Olá, jovens.
Como uma criança que cresceu nos anos 90/2000, eu fui altamente influenciado pelo soft power japonês na forma de seus animes que passavam na televisão. Entretanto, eu nunca dei muita bola para a figura do samurai, eu curtia mais os ninjas ou simplesmente um super sayajin apelão que gritava, voava pra todos os cantos e soltava poderzinho com as mãos porque sim (eu ajudei TODAS AS VEZES na Genki Dama… de nada!).
Só depois de adulto que eu passei a me interessar mais sobre o tema. Samurai Jack (não é anime, eu sei), que eu achava horrível quando criança porque não compreendia sua estética, ficou muito mais interessante depois de adulto. Samurai Champloo eu já assisti algumas vezes (que trilha sonora, RIP Nujabes). Mas o que me pegou mesmo foi Vagabond, que obra prima transcendental, mesmo sem finalizar, vale cada página.
Este comecinho de texto foi só para fazer graça e algumas recomendações, o jogo em si não tem tema, estamos falando de mais um dos clássicos abstratos do Dr. Knizia. A história de hoje se assemelha à história do tijolo lituano. Sim, jovens, nessa longa trajetória, o raio já caiu várias vezes no mesmo lugar. Como de costume, tudo começou com mais um impulso consumista...
Tigris & Euphrates é considerado a obra prima do mestre, então eu estava bem entusiasmado para conhecer Samurai, que infelizmente estava Out of Print. Conhecemos o drama. Todas as vezes que eu encontrava esse jogo à venda na Ludopedia, estavam pedindo um valor muito alto, aproveitando-se do seu atual estado de escassez. Deixei pra lá. Até que um dia apareceu um gringo vendendo uma cópia barata no BGG, e era a versão que eu queria, com a arte retrô e as pecinhas que se parecem balinhas.
Bom, estava “barato”, então se vier um tijolo alemão, o prejuízo não terá sido imenso. Objeto postado, tudo certo. Acompanhando diariamente para ver o seu progresso e então “o objeto retornou ao remetente”. WTF?! Essa era novidade pra mim. Falei com o jovem, ele disse que houve algum problema nas dimensões da caixa, não me lembro bem. De fato, a versão original do Samurai tem dimensões incomuns (próximas da caixa do Concordia). Seja lá o que tenha acontecido, o jovem enviou de novo, tudo certo.
Tinha um anúncio no meio do caminho, no meio do caminho tinha um anúncio. Nesse meio tempo entre o objeto voltar e o jovem o reenviar, pipocou um anúncio na Ludopedia com a mesma versão que eu queria do jogo. Impulsivamente, na base do desespero de quem precisava daquilo para viver, comprei aquele também e pensei comigo mesmo “qualquer coisa, eu revendo uma cópia!”. Muito perspicaz da minha parte, não é mesmo?
O Samurai brasileiro chegou primeiro. O Samurai alemão chegou ao Brasil, passou na alfândega, tudo certo, até que chegou no Triângulo das Bermudas, sim, minha querida cidade São Gonçalo, que testa os limites da minha resistência espiritual. Ele foi “entregue” na agência de distribuição. Pelo menos desta vez, diferentemente da outra ocasião, tinha um endereço para onde eu pudesse ir e resgatar a minha encomenda. Fui até lá no dia seguinte, e felizmente deu tudo certo, peguei o jogo, não era um tijolo alemão.
Bom, agora eu tinha 2 Samurais, e como havia antecipado, vendi um deles e recuperei (parte d)o dinheiro.
Situação resolvida, apenas 1 Samurai agora e posso relaxar:
Aaaaaaaaaaai, mas eu tô tão feliz. Vou jogar Samurai.
Sobre o jogo em si, vou falar pouco, por isso essa ladainha toda no começo para encher linguiça (desculpa, jovens). A verdade é que eu ainda joguei pouco Samurai, toda essa história aconteceu num período de mudanças. Preciso colocá-lo mais na mesa da nova casa. Sim, eu vida loka total importei um jogo sabendo que ia me mudar em breve (mas deu tudo certo). Então aqui vão minhas primeiras impressões.
