Kavita::Grande Iuri, mais um texto fabuloso!
Porém queria ressaltar que Jamaica foi lançado no Brasil sim, pela Galápagos; e que atribuir a "paternidade" da ficção científica a Júlio Verne hoje em dia é super contestado porque, de fato, devido ao patriarcalismo, diminuiu-se a importância de Frankenstein como a pedra fundante do gênero. Mas por bem, isso está sendo revisto.
Quanto a comparação dos piratas com o conceito nietzscheano talvez, esse paralelo tenha pouco sentido, porque a figura do Super Homem carrega bem mais nuances que isso. E além do mais, isso se pensarmos na figura romântica do pirata, que é uma invenção da modernidade, da qual se vale os board games. Os piratas históricos, em geral, eram uma "ralé" suja de homens hiper violentos e iletrados (o absoluto oposto da ruiva na capa do Tiny Epic Pirates rsrs), e não havia nada de glorioso em seu modo de vida.
Foram só apontamentos de um leitor chato mesmo, peço perdão! Esses textos estão incríveis, e escapam do senso comum que costumamos ler aqui. Ansioso pelo próximo.
Grande abraço
Caro
Kavita
Meu camarada que bom que você gostou do texto. Achei seus comentários muito pertinentes, e justamente por isso gostaria de fazer algumas observações.
Em relação ao Jamaica a questão é que a Galápagos lançou a edição revisada, e muito tempo depois da "Fase dos Piratas". No entanto, revendo o que eu escrevi, vi que a informação está dúbia, por isso agradeço e vou fazer a devida correção.
No caso da Mary Shelley, é claro que a sociedade patriarcal ocidental tornava impraticável que as mulheres exercessem naturalmente as suas vocações artísticas, e muito menos servir de pioneiras no que quer que fosse. No entanto, essa revisão do papel da Mary Shelley ocorre muito mais em função de tirá-la da sombra de seu marido famoso Percy Bysshe Shelley, principalmente enquanto poetisa, do que propriamente reconhecê-la como a criadora da ficção científica. Eu acho até válido citar o seu romance Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, por conta do cenário "científico" em que a história se passa mas é forçoso reconhecer que essa parte científica ocupa uma parte muito pequena do romance. O livro trata muito mais de questões existenciais e filosóficas, como o próprio subtítulo indica.
Mas mesmo que não fosse assim, ainda é preciso considerar outros três fatores. O primeiro fator é que o livro nasceu de um brincadeira com seu marido e demais amigos intelectuais que passavam um verão na casa de campo de Lord Byron, em que cada um resolveu escrever um conto de horror, durante os dias chuvosos. Por isso a motivação do livro está muito mais para o gênero terror do que ficção científica. Tanto assim é, que a criatura do livro sempre foi muito mais associada ao primeiro gênero do que o segundo. O segundo fator é que além de Frankenstein (que já não é tão ficção científica assim) Mary Shelley só escreveu The Last Man que se passa em um futuro apocalíptico. O terceiro é que Mary Shelley escreveu o Frankenstein baseada em uma pseudociência, que jamais foi comprovada e que desde o início tinha um probabilidade quase nula de se realizar. Isso justamente porque a ciência não era o foco de seu livro.
Por outro lado, sem querer encarnar o machista-retrógrado-patriarcal (cruz credo e longe de mim tal pecado), e apenas analisando a produção literária, não dá para negar que Júlio Verne escreveu muito mais livros voltados para essa questão científica. Tanto assim é que boa parte dos seus romances levavam em consideração os avanços tecnológicos da época, bem como um avanço tecnológico possível. Basta dizer que grandes avanços previstos por Júlio Verne se tornaram realidade, mas até hoje ainda não foi possível reanimar matéria morta, através da eletricidade.
Quanto aos piratas, eu reconheço que o conceito de "super-homem" é muito mais complexo e profundo do que aquilo que eu escrevi no artigo. Mas nesse aspecto eu peço algum desconto, porque o texto é sobre os piratas dos board games e obviamente não há espaço para tratar um conceito nietzscheano tão complicado, que por si só já requer um livro inteiro, e isso se não forem vários livros. Além disso, evidentemente o fato dos piratas serem mais democráticos, não os torna menos violentos nem menos sanguinários, e nem mais próximos da versão romanceada que surgiu nos livros e filmes posteriores. Basta lembrar que no "A Ilha do Tesouro" de Robert Louis Stenvenson, que eu citei no artigo, os piratas são os vilões e não os heróis.
Todavia, apesar disso, não dá para negar que no imaginário, principalmente dos adolescentes do século XIX, a figura do pirata tinha um forte apelo aventureiro, mesmo que isso não condiga com a realidade. O mesmo se pode dizer da guerra. Inúmeros jovens (alguns mentindo a idade) se alistaram para lutar na Primeira Guerra Mundial, movidos pelo fervor patriótico e porque achavam que aquela era uma oportunidade para aventuras, só para descobrirem quando já era tarde demais que a guerra na realidade é uma coisa suja, violenta e sem nenhum charme ou glamour.
No mais, não há a menor necessidade de me pedir perdão pelo que quer que seja, porque a intenção desse fórum é justamente o embate de ideias. E é desse cotejamento que a gente chega a alguma conclusão. Como cantava Cartola "Diz o provérbio da discussão é que nasce a luz". Isso sem falar que, com todo o respeito, muito me custa acreditar que você seja um leitor mais chato do que eu! KKKKKKK
Um forte abraço e boas jogatinas!
Iuri Buscácio