Outro dia, enquanto reorganizava a estante, comecei a reparar em uma coisa curiosa. Alguns jogos ocupavam uma única caixa. Outros já haviam conquistado duas, três ou até quatro prateleiras. Expansões, inserts, organizadores, mapas extras, módulos... em alguns casos, eu tinha mais conteúdo adicional do que jogo base.
Foi então que me fiz uma pergunta que nunca havia parado para pensar: será que todos esses jogos realmente precisavam de uma expansão?
Não estou falando das grandes expansões que transformam uma experiência. Algumas fazem isso muito bem. Basta olhar para
Spirit Island,
Terraforming Mars,
Scythe,
Orléans ou
Duna: Imperium. Em todos eles encontrei módulos que ampliaram possibilidades e me deram vontade de voltar à mesa. Mas, enquanto observava essas caixas, meus olhos acabaram parando em outra parte da coleção.
Foi aí que comecei a desconfiar de um hábito muito comum no hobby. Quando gostamos de um jogo, quase automaticamente começamos a procurar sua expansão. Parece existir uma lógica silenciosa dizendo que, se o jogo já é bom, mais conteúdo só pode torná-lo melhor.
Mas será que funciona assim?
Pensando bem, não fazemos isso em muitas outras áreas da vida. Ninguém termina um romance clássico imaginando que ele precisava de mais três capítulos. Ninguém sai de um filme extraordinário convencido de que ele seria melhor com quarenta minutos extras. Ninguém ouve um álbum consagrado e conclui que cinco músicas inéditas o tornariam ainda maior.
Por que, então, aceitamos com tanta naturalidade a ideia de que todo jogo excelente ainda precisa de "mais alguma coisa"?
Talvez exista uma dificuldade muito humana em aceitar que certas obras já chegaram completas.
Isso não significa que expansões sejam desnecessárias. Algumas corrigem problemas, aumentam a rejogabilidade ou oferecem experiências realmente diferentes. Outras, porém, apenas acrescentam regras, componentes e tempo de preparação, sem tornar o jogo melhor.
Quanto mais tempo passo no hobby, menos sinto necessidade de "completar" tudo o que gosto. Algumas das minhas experiências favoritas continuam acontecendo justamente com jogos que permanecem praticamente iguais desde a primeira partida.
Foi aí que percebi que talvez eu estivesse fazendo a pergunta errada. Em vez de perguntar se um jogo tem expansão, talvez eu devesse perguntar se ele precisa dela. Porque são coisas completamente diferentes.
No fim das contas, uma grande expansão não é aquela que simplesmente adiciona conteúdo. É aquela que responde a uma pergunta que o jogo base ainda deixava em aberto. Se essa pergunta nunca existiu, talvez a expansão também nunca tenha sido necessária.
Curiosamente, essa reflexão acabou dizendo muito menos sobre os jogos do que sobre mim. Durante muito tempo associei quantidade à evolução, como se ampliar uma experiência fosse sempre melhor do que preservá-la. Hoje penso diferente.
Algumas das maiores obras-primas da minha coleção não me fazem querer mais conteúdo. Elas me fazem querer jogar de novo.
E talvez esse seja o maior elogio que um jogo possa receber.
Então, qual jogo da sua coleção faz você pensar: "não mexe em nada, ele já está completo"?
Tenho a impressão de que todo jogador guarda pelo menos um título assim.
Menos hype. Mais escolhas.
Nos vemos Além do Hype.