iagothal::
As editoras nacionais tratam o cliente como uma piada: oferecem um produto premium e simplesmente C@G#M na nossa cabeça na hora de dar suporte e continuidade a um produto que elas mesmas já venderam.
No fim das contas, não é sobre preço, nem sobre logística, nem sobre “limitações do mercado brasileiro”. É sobre escolha, e a escolha foi ignorar quem já apoiou o jogo desde o começo. Quem comprou a Big Box, confiou na editora nacional, mas está sendo tratado como consumidor descartável. Enquanto lá fora o consumidor tem opções, aqui ele recebe um ultimato: compre tudo de novo ou fique sem.
E depois ainda se perguntam por que tanta gente prefere importar, comprar na Amazon (sim, todo mundo sabe do dano que eles causam ao comércio local), apoiar campanhas internacionais ou simplesmente desistir das versões nacionais.
Caro
iagothal
Eu concordo totalmente com o seu posicionamento, mas para ser sincero, nem dá para se espantar. O que causaria espanto seria se a Grok adotasse uma postura oposta àquela que foi adotada. Não custa lembrar que a mesma Grok elogiada por ter consertado o Ark Nova, é a mesmíssima Grok que só consertou o Ark Nova porque foi forçada a isso. Se não fosse a imensa repercussão negativa, causada pelas péssimas condições do jogo e pelo erros inacreditáveis com que ele foi lançado, a coisa teria ficado por isso mesmo, e sem conserto. Inclusive, um representante da Grok teve a audácia e cara-de-pau de dizer em uma live, que só houve problema em meia dúzia de cópias, que foram as únicas em que houve reclamação no SAC da editora. Então dá para entender perfeitamente essa escolha da editora em relação à expansão do Trickerion.
Veja bem, já é consenso que o mercado nacional de jogos de tabuleiro moderno, é baseado no "culto ao novo", vitaminado pelo HYPE e o FOMO. Em outras palavras, o fato do jogo ser bom, ou não, é secundário em relação ao fato dele ser recém lançado. Passa um ano do lançamento, esse jogo que era o "melhor jogo de todos os tempos" na época do lançamento, se torna "notícia velha". Porém o que nem sempre as pessoas se dão conta são das implicações subjacentes desse "culto ao novo. Essa estrutura de mercado é incentivada e amplamente promovida pelas editoras, mas é mantida pela comunidade compradora de board games. Basta pensar que os relatos de uma centena de jogadores mais antigos alertando sobre o consumo consciente dos jogos tem um efeito muito menor, praticamente pífio, se comparado com um único anúncio (que às vezes nem se concretiza) do último "queridinho de Essen". Dessa maneira, como eu já disse outras vezes e não me canso de repetir, porque isso é realmente importante, a política de "culto ao novo" faz com que as editoras nacionais de jogos lancem jogos-projeto e não jogos-produto, que são coisas diferentes.
Um jogo-produto é um jogo que a editora lança e quer continuar vendendo por décadas, os famosos "evegreen". Esse é inclusive o modus operandi das grandes empresas de jogos Grow e Estrela, que fidelizam a clientela e lançam praticamente o mesmo jogo já há décadas (Banco Imobiliário, WAR, Detetive, Imagem & Ação, Perfil, Scotland Yard, etc). O problema é que isso só acontece no cenário nacional de jogos modernos com alguns party games e alguns raríssimo jogos família campeões de venda. Estamos falando de jogos no patamar do Dobble, do Coup, do Azul, do Pandemic, do Ticket to Ride, do Codenames, do Carcassonne e por aí vai. Esses jogos estão sempre sendo produzidos e têm material extra e expansões sendo lançadas.
Um jogo-projeto é um jogo que a editora nacional de jogos modernos lança, faz uma única tiragem e nunca mais lança nada. A editora se programa para lançar uma quantidade específica de cópias, faz um marketing agressivo, focado principalmente nos eventos de spoiler e na nossa mídia audiovisual. Depois a editora organiza uma campanha de pré-venda, coloca o jogo à venda nas lojas e no DOFF, passa alguns meses reduz o preço e toma mais marketing agressivo. Se depois disso tudo ainda sobrar alguma coisa para vender, ela desova tudo na Black Friday. Ao final de todo esse processo, aquele projeto se finaliza, o jogo vira passado (provavelmente nunca mais virá nenhum material extra), e a editora passa a focar no próximo projeto. Essa é a forma como a maioria das editoras nacionais de jogos modernos age. A exceção é se for lançada uma Big Box dependendo do jogo, ou se o jogo for um sucesso estrondoso de vendas, caso em que algumas expansões são lançadas, de repente pinta uma edição de aniversário, ou algum material extra aqui e outro acolá. Mas nem sempre isso ocorre, mesmo o jogo vendendo bem. Dois exemplos são o Heat e o Stone Age. Ambos foram lançados e venderam bem, só que o sucesso do Heat, aparentemente foi maior. Desse modo, o Heat já teve a expansão Heavy Rain lançada e certamente vem mais material por aí. Já o Stone Age só veio o Stone Age Júnior, mas nem a expansão Style is the Goal e nem a edição de aniversário com a Ice Age, deram a caras por aqui e nem vão dar.
No caso do Trickerion, a Grock lançou a Big Box sete anos atrás e de certa forma deixou o jogo para lá. Em outras palavras, se você comprou o jogo bom para você, se você não comprou, azar o seu, a editora está cagando do mesmo jeito, porque o jogo esgotou, pronto e acabou. Se houvesse alguma intenção de fidelizar o cliente e fazer com que ele continuasse comprando esse produto da editora, não tenha dúvida de que ela traria as duas opções: comprar a Anniversary Edition para quem não comprou a Big Box, ou para quem já tem a Big Box comprar apenas o Upgrade Pack, com a expansão. Isso é o que está ocorrendo no mundo todo, conforme você bem destacou. Mas na contramão disso, a Grok encara essa nova oportunidade de "relançar", digamos assim, o Trickerion com a edição de aniversário, focando em quem não comprou a Big Box e agora terá de pagar muito mais caro. Quanto a quem já comprou a Big Box paciência! O sujeito ou compra só a expansão importada em separado e em inglês, ou se vira para vender a Bigi Box para algum incauto, e gasta mais uma pequena fortuna pra pegar a Anniversary Edition. Na minha opinão, isso é uma desconsideração sem tamanho para quem apoiou a empresa comprando a Big Box.
Resumindo, para a Grok o Trickerion Big Box foi um jogo projeto que terminou, e agora o Trickerion Anniversary Edition é um novo jogo-projeto, como se não houvesse nenhum vínculo entre esses dois lançamentos.
Infelizmente essa é a realidade do nosso mercado nacional de jogos de tabuleiro modernos, e quem estiver descontente que vá caçar um outro hobby. Outra opção é se contentar com algum jogo similar (se houver) no mercado de usados. De um modo, ou de outro, a verdade é que as editoras não estão nem aí, nem mesmo para quem compra seus jogos regularmente. É triste, mas é o que temos para hoje, e para muitos anos vindouros no cenário nacional de board games.
Conforme você resumiu muito bem no título do tópico falta de suporte não é acidente, é uma escolha deliberada da editora.
Um forte abraço e boas jogatinas!
Iuri Buscácio