Essa questão do tema é algo que gera bastante debate e por isso é preciso que a análise traga reflexões e possamos todos contribuir com o debate, sejamos contra ou a favor do tema. Antes de fomentar o debate, quero deixar claro que nunca joguei Mombasa (pelo fato de não ter o jogo nem conhecer alguém que o tenha. Porém tenho bastante vontade de jogar).
Venho refletindo bastante sobre os temas nos jogos, filmes e literatura, mais especialmente pela amplitude a qual se deu a tal cultura do cancelamento. O texto será um pouco longo e trará questões além dos BGs. Ficarei feliz se alguém se dispor a ler. A minha análise terá como base o método socrático (serão perguntas, perguntas e perguntas. Quando achamos que encontramos a resposta, aparecem mais perguntas. A intenção não é ter razão, mas refletir). Vamos lá!
Há um tempo atrás vi uma notícia sobre a proibição da Justiça do RJ quanto à publicação da obra “Mein Kampf” do Hitler. As editoras estariam proibidas de publicar e as lojas de vender a obra do ex-ditador nazista. Isso me trouxe muitas questões internas, inclusive por ser um historiador e pesquisador de obras literárias conhecidas como Literatura de Testemunho sobre o Holocausto. Pra quem tiver curiosidade, eu estudei na minha graduação em História no âmbito cultural a literatura de testemunho, mais especificamente os livros do Primo Levi (“É isto um homem?”, “Os afogados e os sobreviventes”), Art Spiegelman (“Maus”), Anne Frank (“O Diário de Anne Frank”), para citar os mais conhecidos.
Inevitavelmente precisei ler “Mein Kampf” para meu trabalho e o consegui facilmente em um sebo na época (estou falando do ano de 2006). Obviamente que as ideias do livro são perversas, indefensáveis...também devo acrescentar que o livro é ruim, chato e mal escrito de todo modo. Mas claramente é inegável que o livro é de leitura imprescindível aos estudiosos de temas como Nazismo, 3º Reich, Segunda Guerra Mundial e também da vida do ex-ditador. Todos os autores que o biografaram precisaram ler esse livro. Então com a proibição da publicação do livro, como os pesquisadores poderiam se debruçar sobre o tema?
Aí me perguntam: e as pessoas que utilizam do livro para incrustar ideias intolerantes e de violência contra a sociedade, como bem retratado no filme “A outra história americana?”. Bem chegamos a um ponto interessante da discussão. Mas entendo que esse tipo de pessoa já tenha ideias criminosas bem antes de ler obras assim. Na verdade o livro é apenas a bengala, a desculpa, assim como muitos negam a perversidade de criminosos hediondos ao chamá-los apenas de doentes. Não, não são doentes... são perversos.
Stephen King proibiu a publicação de seu livro “A fúria” depois de ataques em escolas estadunidenses e o livro ser encontrado em um armário de um dos suspeitos. O livro, que é uma ficção que conta a história de um aluno que ataca seus colegas em sala, deve ser entendido como apologia? Quem leu o livro entende que não. Assim como os demais livros dele de terror e suspense (inclusive um de violência sexual entre homem e mulher, que foi até mesmo adaptado para a Netflix) seguem sendo publicados e aqueles que o leem devem entendê-lo como o é: ficção. É preciso entender a diferença entre ficção e realidade e que os temas da vida real servem como inspiração para obras de ficção. Só para acrescentar mais sobre o livro de King, ele mesmo escreveu sobre um velho nazista e como ele faz um terrorismo contra um garoto. O conto chama-se “O Aprendiz” e inclusive virou filme com Ian Mckellen no papel do velho. Destaco, Ian Mckellen.
Quanto aos jogos, pensemos: Call of Duty, Medal of Honor, Battefield, Undaunted, Memoir’44 deveriam ser jogados? São jogos que têm como base a Segunda Guerra Mundial (depois fizeram outros contextos, mas sempre com guerra e tiro). Quem leu ou viu filmes e documentários sobre a guerra entende o quão dura ela foi, quantas vidas se perderam, quão brutal ela é. E por que guerra pode ser tema de jogo? Por que matar, tiro e explosão deve ser usado em jogo (seja ele de guerra seja ele de ação)? Não são temas delicados? Se hoje criassem um jogo de videogame ou BG sobre a Guerra da Ucrânia como isso seria visto? Aberração? Estupidez? Insensibilidade? Ou normal? É preciso o distanciamento temporal ou geográfico ou até mesmo identitário para aceitarmos algo como jogável ou repreensível?
Ah, então você quer dizer que poderíamos criar um jogo sobre Auschwitz e administração de campos de extermínio, sejam eles os Lager, sejam eles os Gulags, sejam eles os da Coreia do Norte? Claro que não. Então qual o limite? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Mas para não parecer isento ou deixar que os outros se estapeiem, vou expor o meu pensamento.
Penso que toda obra cultural tem de ser entendida como produto cultural. Assim como em “Pulp Fiction” a linguagem, inclusive de Samuel L. Jackson, seja racista e violenta, não devemos entender o filme como apologia à violência e muito menos ao racismo. E, mais uma vez, faço outra referência. Um jornalista do UOL especialista em automobilismo basicamente relacionou a violência em escolas como consequência a jogos de tiro, como Counter Strike e Call of Duty, em uma coluna na qual ele critica o eSports e seu tratamento como Esporte. Mas então devemos entender o automobilismo, em especial Fórmula 1 e Stock Car, como incentivadores de rachas nas ruas? O Boxe e o MMA como incentivo à violência entre pessoas? E o Velho Oeste que é um tema que teve como pano de fundo a corrida do ouro e a matança de povos indígenas?
Bem, voltamos à minha posição e conclusão: penso que o tema é importante, mas o que mais importa é a forma como o tema é tratado. Não vou dizer como é em Mombasa, pois já disse que não joguei o jogo e muito menos li seu manual. Mas temos que ver como o tema é tratado através do jogo, das suas possibilidades e de suas mecânicas. Inclusive, como um colega postou acima e hei de concordar: os temas de exploração estão sendo transportados para baixo do mar ou em outros planetas de forma a fugir dos julgamentos do twitter. Mas, em sua essência, não deixa de ser um jogo de colonização (imposição da sua cultura, tecnologia e civilização sobre o espaço de outrem, seja ele ser humano ou não. Afinal, desmatamento, exploração petrolífera, queimadas, dentre outras ações também são nocivas a todo o ecossistema). Mas também devemos entender a colonização em todas as suas amplitudes, inclusive como coloca o livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”.
Logo, se mesmo com distanciamento a pessoa sente que o tema a incomoda, então, deve-se entender que tal jogo, filme ou livro não é para ela. E não é porque algo me incomoda que ele deve ser proibido. A proibição deve ser feita por aquilo que infringe a lei, não por meu posicionamento. Reforço que é importante também ter a coerência quanto àquilo que a incomoda. Destaco mais uma vez: estou problematizando a obra como um produto cultural. Não estou falando de atitudes racistas e intolerantes diretas e gratuitas.
Por fim, acima de tudo devemos entender que não é a ficção que alimenta pensamentos e ideias perversas. As pessoas que têm ideias perversas apenas buscam reafirmações e concordâncias em obras de modo a atenuar suas más ações e ideias.
Espero ter contribuído para o debate.