endou_kenji::O problema é muito mais cultural do que propriamente financeiro. Apesar de, individualmente os países europeus terem uma população muito menor, eles, culturalmente, consomem MUITO mais esse tipo de produto. Fazendo uma analogia, lá também se lê muito mais livros do que aqui... Pois a grande maioria dos brasileiros tem "preguiça" de ler, acha trabalhoso, vê muito mais vantagem ir pro bar, ou pra praia ou bater uma pelada.
Quanto à trazer o básico, nem a Hans im Gluck fez reprint dele lá fora, preferiram lançar direto a Ultimate
Caro endou_kenji
Acho que você tem toda a razão. Um país em que a maioria esmagadora da população quase não tem o básico para sobreviver fica difícil pensar em coisas "supérfluas" como cultura, educação e lazer. As pessoas muito mal e porcamente tem comida em casa, e as crianças desde cedo têm de trabalhar para ajudar a família a não passar fome. Milhões de brasileiros não têm acesso a saneamento básico, básico mesmo, ou seja, o esgoto das residências é jogado diretamente nos valões da favela, quase como acontecia na idade média. Isso sem falar na quantidade de pessoas que nem casa tem para poder ter esgoto, e acabam morando em barracos, seja no morro, ou em cima de palafitas. Numa situação dessas falar em livro, escola, arte e diversão é fechar totalmente os olhos para a realidade, por mais fundamentais que essas coisa possam ser.
É claro que em uma situação da mais extrema e abjeta miséria, não tem o menor cabimento falar em jogo. É claro que jogos são um luxo muito acima das possibilidades de pessoas nessa condição. Por isso, eu estava me referindo à classe média, que tem acesso em maior ou menor grau ao consumo de bens e serviços, entre estes os produtos relacionados ao laser. Conforme você muito bem destacou, os europeus de um modo geral, são culturalmente acostumados com a leitura e também com os jogos de tabuleiro. O Ziraldo em uma entrevista falou que como os invernos brasileiros não são tão rigorosos, salvo talvez em apenas algumas áreas da região sul do país, nós acabamos não tendo aquele necessidade de passarmos várias semanas dentro de casa, em determinada época do ano. Segundo o célebre cartunista, isso dificulta bastante desenvolvimento do hábito da leitura, e podemos supor que isso também se aplique ao hobby dos jogos de tabuleiro. Uma prova disso é que os Argentinos, tão latino-americanos quanto nós, leem muito mais em média, que nós brasileiros, justamente porque eles têm um inverno, muitíssimo mais rigoroso que o nosso. No caso dos jogos de tabuleiro, por esse mesmo , é muito provável que em alguns anos o mercado de jogos argentino venha a suplantar o nosso. Na Europa acontece exatamente o oposto do que ocorre no Brasil, em relação ao rigor do inverno, especialmente no caso da Alemanha, portanto não é de estranhar que eles vejam os jogos como algo fundamental para ajudar passar pelo tedioso inverno.
Mas se a nossa formação cultural já não nos ajuda nesse sentido, nós então temos que trabalhar dobrado para mudarmos esse panorama. Isso é plenamente possível desde que haja interesse, vontade e determinação para tal, e isso não apenas em relação a meia dúzia de pessoas, mas sim envolvendo toda uma coletividade. Basta ver, considerando as devidas proporções, o exemplo da Coreia do Sul, que nos anos 50 e 60, logo após o fim das hostilidades da Guerra da Coreia em 1953, ficou com uma porção mínima de um país atrasado agrícola e que foi totalmente devastado por um conflito brutal. Em pouco mais de 20 anos, e com um investimento sério e maciço em educação, a Coreia do Sul se transformou em um pais industrializado e referência em desenvolvimento tecnológico.
Traduzindo isso para o board game que é a nossa praia, tirando a Paper Games e mais uma ou outra editora do setor, quase não se vê ninguém falar ou produzir jogos com preço acessível. A ótica do mercado é quase sempre focada, salvo algumas exceções, em lançar jogos caros, de 400, 600 e 800 reais, com uma tiragem baixíssima. Com isso o mercado brasileiro de board games, apesar de já ter crescido bastante, continua sendo praticamente insignificante. E isso é uma pequena para um país com tanto potencial.
A minha manifestação foi nesse sentido. Por isso, eu concordo contigo quando você diz que mesmo que alguns países europeus não tenham uma população tão grande quanto a nossa, mas nem de longe, e também não tenham uma economia tão forte, tais como Espanha, Bélgica, Holanda, Suécia, Portugal, Dinamarca, entre outros, eles estão socialmente anos luz de distância na nossa frente, por serem mais organizados, por não terem tanta desigualdade social, pela renda não ser tão concentrada, entre outros aspectos. Aliado a isso, ainda há a questão cultural em relação aos board games então não dá para estranhar que uma editora estrangeira tenha mais interesse em lançar o jogo no mercado belga, por exemplo, do que no brasileiro. Isso sem falar que a Europa é composta de diversos países, mas o bloco funciona praticamente com se fosse um mercado consumidor único, o que torna as coisa ainda mais desiguais para o nosso lado.
Para terminar, é preciso dizer que essa questão de mercado de board games não é simples e demanda uma discussão muito maior do que caberia no espaço de um comentário em um tópico do Ludopedia. Mas uma coisa é certa, se nada for feito, se as condições atuais forem mantidas, ou até mesmo piorarem, em relação a preço de jogos e tamanho das tiragens, se nós não começarmos de algum lugar, o quadro atual do mercado nacional de board games nunca vai melhorar, e mesmo que ele não acabe, também não vai chegar a lugar nenhum, continuando para sempre com um tamanho insignificante, em termos de tamanho importância de mercado.
Um forte abraço e boas jogatinas.
Iuri Buscácio