dinheiro e maximiza muito mais os lucros, por conta do maior volume de vendas, do que a lógica do consumo de exclusão. Isso de quebra ainda coloca o mercado na sua mão, porque como o sujeito vende muito mais por muito menos, todo mundo acaba comprando o produto dele.
Entretanto é preciso destacar que, mesmo que as elites empresariais não deem a menor importância para os consumidores e pessoas comuns, elas dão muitíssima importância e valor a ganhar mais dinheiro e maximização dos lucros, que é o resultado quando se inverte a lógica do consumo de exclusão (produzir menos, e vender mais caro para menos gente), pela lógica do consumo de inclusão (produzir mais e vender mais barato para muito mais gente).
Mas é preciso não se iludir, porque esse não é um processo que se muda de um dia para o outro. Foram necessárias umas duas ou três décadas e muito investimento para que a China passasse da "pátria dos produtos falsificados" para o colosso econômico que ela é hoje. Só que se esse processo nunca se iniciar, o resultado que todo mundo almeja, jogos bons e mais baratos, mercado fortalecido e expandido com mais gente comprando jogos e editoras ganhando mais dinheiro, não vai chegar nunca, e são as empresa que têm de dar esse pontapé inicial.
Um forte abraço e boas jogatinas!
Iuri Buscácio