Pra alimentar mais o debate sobre o tema, trago aqui as aspas da obra “Sapiens – uma breve história da humanidade” a qual citei no meu post; e reforço que é preciso expandir a análise sobre colonialismo. Destaco ainda que, em minha opinião, ao problematizar demais os temas, de modo a condenar tudo aquilo que consideramos incômodo, seria inevitável em algum momento cairmos em incoerência e chegarmos ao ponto de que poucas coisas são positivamente jogáveis ou aceitáveis. Então, a pergunta seria: temas desse porte não podem ser retratados em jogos e nem podemos jogar comandando o outro lado?
E, como disse, é preciso manter a coerência nesse trato. Por isso citei jogos de guerra, falei sobre os esportes de corrida e luta, citei o velho oeste...e cito mais: o que dizer de jogos de zoológico, sendo que a visão dos críticos é que zoológicos são ambientes de afastamento da natureza, tortura e que influem em diversos transtornos comportamentais dos animais; logo, Bärenpark e Ark Nova não deveriam também passar por reimplementação de tema? GTA, Carmagedon, Age of Empires, Invasores do Mar do Norte (que são Vikings saqueando locais; saques com violência) dentre outros jogos de civilização também não são errados ao se adotar esse ponto de vista? Como citou o colega acima, o que falar de John Company? Um adendo sobre os jogos de guerra, destaco que a guerra não se trata apenas de soldados matando soldados. Na guerra há estupros, a execuções de militares e civis, como do exército alemão com a população polonesa na invasão à Varsóvia em 1939, como a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki. Então se por um lado é antiético ou errado um jogo que tenha como pontuação o seu nível de colonização, não seria errado pontuar por eliminar o exército inimigo e alcançar a vitória, mesmo que os jogos não apontem esses fatos e objetivos ocultos que toda guerra tem? Para refletir, seguem abaixo as aspas (e são trechos grandes) do livro do historiador Yuval Harari:
“”Construir e manter um império normalmente exigia o massacre cruel de grandes, populações e a opressão brutal de todos os que sobravam. O kit padrão de ferramentas imperiais incluía guerras, escravidão, deportação e genocídio. Quando os romanos invadiram a Escócia em 83, encontraram forte resistência das tribos caledônias locais e reagiram devastando o país. Em resposta às ofertas de paz de Roma, o chefe Cálgaco chamou os romanos de “rufiões do mundo” e disse que “à pilhagem, à matança e a roubos deram o nome mentiroso de império; fizeram um deserto e chamaram isso de paz”.
Isso não significa, entretanto, que os impérios não deixam nada de valor em seu rastro. Pintar todos os impérios de preto e condenar todos os legados imperiais é rejeitar a maior parte da cultura humana. As elites imperiais usaram os lucros da conquista para financiar não só exércitos e fortificações como também filosofia, arte, justiça e caridade. Uma proporção significativa das grandes realizações culturais da humanidade deve sua existência à exploração das populações conquistadas. Os ganhos e a prosperidade trazidos pelo imperialismo romano propiciaram a Cícero, Sêneca e Santo Agostinho o tempo livre e os recursos necessários para pensar e escrever; o Taj Mahal não poderia ter sido construído sem a riqueza acumulada pela exploração mogol de seus súditos indianos; e os lucros do império de Habsburgo, provenientes do domínio sobre suas províncias falantes de eslavo, húngaro e romeno, pagaram os salários de Haydn e as comissões de Mozart. Nenhum escritor caledônio preservou o discurso de Cálgaco para a posterioridade. Nós o conhecemos graças ao historiador romano Tácito. (...). Mesmo se olharmos além da cultura de elite e das artes superiores e focarmos apenas o mundo das pessoas comuns, encontraremos legados imperiais na maioria das culturas modernas. Hoje, a maioria de nós fala, pensa e sonha em línguas imperiais que foram impostas a nossos ancestrais pela espada. A maior parte dos habitantes do leste asiático fala e sonha na língua do Império Han. Independentemente de suas origens, quase todos os habitantes dos dois continentes americanos, da península de Barrow, no Alasca, ao estreito de Magalhães, se comunicam em uma das quatro línguas imperiais: espanhol, português, francês ou inglês. Os egípcios da atualidade falam árabe, concebem a si mesmos como árabes e se identificam totalmente com o Império Árabe que conquistou o Egito no século VII e reprimiu com punho de ferro as repetidas revoltas que irromperam contra seu domínio. Cerca de 10 milhões de zulus na África do Sul remetem à era de glória do século XIX, embora a maior parte deles descenda de tribos que lutaram contra o Império Zulu e tenha sido incorporada a ele por meio de campanhas militares sangrentas.
