A meu ver a gourmetização nos componentes que está acontecendo no Brasil (e no mundo) traz uma série de questões:
1 - Cria uma barreira de entrada no mercado. Nem todo jogo precisa de miniaturas e frufrus para ser bom. Aliás, alguns nem mesmo comportam algo assim. O que leva a uma barreira comercial para financiamentos coletivos em que o foco na arte e customizações restringe o campo temático dos jogos a assuntos com "pano pra manga" para artes, miniaturas, etc. Nessa, jogos mais abstratos rodam.
2 - Cria uma barreira econômica. Na medida em que o custo dos jogos cresce pari passo com o que se enfia de frufrus neles. Quem tem dinheiro não liga. Mas a meu ver é uma barreira àqueles que estão chegando ao hobby e não fazem parte dos grupos profissionais mais abastados. Ficam limitados a consumir o de sempre (jogos velhos e tradicionais com preço commoditie) ou ver sua ludoteca crescer muito lentamente na base de compras de oportunidade. Não estou aqui buscando fazer críticas"contra o capitalismo", apenas dizer que preço muito altos para produtos gourmetizados espantam pessoas que ampliariam a massa de jogadores no hobby. É difícil de justificar no contexto brasileiro que uma caixa com um jogo possa sair quase uma salário mínimo...
3- A infantilização aparente do hobby. Que me perdoem os mais sensíveis e entusiastas, mas esta necessidade por bonequinhos e miniaturas para todo lado me parece infância incompleta ou reprimida (e que não se restringe ao hobby..os fãs de quadrinhos e Star Wars que o digam). Eu brinquei até dizer chega com bonecos quando garoto, mas não vejo a necessidade deles para se experimentar jogos de tabuleiro (nem naquela época eu via, me expliquem pq Xadrez, Gamão, , Moinho, Rummikub ou War precisam de frufrus?) A mecânica e a abstração, a meu ver, é o que conta, bonequinhos/miniaturas e todos os frufrus estéticos desviam o foco da partida. Quando era garoto e ainda apreciava RPG, jogava com uma folha de personagem e dados, não era necessário gastos pornográficos com miniaturas de dungeons, monstros, etc. Faço um paralelo com literatura, geralmente, exceto pela infantil, livros tem poucas ou nenhuma gravuras/imagens. Fico com a impressão que a garotada moderna nascida abraçada a um smartphone perdeu a tradicional janela para curtir bonequinhos e com isso acaba achando nos boardgames uma forma socialmente aceitável de brincar com eles. É bom que estejam encontrando a felicidade perdida ☺ mas o excesso nessa recuperação de terreno acaba arrastando todo o mercado para essa direção. Frufrus (e essa é minha experiência pessoal) não só me atrapalham a jogar como tornam as partidas muito mais cansativas. Aprecio minimalismos que favorecem a estratégia e organização das ações e tomadas de decisão. Meeples, para mim, são o limite aceitável de frufrus.
Abraços,