Olá, jovens.
Ontem eu me deparei com esse texto ("Quacks: hype demais, jogo de menos") e fiquei muito feliz, não pela opinião dentro do texto em si, esse não é o ponto em questão, mas porque eu gosto muito de ver conteúdos orgânicos por aqui, pessoas falando de suas experiências com jogos, sem querer vender nada, apenas "joguei, gostei/não gostei, e está aqui o que eu acho". E esse episódio me inspirou para escrever o texto a seguir.
Há uns anos, eu vi um review gringo de um jogo, eu não vou me lembrar precisamente do jogo nem do canal, isso não importa muito para a história aqui, o que ficou marcado na minha memória foi um comentário em particular. O jovem comentarista disse algo nessa linha: “tudo que você disse de negativo sobre o jogo é exatamente o que eu gosto”.
Era um canal conceituado, e o jogo era um lançamento da moda naquele ano. O review não era totalmente positivo, eu não diria que era negativo, mas quase. Mas era um review bem-feito, digno da fama do canal. Não arrisco dizer o nome do jogo ou do canal porque realmente não é o foco aqui, e já vi outras situações análogas, então posso confundir o santo ou o milagre, mas você pegou a ideia geral da coisa.
Voltando para a nossa esfera nacional, existe aqui uma cultura, dentro e fora do hobby, de não falar mal das coisas. Um europeu ou um estadunidense pode ser visto como grosseiro, quando muitas vezes ele está sendo apenas assertivo, mandando o papo reto, doa a quem doer. Nós não estamos tão acostumados com isso, aqui tudo é azeitado, amaciado.
Não é questão de ser melhor ou pior, sem viralatices aqui, por favor, mas falo de tentar extrair algo bom desse fenômeno e nos aprimorarmos. Uma crítica sincera é mais benéfica que um elogio falso. A diferença está no momento e na abordagem.
Também não falo de criticar por criticar, o famoso hater. Idealmente, todo conteúdo deve ser consumido com um olhar crítico, ainda mais nos dias de hoje. Eu sei que ser crítico cansa, exige mais da massa cinzenta, e às vezes só queremos desligar o cérebro e ter um pouco de entretenimento (e tá tudo bem, de verdade, todos somos assim em maior ou menor escala). No entanto, lembre-se de que tudo tem uma intencionalidade.
A recíproca é verdadeira, aqui na nossa bolha, estamos tão acostumados com um bombardeamento de positividade nos conteúdos sobre lançamentos que quando alguém chega falando mal, já tomamos aquilo como algo sincero. Pode ser, pode não ser. A tal da intencionalidade, lembra? A ideia aqui não é plantar uma paranoia na sua cabeça, mas um convite para olhar reviews de uma maneira mais crítica.
Novamente, observando nossa cultura, podemos ser muito emotivos, no sentido de nos projetarmos em um objeto apreciado como uma extensão de nossa personalidade. Quem nunca se deparou com um comentário raivoso porque “estão falando mal do meu jogo!”? Calma, jovem, vamos conversar. O jogo não é seu, você não é o designer, e mesmo que fosse, ninguém é obrigado a gostar. A pessoa não gostou do jogo, não de você, ela nem te conhece, não chupou laranja contigo quando vocês eram crianças. Não misture as coisas…
É bom gostar de algo, isso aquece nosso coração, traz um propósito para nossa vida, constrói nossa personalidade. Não gostar de algo é importante também. Desgostar serve para que valorizemos aquilo que a gente gosta. A gente só sabe dizer o que é bom porque sabe o que é ruim, e vice-versa.
E aqui entra a magia da coisa: o que é bom pra um pode ser péssimo pra outro, e tatu do bem. A internet é uma ferramenta poderosíssima para unir e dividir as pessoas, e isso normalmente ocorre por meio da formação de bolhas. Veja que complexo, existem bolhas dentro de bolhas dentro de bolhas.
Estamos dentro de uma bolha, a dos hobbistas de jogos de tabuleiro. Dentro dela, tem a dos eurochatos e a dos americhatos (entre outras). Dentro da bolha dos eurochatos, por exemplo, tem a dos que gostam do euro X e a dos que não gostam, e assim sucessivamente. Quanto mais mergulhamos nessas bolhas, mais validação a gente obtém, e mais nos esquecemos por que estamos nessa bolha e não em outra (repare que isso também funciona para a política, mas não quero tangenciar demais o papo).
E, finalmente, nessa espiral, entramos em uma camada perigosa disso tudo: o limite do respeito. Muitas discussões infundadas que evoluíram em brigas aqui na plataforma ocorreram porque perdemos a nossa consciência de propósito e rompemos a fronteira do respeito. Não era mais sobre o jogo, era pessoal, e racionalmente falando, não faria sentido algum ser pessoal (lembre-se das laranjas na infância).
Em resumo, eu sei que estamos cansados de ouvir mil maravilhas de todos os jogos que tem por aí. Açúcar demais causa diabetes. E não é porque alguém está falando mal de um jogo que essa pessoa está certa, ou falando mal de quem joga esse jogo. Nesse sentido, ao consumir ou produzir um conteúdo (sobre jogos ou não), priorize a substância, a experiência. Elogiar ou criticar sem embasamento não serve pra nada.
Você não precisa ser um especialista para falar de um jogo, nem jogá-lo centenas de vezes. Às vezes, uma partida basta para gerar um conteúdo, desde que você deixe claro que essas são primeiras impressões. A honestidade é o seu melhor recurso para estabelecer conexões reais com quem consome o que você produz. Cansei de ouvir nesta distinta plataforma: “eu gosto de Fulano porque ele fala a verdade”.
Você pode elogiar sem puxar saco de editora, e pode criticar sem perder patrocínio, a diferença está na abordagem. Não use juízo de valor, “esse jogo é ótimo/ruim”, mas segmente seus argumentos: “esse jogo é bom pra quem? Por quê? Com base em quê?”.
Off topic (o texto já acabou, então ignore se não gostar de laranjas): A história das laranjas. Eu sempre falava pra Sra. Perdomo: “eu não sou íntimo de Fulano, não chupei laranja com ele na infância nem nada!”. Essa frase eu absorvi de um vídeo idiota antigo na internet, mais um meme que só eu acho graça e a faz questionar o nosso relacionamento. Ela ouviu isso uma vez, achou estranho. Ouviu a segunda, ficou perplexa. Um dia, ela me colocou em xeque: “com quanta gente você chupou laranja na infância?!”. Pensando bem, nenhuma. “Vida, você tem razão! Mais do que alianças, precisamos selar o nosso relacionamento com laranjas!”. Ela compartilha o mesmo neurônio que eu, achou importante esse rito de passagem e topou. Comprei duas laranjas e as consumimos juntos. Diferentemente do tal vídeo de review gringo, eu nunca vou me esquecer desse momento que compartilhamos, motivado por uma piada idiota. E ali estávamos em um novo estágio do nosso relacionamento, ou pelo menos com um pouco mais de vitamina C.
Até o próximo texto.
Forte abraço,
Cuide da sua vitamina C,
Luis Perdomo