Existe algo muito satisfatório em realizar um combo. É como obter um código de trapaça que só você é capaz de ler ao analisar as cartas na sua mão, burlar o sistema, 1 + 1 = 3: o todo é maior do que a mera soma das partes. É o efeito Eureka!
Agora imagine um jogo em que TUDO É COMBO. Legal né? Ou talvez saturado demais? Água demais mata a planta? Vamos descobrir.
Fantasy Realms é um jogo em que mal ou bem, tudo comba. Alguns combos são óbvios, alguns são melhores do que outros, e alguns são anticombos: você não quer essas cartas juntas, ou o efeito é negativo.
A sua mão de cartas está praticamente se jogando para você. É um exercício de otimização scriptado lançado à própria sorte. Você compra uma nova carta, avalia sua mão, escolhe a pior delas para descartar e segue adiante. Quando o descarte ficar cheio, a partida termina, simples assim. Quem combar melhor até lá vence.
Combos são divertidos, mas não tem graça nenhuma quando o combo é autoexplicativo, principalmente quando o jogo é tão randômico: você precisa da carta X, mas ela não veio, perdi.
No entanto, eu ainda gosto de Fantasy Realms. O todo é maior do que a soma das partes, lembra? E isso vale para o próprio jogo em si. É aquele jogo que eu posso até perder, mas eu fico satisfeito porque eu fiz o meu melhor ou arrisquei tudo na expectativa de comprar aquela carta que venceria tudo. Não é sobre comprar a carta e vencer todas as vezes, mas sobre preparar o terreno para que potencialmente isso aconteça, e quando acontece, isso é o que chamamos de satisfação.
E quando não acontece? Oras, o jogo é tão simples, tão rápido, tão dinâmico, que não dá nem tempo de se frustrar. Imagine que você levou 8 horas num jogo pesado para no final decidir tudo em uma rolagem de dados. Muita tensão envolvida, mas certamente muita frustração para o lado derrotado, dado todo o investimento emocional, de tempo e energia. Mas uma partida de Fantasy Realms dura alguns minutos com jogadores experientes que já conhecem as cartas, e também não é difícil de aprender, as regras são mínimas, as cartas são simples.
Quem já teve um momento designer amador e pensou em algum jogo que gostaria de criar sabe o quanto é difícil trabalhar em sinergias. As coisas saem do controle muito facilmente, algo fica forte demais, ou totalmente descartável. Eu imagino a quantidade de fios vermelhos presos com imagens na parede que o designer teve que usar para equilibrar isso tudo. Fantasy Realms é uma aula de design de sinergias. Ele oferece possibilidades suficientes para que uma mesma carta trabalhe em várias combinações, umas aparentemente melhores do que as outras em um primeiro momento, mas vai que eu compre aquela carta... Mais ainda, será que eu posso descartar essa carta para o meu oponente pegar? Existem mais camadas em Fantasy Realms do que presume a nossa vã filosofia.
Pode ser que você não goste de Fantasy Realms porque é muito formulaico, muitas contas, tem que usar um aplicativo para calcular a pontuação final, qualquer coisa nessa linha, e tudo bem, eu entendo e respeito isso (mas uma pena, sério).
A meu ver, Fantasy Realms é uma gema perdida, altamente subestimada. Eu tenho algumas dezenas de partidas desse jogo e, mesmo caçando os mesmos combos, nunca me enjoa. Desde que eu comecei o meu processo de desapego há 2 anos atrás, vendendo centenas de jogos (usei inclusive aqueles sites de geração de listas para avaliar o que ia e o que ficava) havia alguns jogos que eu sempre soube que ficariam, e um deles era o Fantasy Realms.
Agora é o momento que eu vou falar um monte de clichês, mas é verdade esse bilhete, então fica o alerta de gatilho de clichês:
É um jogão numa caixinha.
É… elegante (DEUS, COMO EU ODEIO ESSA PALAVRA NESSE HOBBY! TÃO SUPERUTILIZADA QUE PERDEU O SEU VALOR! Respira, jovem, respira… 1… 2… 3… tá tudo bem, tá tudo bem… pronto, passou…).
