É muito curioso quando vc recentemente pensa em um assunto e encontra uma discussão muito bem construída sobre isso e esse foi o caso nesse episódio. Queria parabenizar por esse episódio e dar alguns pitacos e experiências sobre.
Já de antemão vou me posicionar que sou mais do time do André. Eu vejo diversão no planejamento e estruturação de raciocínio e competitividade (coisa que vou falar mais a frente) mas para mim um jogo tem que ter algum fator de aleatoriedade/caos para me entregar mais diversão. Eu disse que o assunto veio esses tempos para mim quando joguei alguns jogos de cartas em que as informações são todas dadas (o jogo foi ghost of christmas e o fantasmagoria, do Fratini). Nesses jogos contar cartas faz com que você tenha controle e previsibilidade do que ainda tem em jogo para montar estratégias. Assim como no santorini e xadrez, é super justo. Porém enfrentar isso sem estar disposto a essa proposta traz um desgosto muito grande, eu diria que é uma sensação de ser atropelado, como em outros jogos. O que não me traz diversão. Talvez em jogos assim, seja mais interessante já avisar que a proposta é essa, assim quando vc usa um deck competitivo em magic, no qual a sua proposta é diferente de se jogar em uma mesa de decks pre construidos.
Como jogos são jogados por pessoas e pessoas são diferentes e tem reações diferentes, imagino que toda pessoa comece jogando buscando por vencer. Mas quando uma pessoa se coloca mais obsessiva pela vitoria, cria-se entre as pessoas da mesa o objetivo de impedir que essa pessoa vença (pq todo mundo quer vencer e essa obsessao afasta a vitória dos outros) e gere o sentimento de "objetivo realizado" ao impedir essa pessoa. Talvez seria um anti "king making". Para a pessoa que recebeu esse alvo pode ter sido uma experiência péssima, mas para o resto da mesa houve diversão. Dito isso acho muito necessário o balanceamento da mesa e do jogo escolhido, com base na experiencia de quem vai jogar, para que se tenha mais diversão para todo mundo. Senão acontece esses amassos ou a galera juntar em alguem. Ou mesmo a postura da própria pessoa, saber quando não acelerar e jogar mais hard.
Outro exemplo é se aproveitar das situações geradas pela aleatoriedade só para conquistar a vitória oprimindo. Como uma vaza que se jogue e abra uma mão com todas as cartas mais fortes. Acontece, mas em alguns casos gera uma frustração no resto da mesa. Tudo também vai da postura de como se joga para saber proporcionar uma experiência mais prazerosa para todos, mesmo buscando a vitória.
Isso também tem relação com o game design. E os criadores de jogos tem responsabilidade em como propõem seus jogos. Em jogos como carteados eu prefiro muitas vezes criar um jogo com cartas que são removidas secretamente para gerar uma quebra na conta do que jogos com todas as informações do que criar um jogo com informações abertas que não tenham uma proposta ou mecânica que dinamize essas informações (um exemplo disso é o fuji flush. Cartas conhecidas mas a dinâmica faz com que a contagem não seja um fator que tire a diversão como um todo). Outro exemplo em outro campo são euros que tenham um baralho que aleatorize (as vezes fazem o mesmo papel de dados rolados, mas tem muita gente que não estão prontas para essa conversa) ou formas de esconder a informação para que se crie efeitos surpresa e exijam formas de se enfrentar essas situações. Não necessariamente como os jogos que já foram colocados de decisões imediatas mas sim de forma mais construida. E em todo esse compêndio acredito que a criatividade do game design pesa.
Outro exemplo que costumo usar para dizer sobre caos e diversão é o Survive the island. O jogo todos buscam a vitória, mas impedir de pessoas salvarem meeples podem fazer você ganhar e geram caos no jogo. Isso me traz diversão. Mas para muitos não traz. Thunder road vendetta, wandering towers, colt express... São jogos que usam do caos para trazer essa suposta diversão. É claro que usar da memória traz a segurança e garante diversão para os pesadeiros mais raiz, mas como minha memória é uma merda, aumenta mais a minha diversão rs.
Sobre pessoas se sentirem seguras e acharem divertido quando o jogo exige mais escolhas acertadas, isso em videogames se permeou quase que na raiz, onde muita gente acha que os jogos mais dificeis, como souls like, sejam mais divertidos e coops locais, como overcooked, acabem perdendo espaço. Essa mesma lógica vem pro mundo do BG, como um cara que fala que o melhor jogo do ano é um Seti da vida e diz que um 10º colocado é um hitster que conseguiu por pai, mãe, tio, que nunca se interessaram por jogo participar de uma mesa e foi uma experiencia transformadora. O que é diversão para essa pessoa? O que é uma boa experiência? O viés do euro complexo e pesado ainda tá muito enraizado. O fora do controle, a falta de segurança podem ser ricas, jogos coop em que todo mundo precise vencer juntos pode ser divertido (the gang mostra que não é só o poker normal que pode ser legal).
Por isso me posicionei como do time do André em partes, não desprezando a construção de jogos de um euro pesado nem a magnificiência da aleatoriedade de um carteado bem feito, como os do Shinzawa. Mas sempre me divertindo, explicado jogos como se fossem histórias, participando da catarse do que os jogos nos proporcionam. Se sou um ET, sou um ET, se tenho de blefar, faço da melhor forma que puder. Dá pra jogar bem jogos e ainda não levar isso tão a sério. Pq senão qual a graça?
Abraço galera, e valeu pelo episódio e poder participar posteriormente, escutando e comentando!