Gosto de pensar que não é só a minha coleção que tem jogos encostados. Tal qual aquela roupa no fundo do armário que um dia você acha e pensa: “eu deveria usar mais esta peça” ou “eu gosto desta roupa, mas gosto mais de outras” ou “por que eu ainda tenho isto?”. A verdade é que você tem mil outras roupas de que gosta mais e a Marie Kondo certamente diria para você desapegar. E, sendo uma roupa, talvez até o faça. Mas nós sabemos que, com jogo, não é bem assim que funciona.
Com o advento da quarentena, resolvi tentar jogar todos de minha coleção, começando pelos jogos “blusas no fundo do armário”. Já foram três a saírem da prateleira e, tendo como inspiração a musa japonesa da organização, passei a refletir: esses jogos “spark joy” em mim?
Situação 1 – Eu deveria jogar mais este jogo
O primeiro da fila foi o
Discoveries. Joguinho leve e confortável, mas com um toque de estratégia para não deixar as coisas monótonas. Excelente para apresentar a novas jogadoras. A premissa é: você faz parte da expedição de Lewis e Clark, que atravessou o continente norte-americano no início do século 19 e relataram tudo o que encontraram em diários, descrevendo plantas e animais que descobriram e desenhando os mapas de áreas desconhecidas.
No jogo, devemos enviar nossos expedicionários-dados para coletar essas informações de plantas e animais, negociar com tribos indígenas, trilhar caminhos difíceis. O fator sorte está presente de maneira significativa, já que o papel que cada dado vai desempenhar é relacionado ao lado em que o dado caiu. Porém, existem forma de reverter esses resultados, o que diminui um pouco esse fator sorte e acrescenta estratégia na jogada.
Destaque para a arte de Vincent Dutrait no jogo, muito bonita e delicada.
Situação 2 – Eu gosto deste jogo, mas tenho outros de que gosto mais

Acredito que o Marcos Macri seja um dos designers brasileiros mais criativos que há. Sempre acho as mecânicas e temas de suas criações muito interessantes. Não foi diferente com
Chaparral. No jogo de 2016, somos investidoras no velho oeste americano. Nosso objetivo é conquistar fortuna, prestígio e prosperidade.
Para isso, buscamos personagens que detêm algum tipo de poder na cidade: xerife, prefeito, banqueiro, minerador, operador de trem, dentre outros. Cada personagem visitado vai te permitir alocar influência em determinados locais da cidade como hotel, loja de armas, barbearia, farmácia, armazém, etc. Além disso, cada um tem uma habilidade, então ao visitá-lo você pode executar ações como construir ferrovias, coletar verbas ou vender produtos. Somente um jogador pode ir em cada personagem por rodada, então, se você quiser executar a ação dele e o mesmo já estiver bloqueado, você deve ir no Beco, onde são praticados negócios escusos ao custo de dinheiro e honra.
Conforme conquistamos influências e riquezas, podemos reivindicar cartas de objetivos, que existem em quantidades limitadas de acordo com a quantidade de jogadores.. Quem primeiro conseguir angariar 7 objetivos ganha o jogo – ou seja, trata-se de uma corrida para conquistar essas cartas antes do adversário.
A questão de Chaparral, para mim, é que ele nem é um jogo leve o suficiente para apresentar a uma novata, mas também não é a melhor opção para jogadores mais experientes. O primeiro jogador acaba tendo muita vantagem em relação aos outros e os personagens não são muito bem balanceados. Alguns são muito importantes e outros só vão ser relevantes em determinadas circunstâncias. A ferrovia, por exemplo, é algo difícil de ser construído e que, no fim, não dá tanto retorno assim.
Mais um ponto importante: a representação feminina é quase nula. Apenas a Dona do Saloon é mulher. Sabemos que era um ambiente machista, etc, mas poderia ter pelo menos mais uma personagem feminina, não acham?

A Dona do Saloon é a única mulher no jogo
Situação 3 – Por que eu ainda tenho este jogo?
Sabem amigo secreto ladrão? O marido ganhou este joguinho
Star Wars: Império Vs. Rebelião na famigerada brincadeira de fim de ano e, inicialmente, achamos que até tinha sido uma vantagem. Demoramos 2 anos para ter coragem para testar, afinal, é feio falar mal das coisas sem conhecer antes, certo? Por mais que eu estivesse preparada para não ser exatamente um jogo elaborado, me decepcionou a falta de criatividade nas cartas, nas mecânicas e suas ações. Um card game em que você não tem uma “mão”, você é simplesmente obrigado a jogar a primeira do deck. Enfim, como diria o Michael, de Arrested Development,
I don’t know what I expected. Ficamos entediados e não terminamos a partida.
Ainda temos mais jogos “no fundo do armário” e eu volto aqui para contar para vocês. E quais são os seus jogos esquecidos na prateleira?