Por: Linauro. Apaixonado por literatura, música e jogos, desde sempre. Descobriu nos jogos de tabuleiro uma desculpa perfeita para passar mais tempo com amigos e pessoas amadas.
Faz um tempo que não faço entrevistas aqui no canal e o retorno não poderia ser melhor.
Novamente por aqui
valter_bispo, dessa vez para falar do seu lançamento
Roda de Samba, um
card game leve no qual os jogadores precisam atrair grandes sambistas para a sua região e torná-la famosa. No fim da partida, vence a roda de samba com mais fama. O jogo está atualmente em financiamento coletivo pela
Meeple Starter, até o dia 31/12, tendo já alcançado sua meta de financiamento. Espero que vocês curtam a entrevista e deem uma olhada no financiamento coletivo, que está bem legal!
(Protótipo)
Segue a entrevista, na íntegra:
1) Valter, seja bem-vindo novamente ao canal! Poderia falar um pouco sobre sua carreira como game designer?
Sempre fui apaixonado por jogos e, dentre eles, os de tabuleiro. Isso me fez querer criar jogos a partir de 2012, no final da minha graduação em design pela Puc-Rio. Mas foi só em 2018 que me aprofundei nos estudos de game design, tirei da gaveta o protótipo do meu primeiro jogo e comecei a levar nos eventos.
O jogo era o Quilombolas: O Refúgio dos Palmares, que ainda não tinha esse nome, e a repercussão que ele teve foi estrondosa. Não havia muita coisa parecida com ele no mercado, em termos de temática, que enfatizasse a história do Brasil através de um explícito protagonismo negro. A minha intenção a princípio nem era essa. Foi o meu professor, lá em 2012, que me instigou a criar um jogo que trouxesse alguma reflexão social além da própria mecânica em si e eu não imaginava que fazer um jogo sobre quilombo seria tão disruptivo assim. Isso me fez concluir que havia uma lacuna no mercado: a falta de jogos que representassem a história e a cultura do Brasil e, mais ainda, que fizessem isso colocando a negritude em primeiro plano.
A partir disso, em 2020, resolvi novamente trabalhar em cima dessa lacuna e decidi criar um jogo sobre samba. A ideia agora era fazer de modo intencional o que antes eu tinha feito por acidente. Então eu falaria mais uma vez sobre a história do Brasil através de personagens negros reais e suas vivências. Foi assim que surgiu o Roda de Samba.
Em paralelo a isso, nos últimos anos trabalhei também no desenvolvimento de jogos sobre divulgação científica e saúde para a Fiocruz.
(Protótipo)
2) Poderia falar um pouco sobre como surgiu a ideia de um board game que retrata uma Roda de Samba, com a participação de sambistas ilustres?
Além do que eu já disse acima, que foi a minha inspiração inicial, me lembro de jogar Splendor, olhar para os nobres daquele jogo e pensar: "e se esses nobres fossem brasileiros, como seriam? Se fosse um jogo sobre samba, quem seriam esses nobres? Seria tipo uma velha guarda de escola de samba?".
A partir disso, os nobres viraram sambistas, as joias viraram instrumentos e as fichas passaram a ser cartas. Eu tinha o entendimento de que esse jogo precisava ser mais simples do que o Quilombolas, tanto em termos de regras quanto para fins de produção.
3) Poderia resumir o funcionamento do Roda de Samba?
Cada jogador monta uma roda de samba, baixando instrumentos em roda numa região importante para a história do samba (Pedra do Sal, morro da Mangueira, Lapa...). Com isso, atraem grandes sambistas para a sua região que vai se tornando famosa (imagina poder chamar uma Leci Brandão ou um Arlindo Cruz para a sua roda rs). No fim da partida, a roda de samba mais famosa da cidade vence.
(Protótipo)
4) A cultura afro-brasileira é uma constante em seus jogos, poderia nos falar um pouco sobre a importância da temática?
Eu acredito que é possível fazer jogos sobre qualquer coisa, contanto que haja respeito e bom senso. Partindo dessa premissa, há anos eu venho questionando por que temos tão poucos jogos que falem sobre nós. E quando eu digo nós, estou falando do Brasil inteiro mesmo e, obviamente, a negritude inclusa com a sua criatividade e potência cultural.
O Brasil é gigante, nosso povo é diverso, nossa cultura é riquíssima na música, na dança, na culinária, nas festas e em mais um monte de coisas. Nossa história é marcada por muitos conflitos e nuances dos eixos indígena, africano e europeu. E tudo isso poderia estar representado nos jogos que fazemos.
Eu enxergo que isso nos daria dois benefícios óbvios: teríamos temas diferenciados em relação aos jogos que são feitos no exterior e nossos jogos teriam uma conexão profunda com mais pessoas que não costumam jogar ou que jogam, mas não veem suas histórias representadas ali.
Isso acontece nas partidas do Roda de Samba o tempo inteiro: tem gente que escolhe montar a sua roda em Madureira, por exemplo, porque mora no bairro de Madureira ou muito próximo dali. Esse tipo de conexão não tem como acontecer em um jogo ambientado num país estrangeiro.

(Protótipo)
5) Como estão a experiência e as expectativas com o financiamento coletivo do jogo?
Tenho tido muitos aprendizados. Essa é a minha primeira campanha, feita de modo independente e com uma equipe pequena.
Além disso, estamos propondo um modelo inovador, o que traz desafios extras. O convencional seria as pessoas apoiarem o financiamento para comprar o jogo num modelo de pré-venda. No nosso caso, as pessoas apoiam para que o jogo seja distribuído em escolas e instituições culturais (como museus, escolas de samba etc.) e, dependendo da faixa de contribuição, o apoiador também receberá uma cópia do jogo em forma de agradecimento. Mas, por ser um jogo não-comercial, quando a campanha acabar ele não será vendido por aí. Ou seja, a gente inovou não só com o tema, mas com o modelo de campanha de financiamento também.
Agora, estamos no final da campanha, que se encerra junto com o ano de 2024, no dia 31 de dezembro. Já batemos 140% da meta e destravamos diversas metas extras que vão enriquecer ainda mais a experiência. Isso mostra que realmente havia e há uma lacuna e uma demanda por esse tipo de jogo.
Para quem quiser saber mais e apoiar o projeto, pode acessar a página do financiamento no site da Meeple Starter.
Muito obrigado pela entrevista, Linauro! Um ótimo 2025 para você e para os leitores, e boas jogatinas!
Imagens
Ludopedia.