Mas sim, dependendo do seu ponto de vista, pode-se dizer que é um jogo elegante em virtude da sua profundidade tática frente à quantidade mínima de regras. Ou não, se você considerar que cada carta apresenta uma “regra” diferente. O fato é que ele realmente entrega muito com pouco, resta saber se o pacote é do seu agrado ou não.
E a expansão?
Faz tanto tempo que eu não uso que eu vou ficar devendo. O jogo é tão redondinho que se melhorar, estraga. Mas eu gosto muito de jogar com as promos (a Fênix e o Bufão).
Falando em promo, aqui vai uma palavrinha do nosso patrocinador…
Zoeira, jovens. Os textos deste canal são feitos de coração, como mencionei anteriormente, a ideia é falar dos jogos que eu gosto e pronto. São jogos que eu tenho há um tempo e/ou que eu já joguei uma quantidade substancial de vezes.
Mas esse jogo em particular tem uma história fofa que restaura a minha fé na humanidade, sem brincadeira agora.
Não nego, ainda tenho um pouco de colecionismo, apesar da eterna batalha espiritual entre consumismo e desapego dentro de mim. Aqui vai mais um clichê: eu já jogava Fantasy Realms quando tudo era mato, antes de ele vir para o Brasil, e eu fiquei muito feliz quando esse jogo finalmente foi lançado aqui, porque mais pessoas poderiam sentir essa emoção que eu sinto ao jogá-lo (ou não : P).
Mas faltava algo, e o meu lado colecionista não me deixava esquecer. Era a promo do Bufão. A promo da Fênix eu já tinha, essa era fácil de achar no BGG market na época, mas a do Bufão era complicada: ou era vendida em um idioma impronunciável e teria que decorar o efeito da carta, ou eles simplesmente não enviavam para o Brasil.
Um dia, eu encontrei um jovem aleatório no BGG vendendo a promo em inglês e disposto a enviar para o Brasil S2. Só tinha UM problema: o envio era sem código de rastreamento, ou ficaria inviável mandar apenas uma simples carta com um frete estratosférico. Logo pensei, é bilada, Cino. Desisti da compra, não valia a pena.
Um mês depois, eu vi outro jovem vendendo a bendita promo em inglês e disposto a enviá-la para o Brasil S2 S2!!!
E era exatamente o mesmo jovem da primeira vez, mas a minha memória era uma porcaria. Ele até achou graça. “Dude, você me mandou essa mesma mensagem 1 mês atrás!”.
Mas então tomei coragem e pensei “quer saber? Na pior das hipóteses, perdi o dinheiro de um lanche na esquina”. Comprei a tal promo, ele disse que enviou. Nem fiquei pensando sobre, não tinha rastreamento, simplesmente decidi esquecer e seja o que Deus quiser.
Passado mais um mês, eu já havia me esquecido por completo da promo, encontrei outro jovem no BGG vendendo a promo e fui falar com ele…
Brincadeira. Na verdade, eu recebi um envelope embaixo da minha porta. De início, achei que fosse uma conta pra pagar ou um comunicado do condomínio, até eu virar o envelope e ver que ele vinha dos EUA. Na hora, eu fiquei desacreditado “não é possível, deve ser uma foto do Ricardo Milos rindo da minha cara, esse gringo me trollou”. Mas era a promo! E um cartão postal fofíssimo que eu uso de marcador de página até hoje.
Fé na humanidade restaurada!

O tal cartão postal. Sempre que eu olho para ele ou jogo Fantasy Realms, eu me lembro dessa história. [off topic total]: Rooster Fighter é MUITO BOM hahaha, é tão ruim, mas tão ruim, que fica maravilhoso. Eu tenho um gosto muito duvidoso para mangás, apesar de gostar dos clássicos (Berserk, Vagabond, Monster etc.). Eu comecei lendo esse aí pela zoeira, mas agora estou verdadeiramente engajado na história, está muito interessante, enfim…
Não deixe o meu gosto duvidoso de mangás ofuscar minhas análises de jogos de tabuleiro.
Agora a pergunta de 1 milhão de dólares: você precisa dessa promo para jogar? Definitivamente não, ela é totalmente esquecível e passável, mas pelo menos eu tenho essa história para compartilhar com vocês, jovens.
Forte abraço e até o próximo jogo da minha coleção.
Luis Perdomo