Não esperava menos de um dos clássicos do Knizia, tem muito do DNA dele ali. Poucas regras, muitas possibilidades, e decisões angustiantes. O sistema de pontuação dele pode não ser muito intuitivo no começo, mas para quem está acostumado com os designs dele, não é nada demais. Ainda não aconteceu, mas eu gosto muito da ideia de tentar forçar um empate para acionar o gatilho de final de partida alternativo. Por enquanto joguei só com a mão aleatória, mas achei muito interessante essa ideia de poder escolher a mão inicial e deixar o resto na sorte.
Para quem nunca jogou Samurai, resumidamente é um controle de área em um tabuleiro com espaços hexagonais no qual estamos cercando peças do tabuleiro com as nossas peças individuais. Quando uma dessas peças do tabuleiro fica completamente cercada pelas peças dos jogadores (em terra, não necessariamente pelo mar), avalia-se quem ficará com a peça do tabuleiro. Aí é uma maioria simples, quem tiver mais leva, se não houver maioria, a peça do tabuleiro é deixada de lado.

As peças individuais são hexágonos com tipos e valores, e esses tipos coincidem com as peças que estão presentes no tabuleiro durante a preparação. Ao colocar uma peça adjacente à peça do tabuleiro, considere seu valor apenas se o tipo coincidir. E é isso, estamos tentando capturar essas peças, bem abstrato mesmo. A partida termina de duas formas: quando pelo menos um tipo de peça acaba no tabuleiro ou quando quatro peças foram deixadas de lado por conta da regra do empate.
Para pontuar, você tem que ter a maioria de pelo menos um dos três tipos de peças. Se você tiver duas maiorias, a vitória é imediata. Se cada jogador tiver uma maioria diferente (o que é mais comum), o desempate é contado usando os outros dois tipos de peças desses jogadores. Ou seja, é aquela coisa do Knizia de “tem que fazer um pouquinho de tudo”. Em outras palavras, se você já tem uma maioria (já é quase garantido que você vai pontuar no final da partida), é hora de focar nas outras peças, mas obviamente todos estão fazendo o mesmo. Todos os jogadores eventualmente usarão as mesmas peças individuais, só muda a ordem em que elas são compradas e jogadas.
Além da pontuação diferenciada e do fim de jogo prematuro devido a quatro disputas empatadas, outro detalhe que eu curti muito são as peças rápidas. Por padrão, você joga uma peça por vez, mas tem umas peças que você pode jogá-las como uma ação livre. Normalmente elas valem menos que as peças “lentas”, mas às vezes não importa tanto o valor, o que realmente importa é impedir que o seu oponente coloque uma peça ali, você só quer contornar a peça e preencher os espaços, custo de oportunidade. Tem umas peças com efeitos especiais, que permitem que você troque duas peças de lugar; os Samurais, que dão nome ao jogo e agem como curingas para todos os tipos de peças disputadas; os barquinhos que, diferentemente das demais peças, são colocados no mar e também contam para a disputa sem preencher os espaços de terra. Enfim...
Nenhuma firula muito tecnológica, tudo faz sentido na mesa, tudo é funcional e com altas possibilidades táticas para ambos os lados: você sabe que pode fazer isso e sabe que seus oponentes também. Muita tensão no ar, mesmo sendo abstrato, eu me senti num campo de batalha.
Resumo da ópera: realmente um clássico no Knizia. Vale a pena pagar um rim em um leilão superfaturado na Ludopedia ou arriscar uma importação? Não. Tem vários abstratos bons por aí, e acho um crime Tigris & Euphrates ter flopado. Se você não curte abstratos com controle de área, provavelmente esse jogo não vai te convencer do contrário.
Até o próximo jogo.
Forte abraço,
Luis Perdomo