Olá, jovens.
Eu não sabia o que significava Schadenfreude até me deparar com esse jogo alguns anos atrás. De início, o que mais me chamou a atenção nesse jogo foi o fato de ser uma vaza japonesa com roupagem medieval, quase fechando o Bingo do Perdomo, tem tudo que meu lado hipster adora ali. Em um segundo momento, o nome. Que nome pitoresco.
Schadenfreude é um termo alemão que significa “alegria perante o dano”, sentir prazer diante da desgraça, do infortúnio ou do fracasso alheio. Trazendo para o nosso bom português "pimenta nos olhos dos outros é refresco".
Acho que não era bem isso que MC Júnior e MC Leonardo tinham em mente quando disseram “nós com os alemão vamos se divertir!” no Rap das Armas.
Mas voltando, shá-den-frói-da é um jogo bastante peculiar, no mínimo intrigante. Eu não vou torturar você, hater de vazas, então não teremos um Schadenfreude aqui, vamos falar muito mais de sua implementação temática do que das nuances da vaza em si.
Resumidamente: quando um jogador passar de 40 pontos, vence quem ficou com exatamente 40 pontos ou mais próximo disso, sem estourar esse limite.
Não vou mentir, esse jogo tem umas reviravoltas meio caóticas e margem para take that. Normalmente isso me incomoda um bocado, mas dentro dessa perspectiva do conceito de Schadenfreude, faz todo sentido tematicamente, então meus ânimos estão anestesiados dessa vez.
Começa com o fato de o vencedor da vaza ser aquele que jogou o segundo maior valor do naipe liderado. Quem está acostumado com vazas tradicionais sabe que jogar o maior valor do naipe traz uma certa segurança, dificilmente você vai perder essa vaza (a menos que alguém jogue um trunfo inesperado). Em Schadenfreude é o contrário. Jogando o maior valor, dificilmente você vai vencer essa vaza. Já começa bugando a sua cabeça e desconstruindo todos os vícios de jogada que você tem dentro do gênero.
Como se não fosse suficiente, ao vencer a vaza, você coleta a carta que você jogou e todas as cartas jogadas fora do naipe. Em uma vaza normal, não poder seguir o naipe costuma ser uma jogada meio morta, você está só limpando a casa e se livrando do lixo na sua mão. Nesse jogo não. Deixar de seguir o naipe oferece uma margem para a maldade absoluta, porque você pode empurrar o amiguinho lá pra frente e fazê-lo estourar.
“Hm… não tenho o naipe… toma 9 pontos aí para você ficar mais perto dos 40!”
“Te odeio, jovem!”
“Schadenfreude!”
E como se esses plots já não fossem mais do que suficientes para o completo xablau. Quando você obtém duas cartas de mesmo valor na sua pontuação, elas se cancelam. Então ainda resta um pouco de esperança para aquele jovem que acha que vai fazer 30 de 40 pontos logo na primeira rodada. Você pode cancelar aquele 9, é só tentar pegar outro 9. Cuidado com o que você descarta, jovem.

Lembra que eu falei que ao jogar a carta de valor mais alto nessa vaza, muito provavelmente você não vai vencer? Então, sempre tem um Schadenfreude para te deixar com a pulga atrás da orelha. Você pode vencer sim, o jogo tem um único 10, e ele é coringa. Você não está seguro nem com a carta normal mais alta. Até esse 10 sair, prevalecerá aquela paranoia de “vai quê…”.
E repare no requinte de crueldade, as cartas iguais se cancelam na sua pontuação, mas só tem um 10. Logo… o 10 não é cancelado! Você é o pai! Pega que o filho é teu, meu chapa!
O mesmo vale para o outro curinga, o 0. Ele não é tão impactante em termos de pontuação, mas pode causar um estrago no sentido reverso. O 0 garante o estado de paranoia do outro lado da gangorra. Você acha que está jogando a carta de valor mais baixa, mas aí chega o 0 e muda tudo. Os valores das cartas normais em Schadenfreude são -3, -2. -1, 1, 2, 3,..., 7, 8, 9. Sim, jovem, tem carta de valor negativo também. O que pode ser bom ou ruim de pontuar, depende da perspectiva.
Eu falei que não ia focar na vaza, mas menti. Schadenfreude, hahaha. Brincadeira, não foi intencional (sei, sei… ¬¬). Ficaria abstrato demais focar só no conceito do jogo sem explicar um tiquinho da mecânica.
Resumidamente, Schadenfreude não é um jogo para ser levado a sério, ele beira um party game. A falta de controle, a desconstrução da vaza, a possibilidade do take that a qualquer momento… se você tentar jogar isso competitivamente, só terá frustrações, e os outros jovens vão rir de você. Schadenfreude!
O mais divertido é como a postura muda rodada a rodada. Imagine que todos os outros jogadores passem de 40 e você tem 0 ponto. Parabéns, você venceu. Então é aquela aflição de querer chegar bem perto do sol, mas não muito (e empurrar com força o jovem que está logo atrás para que você possa ficar em segundo e obter a glória).
Estou perto demais do limite? Então eu vou jogar para perder e para que uma pessoa específica pontue o máximo possível. Estou perto demais do começo da trilha? Hora de fazer alguns pontinhos, pero no mucho.
Schadenfreude infelizmente ainda não foi lançado no Brasil, e isso não é motivo para rir da tristeza alheia. É bem de boas emular esse jogo em um PnP, são apenas cartas com naipes e números. Mas, para não ficar só na abstração e trazendo um pouco mais para nossa realidade, o sentimento que eu tenho em Schadenfreude é algo parecido ao que acontece no Pega em 6. É bullying com números. Você quer sempre estar em uma posição confortável, mas muitas vezes não terá controle da situação, sempre tem aquele espírito de porco.
Se você gosta de controle, previsibilidade, calcular cada movimento, esse jogo não é pra você. Eu normalmente sou assim, mas para Schadenfreude eu abri essa exceção. É divertido desligar o cérebro entre um euro e outro e falar “que se dane, agora toma essa!”. Não precisa ser com Schadenfreude, esse é o jogo que ficou na minha coleção pessoal ocupando essa categoria, mas tem vários jogos assim no nosso mercado.
Forte abraço,
Até o próximo jogo.
Luis Perdomo