(...)
É tentador dividir a história entre mocinhos e bandidos, colocando todos os impérios do lado dos bandidos. Afinal, quase todos esses impérios foram edificados sobre sangue e mantiveram seu poder por meio de opressão e guerra. Mas grande parte das culturas de hoje se baseia em legados imperiais. Se os impérios são, por definição, ruins, o que isso diz sobre nós? Existem escolas de pensamento e movimentos políticos que procuram expurgar a cultura humana do imperialismo, deixando o que afirmam ser uma civilização pura e autêntica, não contaminada pelo pecado. Essas ideologias são, na melhor das hipóteses, ingênuas; na pior, servem como uma camuflagem hipócrita para o nacionalismo bruto e para a intolerância. Talvez seja possível argumentar que algumas das inúmeras culturas que surgiram no início da história registrada fossem puras, intocadas pelo pecado e não adulteradas por outras sociedades. Mas nenhuma cultura desde aquele início pode fazer essa afirmação, pelo menos nenhuma cultura que ainda existe sobre a face da Terra. Todas as culturas humanas são, em parte, legado de impérios e civilizações imperiais, e nenhuma cirurgia acadêmica ou política pode remover esse legado sem matar o paciente.
Pense, por exemplo, na relação de amor e ódio entre a república independente da Índia atual e a Índia britânica. A conquista e ocupação da Índia pelos britânicos custou a vida de milhões de indianos e foi responsável pela humilhação e exploração contínua de outras centenas de milhões. Ainda assim, muitos indianos adotaram, com o entusiasmo dos convertidos, ideias ocidentais, como autodeterminação e direitos humanos, e ficaram consternados quando os britânicos se recusaram a colocar em prática seus próprios valores declarados e conceder aos indianos nativos direitos iguais como súditos britânicos ou independência. No entanto, o Estado indiano moderno é filho do Império Britânico. Os britânicos mataram, feriram e perseguiram os habitantes do subcontinente, mas também uniram um mosaico desconcertante de reinos, principados e tribos em guerra, criando uma consciência nacional partilhada e um país que funcionava mais ou menos como uma unidade política. Eles assentaram as bases do sistema jurídico indiano, criaram sua estrutura administrativa e construíram a rede de ferrovias que foi fundamental para a integração econômica. A Índia independente adotou a democracia ocidental, em sua encarnação britânica, como forma de governo. O inglês ainda é a língua franca do subcontinente, uma língua neutra que falantes nativos de híndi, tâmil e malaiala podem usar para se comunicar. Os indianos são apaixonados por críquete e chai (chá), e tanto o jogo quanto a bebida são legados britânicos. O cultivo comercial de chá não existia na Índia até meados do século XIX, quando foi introduzido pela Companhia Britânica das Índias Orientais. Foram os esnobes sahibs britânicos que disseminaram o costume de tomar chá por todo o subcontinente. Quantos indianos, hoje em dia, gostariam que houvesse uma votação para destituí-los da democracia, da língua inglesa, da rede de ferrovias, do sistema jurídico, do críquete e do chá, utilizando o argumento de serem legados imperiais? Mesmo que isso acontecesse, o próprio fato de fazerem uma votação para decidir a questão não demostraria sua dívida para com os ex-soberanos?
Mesmo se fôssemos condenar completamente o legado de um império brutal na esperança de reconstruir e salvaguardar as culturas “autênticas” que o precederam, com toda a probabilidade o que estaríamos defendendo não seria nada além do legado de um império mais antigo e não menos brutal.””